Entrevistas - 26/06/2006
Entrevista Curiosa com Dona Cotinha




Relax Mental está precisando de colaboradores. Quem procura acha! Gostaria de alguém que pudesse nos oferecer sua jovialidade, experiência e sabedoria.
Foi assim que encontrei Dona Cotinha, uma sábia velhinha de 106 anos. Isso mesmo! 106 primaveras muito bem vividas. Encontrei-a em sua casa, um lugar muito simples mas singelo. Dona Cotinha mora sozinha com seu querido cão vira latas, o Tonhão.
Ela é alta, magra e seu rosto bem moreno. Parece uma boa mistura genética de sangue negro com espanhol. Os traços do rosto são marcantes, mas harmoniosos. Seu sorriso é espontâneo e a memória lúcida num corpo forte.
Na sua sala confortável, sentei-me no sofá, enquanto ela se acomodava em uma antiga cadeira de balanços. Na parede, inúmeros quadros e retratos pintados.

Relax Mental: - Foi difícil encontrá-la, Dona Cotinha. Pelo jeito, a senhora não pára muito em casa.

- Não paro mesmo, porque se eu parar muito em casa... envelhecerei muito depressa. Trocarei meus vestidos por um pijama largo e polainas de velha ( he he).

- A senhora tem mesmo 106 anos de idade? - perguntei, incrédula.

- Claro, minha filha e me considero muito nova. Esta cacunda aqui já viu muita coisa e ainda verá. Em que posso servi-la?

- Gostaria que a senhora colaborasse em meu site. Sua experiência de vida será muito valiosa para mim.

  - Site?!!!!!!!! O que é isso?

( Como vou explicar a uma senhora de 106 anos o que é um site? Será que ela sabe o que é internet?)- A senhora conhece a internet?

- Ah, sei, meus tataranetos são vidrados nesta máquina... O tal do computador. Eu não, sabia? Nunca precisei disso ....( riu ). Mas, quando vou à casa dos meninos, observo que eles não tiram o olho da telinha.

- Meu site está na internet e gostaria que a senhora trabalhasse nele.

- Hum!!!!!!!! Tem dim dim? ( seus olhos brilharam)

- O que a senhora perguntou?!!

- Paga um bom salário?- perguntou, com ar divertido. Gosto de dinheirinho também. Aliás, já fui muito pão dura. Agora, estou melhorando!

- Infelizmente, não!

-Estava brincando com você. Sou muito brincalhona. Bem, se você acha que uma velha pode ser útil em seu site... tudo bem. Só que meu tempo é muito corrido.

- Claro! Fico muito orgulhosa que tenha aceitado.

- Não vai querer que eu tire fotos pelada, não é?( deu uma sonora risada)- Hoje em dia, a mulherada está saindo peladona nas fotos... Estou em forma, mas não gostaria de me expor.- piscou um olho.

- Ninguém sairá pelado em meu site, Dona Cotinha. Gostaria que me falasse um pouco sobre sua vida.

- Ah, bom! Bem, minha vida não foi fácil. Meus pais foram escravos... Aliás, meu pai foi o sinhozinho. Ele era espanhol e tinha uma bela fazenda de café. Minha mãe Maria era uma escrava muito bonita. Ela era a mucama da sinhá, mãe do meu pai. Sabe, eles eram bons sinhôs... e meu pai se apaixonou pela minha mãe.

- E como foi o amor de um sinhozinho pela escrava ?,

-Desse amor eu nasci. Sou uma mistura de raças. Nasci livre. Graças a Deus, meu pai me alforriou logo quando nasci. No entanto, a fazenda começou a dar prejuízos. A sinhá e meu pai venderam tudo e se mudaram para o Rio. A fazenda teve outros donos. Meu pai logo se esqueceu da minha mãe e se casou com uma mulher de alta sociedade carioca. Minha mãe morreu muito nova e eu sofri muito até chegar à casa da minha patroa.

- A senhora é uma mulher feliz?

- Sou muito feliz!

- A senhora se casou?

Sim, 4 vezes... e deu um sorriso largo. - Amar é muito bom! Faz bem à saúde.- Enterrei meus quatro maridos!- afirmou.

- Quatro casamentos? Pretende se casar de novo? A senhora está forte e lúcida.

-Não, chega de casar. Apareceu um quinto pretendente, mas eu não quis.

