Cantinho da Leitura - 19/06/2006
Conto espírita: O viúvo solitário




Todos os dias, José, um viúvo solitário, visitava a campa da sua falecida esposa. Escolhia uma roupa diferente, passava gel nos cabelos e fazia seu passeio há oito anos. Seus cabelos encanecidos demonstravam a viuvez súbita e o desgosto. José tinha 65 anos, mas aparentava um pouco mais. O olhar perdido, sem brilho. Nada mais importava. O José alegre e bem humorado estava morto. Agora, ele era apenas um viúvo amargo e solitário. Deixava no túmulo da amada uma rosa branca. Não acreditava em nada que não pusesse ver, tocar ou ouvir. Desconfiado. Incrédulo. A esposa morrera de enfarte fulminante há oito anos.

Até que, um dia, tudo mudou! Numa tarde nublada, José chegou à campa da sua amada Josefina. Um homem parecia rezar diante do túmulo. Uma rosa vermelha sobre a campa despertou a curiosidade do viúvo. José chegou mais perto. Coçou a cabeça. Quem seria aquele velho? Sua falecida esposa não tinha parentes naquela cidade. Quem era aquele homem de rosto bronzeado e olhar brilhante? Pensou: - Ah, Zefa, será que você me traía?!

José aproximou- se do túmulo. Encarou o homem com ar desconfiado. O homem parecia rezar, enquanto segurava seu chapéu de palha. O viúvo deixou a rosa branca sobre o túmulo. Aguardou impaciente a reza do desconhecido. Queria tirar tudo a limpo.

- Prazer em conhecê-lo, meu nome é Francisco, às suas ordens. Eu já fui coveiro neste cemitério. Sou aposentado, mas estou sempre por aqui. Observo que vem diariamente e deixa uma flor sobre o túmulo da sua falecida.

- O senhor a conhecia?- perguntou o viúvo. Espichou o olhar desconfiado para a rosa vermelha.

- Tive a liberdade de colocar uma flor vermelha no túmulo da sua esposa para ficar mais alegre. Gosto de rosas vermelhas. - justificou-se.

Francisco não arredou pé do túmulo da Zefa, enquanto José fazia suas preces. O viúvo ensaiou até um choro tímido, enquanto pegava o lenço amarfanhado no bolso. Ficou sem graça. Como chorar na frente daquele desconhecido? Estava acostumado a chorar todos os dias na campa da Zéfa. Chorou assim mesmo, enquanto o velho coveiro o observava com os olhos miúdos e enrugados. Queria conversar com a falecida como fazia sempre, mas o coveiro sempre por perto. Puxava prosa. Sorria. José estava cada vez mais irritado com aquela presença inconveniente.

- O senhor precisa trazer lenços diferentes e coloridos. Abaixe o tom do seu choro para ficar mais agradável. - aconselhou o velho coveiro ensaiando um sorriso maroto.

- Qual é sua graça?- perguntou o coveiro Francisco ajeitando o chapéu de palha na cabeça.

- José, ele respondeu com irritação.- Quanto ao meu choro, as lágrimas são minhas e choro como quiser.

- O senhor vem aqui todos os dias e conversa com a falecida. Acha que ela ouve?- o velho parecia caçoar do viúvo.- Eu trabalhei neste cemitério durante mais de 30 anos. Como é triste trabalhar em um cemitério! O senhor deveria contar histórias engraçadas para sua esposa. Ela já deve estar entediada com tanto choro e vela. - José tinha o costume de acender várias velas no túmulo da mulher amada. - As velas cheiram mal, sabia? Morto gosta de vela, mas não precisa exagerar. Por que não traz velas perfumadas? - sugeriu com humor picante.

José fez um muxoxo e respondeu agastado:

- Se ela ouve ou não o meu pranto, o problema é meu! Sinto a falta dela, mas não acredito que os mortos voltem para falar com os vivos. Morreu, acabou!

- Se o senhor não acredita que ela esteja ouvindo seu lamento, por que vem aqui e fica falando sozinho?- perguntou o coveiro com certa curiosidade . - Fiquei sabendo que os mortos vão fazer um protesto para que o senhor caia fora...Eles estão incomodados com o seu choro. É muito choro, sabia? Oito anos chorando! - Francisco meneou a cabeça com certo pesar. - Ninguém merece! - tirou o chapéu e ficou em silêncio.