- Não? Por que?

- Muito jovem para mim. Tem 70 anos. Agora, vivo para meus netos, bisnetos, tataranetos e meus doentes- sorriu com bom humor.

- Seus doentes?

- Sim. Sou católica fervorosa e rezo terço na casa de pessoas doentes. Procuro aliviar a dor das pessoas doentes. E isso me fortalece!- fez o sinal da cruz- Fazer caridade é ajudar a si mesmo.

- Chegar até 106 anos com esta lucidez e energia é um privilégio!

- Mas não pense que sou uma velhinha carola e fanática! Quando tenho vontade vou aos bailes ouvir forró. A música rejuvenesce! Se você quer viver muito, coma de tudo,mas não abuse muito de carne vermelha. E, não esquente a cabeça à toa! Se ficar esquentando a cabeça à toa, ficará uma velhinha esclerosada e chata. Eu, por enquanto,estou podendo morar sozinha. Faço minha comidinha e ainda tenho força nas pernas. Espero fazer minha passagem quando Nosso Senhor chamar. Não quero dar trabalho para ninguém.

- Que lição bonita de vida! Então, me fale um pouco sobre os bailes e o forró.

- Adoro forró e música sertaneja também . Lembram minha vida na roça. Já dancei bastante. Agora, por causa de artrite, prefiro ficar sentadinha nos bailes.. Minha audição ainda está ótima.

- A senhora tem uma alegria contagiante! Foi feliz nos casamentos?

- Não ouvi direito. Repita, por favor. Bem, minha audição é ótima para minha idade.. mas não é perfeita- sorriu, meio sem jeito.

- A senhora foi feliz nos 4 casamentos?

- Fui muito feliz mesmo. Aliás, tenho vocação para a felicidade. Adoro ser feliz! Meus maridos foram únicos. O primeiro ia à missa comigo e adorava rezar o terço. O segundo marido era evangélico!

- Evangélico? E vocês não brigavam por causa de religião?

- Brigar por religião é pura bobagem. Vamos brigar contra a violência, o egoísmo, os dólares nas cuecas de não sei quem, as sanguessugas... mas religião é pessoal. Eu ia à missa e ele não faltava aos cultos. E íamos vivendo... O terceiro marido era pai de santo!

- E conseguiu conciliar as diferenças religiosas?

- Claro! As pessoas têm que parar de brigar por bobagens... Não se deve esquentar a cabeça por causa de bobagens. Religião é para unir e fazer o bem. O meu terceiro marido era um homem boníssimo e fazia muita caridade. Nunca se importou com minhas rezas e eu nunca me importei.. com os orixás dele.. Aliás, nos dávamos muito bem na cama.

( Fiquei ruborizada!) Quantos filhos a senhora teve?

- Só por que estou na terceira idade não posso falar de sexo? Tive 15 filhos e 10 estão vivos e saudáveis. Naquela época, não tinha laqueadura de trompas, né? Nasceram todos com a parteira, uma senhora forte de nome Raimunda

- Nossa, quantos filhos! E, hoje em dia, ninguém quer mais do que 2 ou três filhos.

- Você ficou sem jeito quando falei em sexo! Estou velha, mas não estou morta. Bem, hoje em dia não faço mais sexo. Não sinto falta, mas, você não imagina o quanto faz bem para saúde!- disse alegremente. - Meu quarto marido foi mais problemático. Não acreditava em Deus... em nada. Era muito caladão, mas era um homem bom. Costumava me presentear sempre com uma flor. Todos os dias eu ganhava uma flor. Romantismo seduz uma mulher!

- Dona Cotinha, adorei conhece-la. Seja bemvinda a Relax Mental!

- Se é para ajudar as pessoas, será para mim um prazer. Antes de sair, você vai tomar um gole de vinho comigo. Está quase na hora do almoço.

- A senhora toma vinho?

- O hábito de tomar um bom vinho veio do meu pai espanhol. Tomo um cálice por dia e mantenho a saúde das minhas veias, não é?

Fomos para cozinha saborear um bom vinho.

Deseja escrever para Dona Cotinha? Seu e-mail é:


Cotinha Fernandes


Sandra Cecília

 

Copyright © 2003-2009 Relax Mental
Sandra Cecília / Renato Augusto - Relax Mental - desde 13 de junho de 2003