José enxugou as lágrimas com o lenço amarrotado. A vontade de chorar havia passado, mas a raiva daquele coveiro estava aumentando. Que petulância! Num país democrático como o Brasil, não poder chorar em paz sobre o túmulo da esposa era um absurdo! Pensava seriamente em reclamar no Procon! Falta de privacidade no cemitério.

Francisco sorriu. Aquele sorriso desarmou o viúvo. O velho coveiro começou a jogar conversa fora e contar casos de almas de outro mundo. José ficou mais irritado ainda. Não acreditava nessas coisas mas resignou-se. Começou a ouvir os casos engraçados do velho coveiro.

- É, seu José, teve um caso verdadeiro. O homem tinha tanto medo de cemitério, que um dia, ao visitar o túmulo do pai...

- E daí, Francisco? - perguntou o viúvo com certa curiosidade.

- O medo era tanto...que o homem suava frio.......Eu não vi , mas alguém viu, porque é verdade verdadeira. Chegou perto do túmulo, tremendo de medo. Tremia tanto que sua camisa enroscou num prego. O homem sentiu algo estranho agarrando sua roupa e o coração disparou. Achou que era uma alma do outro mundo que vinha buscá-lo. Pronto! Morreu ali mesmo de medo! Morreu do coração! É, seu José, esse lugar é palco de muita história, sabe! E as almas penadas? Nunca lhe contaram a história da loura que namorou um sargento da Aeronáutica? Pois é... Ela pediu que ele a levasse em casa... Quando chegaram perto do cemitério, a loura su...miu, seu Zé! - o coveiro arregalhou os olhos miúdos e fez uma careta.

- São histórias que o povo conta! - afirmou o viúvo com um sorriso amarelo. Agora não podia mais ter privacidade no próprio túmulo da falecida. Todos os dias, quando ele chegava à campa da Zefa, estava o coveiro marcando ponto no túmulo. A rosa vermelha também. Um dia, ele perguntou:

- Francisco, por que sempre traz uma rosa vermelha ? É para me provocar que o senhor vem aqui? - perguntou José coçando a cabeça. - Por que o senhor não vai chorar no túmulo da sua mulher? Pegue a rosa vermelha e enfeite a sepultura da sua esposa.

- De "jeito maneira, " seu José. O vermelho é a cor da vida e sua falecida está muito viva. Sua esposa falecida, que "Deus a tenha!" (fez o sinal da cruz), está enjoada do seu choro. Ela não agüenta mais ouvir seu choro e disse também para o senhor trocar de lenço. É sempre o mesmo lenço, sabia? O senhor sabe que isso faz mal para o amor, cai na rotina. E, quanto à minha esposa, está bem viva. Sua mulher está muito viva também, não sei aonde, mas está!

- Ara, Francisco, eu não acredito nessas coisas! Nunca vi uma alma do outro mundo! Como posso acreditar se nunca vi, ora bolas! E começo a ter pena do senhor! O senhor fala da minha falecida como se conversasse com ela! Que coisa mais sem pé nem cabeça! O sol na cabeça está fritando seus miolos, seu Francisco! Que pena que o senhor não tem uma falecida esposa! Assim, ficaria na sepultura da esposa chorando e parava de desrespeitar a dor alheia! É fácil troçar do sofrimento alheio! Vá para bem longe daqui! Escolha outro túmulo, mas me deixe em paz! Assim, o senhor não me torrará mais a paciência tirando a minha privacidade e o meu luto!- José estava ficando muito irritado.

Francisco sorriu e continuou a contar seus causos. No início, o Zé fazia cara feia, mas depois começou a achar engraçado. Acostumou- se à presença do velho coveiro na campa da mulher e não fazia mais conta da sua presença. Os dois conversavam bastante, riam dos causos do coveiro esquisito. José começou a apreciar a companhia alegre do velho homem, embora continuasse incrédulo em assuntos do outro mundo.

O velho coveiro não falhava um dia. Marcava ponto no cemitério e chegava antes do viúvo. José estava com a pulga atrás da orelha. Será que ele não amava a Zefa? Será que era um antigo namorado dela? O coveiro sempre por perto e ele parou de chorar no túmulo da mulher. Trazia lenços coloridos e enxugava o suor do rosto, enquanto o velho coveiro contava os seus ?causos? do outro mundo.

- Seu Francisco, eu não acredito em vida após a morte! Venho aqui apenas chorar pela minha véia. A vida para mim acabou! Se eu pudesse dormia por aqui.....- desabafou.

- Posso arrumar para o senhor uma tumba bem fresquinha e vazia! Quer? - o velho Francisco falava sério. José meneou a cabeça com ar de espanto:

- O que é isso, Francisco? Morro de medo de morrer! Ara, to falando por falar!

- O senhor acabou de falar que a vida não tem mais sentido e que gostaria de ficar por aqui. Fácil! Arrumo uma sepultura bem pertinho do túmulo da sua falecida.- tornou Francisco.

- Ara, seu Francisco! O senhor vem aqui, tira a minha privacidade e ainda quer zombar da minha dor ? Ora, vá plantar batatas!- José deu de ombros. Logo depois, arrependeu- se e pediu desculpas. O velho Francisco parecia não se irritar com nada. Estava sempre alegre, assobiando e com ar de criança arteira.

Uma tarde, ele chegou no cemitério e não viu o seu Francisco à espera dele na campa da Zefa. A rosa vermelha estava lá marcando presença, mas o velho coveiro não deu as caras. José estranhou, mas disse para si mesmo:

- Zefa querida, aquele velho chato se mancou! Agora, posso conversar com você e chorar à vontade.- disse. No entanto, não achou mais graça em ficar ali em pé diante do túmulo. Tirou do bolso um lenço vermelho e tentou ensaiar um choro. Não saiu nem uma lágrima sequer.- Viu, Zéfa? Trouxe um lenço diferente para sair da rotina, mas aquele velho chato sumiu. E o pior é que estou sentindo falta das histórias engraçadas daquele coveiro bobo.

Quinze dias se passaram e nada do coveiro. José percebeu que estava ficando amigo do velho homem. Sentia sua falta. Chegou ao túmulo da Zefa, rezou um pouco, colocou a flor e foi embora. Ouviu um ruído diferente, como se fosse uma presença. Teve uma sensação estranha de medo. Lembrou-se das histórias do velho coveiro e sentiu muito medo. Saiu correndo. Tropeçou numa pedra e caiu. Quando se levantou, deparou-se com um túmulo caiado de branco. Limpou a poeira da calça e viu a lápide. Curiosamente, leu o que estava escrito:

Aqui jaz Francisco da Silva, nosso amigo coveiro. Deixa esposa, filhos e netos. Saudades de todos. Falecido em abril de 1975

Havia um retrato do coveiro enfeitado com uma moldura prateada. Ao lado um vaso com flores de plástico. José olhou para a foto e seu coração disparou. Era o retrato do velho coveiro que conversava com ele diariamente no cemitério. Sim, era ele, cuspido e escarrado. José ficou branco! Como era possível? Não, não podia ser. Não podia ser, mas era. Corria o ano de 1985. Fazia 10 anos que o coveiro havia morrido.

José pensou que fosse morrer ali mesmo. Francisco era uma alma do outro mundo? Ah, não! Não podia ser. Saiu correndo do cemitério e não voltou mais lá.

Se você for qualquer dia no cemitério do Caju Seco, andar quatro quadras e encontrar uma sepultura com uma rosa vermelha é a tumba da Zéfa. Ah, o José, o viúvo solitário? Nunca mais apareceu pelas bandas do cemitério do Caju Seco. Dizem que está mais moço, bonitão. Desfilando pelas ruas ostentando na lapela do bolso do paletó um lenço colorido. Agora, se diverte com os filhos, netos e amigos. Contam na cidadezinha de Arraial da Luz que ele está querendo se casar novamente.

Pois é, nunca se sabe...As almas do outro mundo estão por aí!Fique esperto, amigo! Os espíritos desencarnados se misturam com os seres humanos para ensinar que a vida é bela e que a morte não existe!

Conto inspirado pelos espíritos.



Sandra Cecília

 

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