Entrevistas - 26/06/2006
Entrevista Imaginativa com Monteiro Lobato




Era uma linda tarde de sábado. Convidada por amigos, fui levada a um sitio aprazível, cujo nome era tão familiar: Sítio do Pica-pau Amarelo. Pela entrada, senti o cheiro da terra, de mato, uma estranha sensação de nostalgia. Lembranças da infância talvez....

Caminhando sob aquele cenário relaxante, relembrei os personagens marcantes de nossa história, nosso passado e seu autor, o Lobato. Não um Lobato qualquer, mas o inesquecível Monteiro.... E, ao relembrar do mestre e suas criaturas, somos um pouco de cada personagem. Temos, às vezes, a vivacidade da Emília, a casmurrice do Visconde de Sabugosa... Em muitos momentos, nos deliciamos na cozinha no preparo de guloseimas como Tia Nastácia... Talvez, no final de nossas vidas, seremos Dona Benta, a inesquecível vovózinha. A sapequice do Saci-Pererê nos faz pensar coisas do nosso rincão. E o momento infantil vivenciado por Narizinho e Pedrinho, trazem à nossa mente vívidas recordações dos tempos de criança. De repente, cheguei à uma clareira. Algumas árvores frondosas faziam deliciosa sombra em um banco tosco de madeira e ali, um homem sentado. Tinha as feições tranquilas, mas circunspectas. Aproximei-me e observei seu rosto pensativo, sobrancelhas cerradas e grossas. Pedi licença para me sentar. Monteiro Lobato me olhou atentamente quando lhe cumprimentei.

Relax Mental: Faz tempo que o senhor está aqui?

- Sim. Algum tempo, penso eu. E já esperava pela sua vinda.... Me chamo José Renato Monteiro Lobato, filho de José Bento Marcondes. Nasci em 18 de abril de 1882 . Sou filho de José Bento Marcondes Lobato. Sim, sou eu mesmo... Monteiro Lobato!

Relax.Mental: -(faltou-me a fala por alguns instantes... mas, um sorriso paternal me abriria este diálogo) - ...O senhor é mesmo Monteiro Lobato?! O mesmo ...que escreveu tantas maravilhas?? - e ainda acrescentei - mas, por que José Bento... e, não José Renato?

Monteiro Lobato: Monteiro Lobato esboçou um sorriso e prosseguiu: - Desde pequeno, sentia uma fascinação por um objeto pertencente ao meu pai: uma elegante bengala de castão de ouro. Eu sonhava herdá-la um dia. Um detalhe atrapalhou meus planos. As iniciais do nome do meu pai estavam gravadas JBML no castão. Não coincidiam com as minhas. Aí, em 1893, resolvi mudar de nome. Passei a assinar José Bento Monteiro Lobato!

Relax Mental: (Ainda vacilante com tantas perguntas a serem feitas, continuei) ...E então, conte-me um pouco de sua infância. O senhor teve outros irmãos?

Monteiro Lobato: Passei minha infância cercado de cuidados. Fui alfabetizado em casa. Cresci na terra de Visconde de Tremembé, meu avô. Um tio meu deixou na casa do meu avô vasta biblioteca. Ah, eu devorava os livros na fazenda do meu avô! Tive duas irmãs, Ester e Judith.

Relax Mental: ( Lembrei-me do Visconde de Sabugosa e pensei... será que ele foi inspirado no avô de Lobato? Não perguntei sobre isso) Como prosseguiu os estudos na adolescência?

Monteiro Lobato: Fui enviado ao Instituto de Ciências e Letras em S.P a fim de preparar-me para os cursos superiores. Mas eu me correspondia frequentemente com minha família - falou em caráter amistoso.

Relax Mental: Como eram estas cartas?

Monteiro Lobato: Eu descrevia os estudos na Capital. Minha mesada foi ficando cada vez mais resumida. Os negócios do meu pai em Taubaté não iam bem- ( seu rosto adquiriu uma expressão séria e longínqua)

Relax Mental: Foi uma fase bem difícil!- comentei.

Monteiro Lobato: - Sim. As despesas em casa aumentaram e minha mãe caiu doente. Gastava-se muito com seu tratamento. Minha mãe morreu um ano depois da morte do meu pai.

Relax Mental: - Como foi sua vida estudantil em São Paulo?

Monteiro Lobato: - Eu colaborava muito com o Grêmio Escolar e os jornais estudantis. Escrevia contos, crônicas e poesias.

Relax Mental: - Monteiro Lobato, li muito sobre o senhor... e fiquei admirada com sua versatilidade. Contista, desenhista, caricaturista, advogado, fazendeiro... escritor de histórias infantis.. empresário.. Ufa, quanta coisa!

Monteiro Lobato: (Ele sorriu um pouco desconcertado com meu comentário.)

Relax Mental: - Desculpe, acabei falando demais! - comentei atrapalhada.

Monteiro Lobato: - Sabe, escrevi um pensamento, que me volta à memória: "Tentei arrancar de mim o carnegão da Literatura. Só consegui uma coisa adiar para depois dos 30 anos. Literatura é cachaça. A gente começa começa com um cálice e acaba pau d`água na cadeia."(1)

Relax Mental: - O que aconteceu depois que seus pais faleceram?

Monteiro Lobato: - Meu avô foi tutor das minhas irmãs e eu. Decidi meus rumos profissionais. Em 1900, quando estava com 18 anos, ingressei na Faculdade de Direito de São Paulo.

Relax Mental: - Como foi sua vida universitária?

Monteiro Lobato: ( Seu rosto iluminou-se.)- Ah, morei em república de estudantes. A gente se reunia no "Café Guarani" no Largo do Rosário. Pertencer à turma é ser membro do "Cenáculo"- falou em tom jovial.

Relax Mental: - Se não estou enganada, em 1903, um dos participantes do Cenáculo aluga os altos de um sobrado no Bairro Belém. O senhor se mudou para lá!_ afirmei, quase convicta.

Monteiro Lobato: - Isso mesmo! A construção situada no centro de um terreno vazio ganha um apelido: "Minarete".

Relax Mental: - Por que?

Monteiro Lobato: - Sabe o que é "Minarete"?

Relax Mental: - Não.- respondi, um pouco envergonhada.

Monteiro Lobato: - É a Tôrre das mesquitas muçulmanas de onde os "muezins" chamam os fiéis à oração.

Relax Mental: - Senhor Lobato, um grupo de estudantes resolve fundar um jornal, "O Minarete" de Pindamonhangaba. O senhor escreve também para "O Povo" de Piracicaba. Correto?

Monteiro Lobato : - Boa memória! Trabalhei no "Minarete" como escritor, caricaturista, no jornal todo, da primeira à última página. Um jornal inteiro em minhas mãos! Inventei anúncios, criei seções usando para cada uma um pseudônimo. - falou com entusiasmo.

Relax Mental: - Sei de alguns dos pseudônimos- Mem Bugalho, Pascalon, o Engraçado e...

Monteiro Lobato: - Ah! Matinho Dias, Josbém, Hélio Bruma.. Queria que "O Minarete" contasse com uma porção de colaboradores.- sorriu amistosamente.

Relax Mental: - O senhor se formou em advocacia em torno de 1904. Sua vida mudou?

Monteiro Lobato: - Sim. Estava com 22 anos- seu olhar ficou distante por um momento.- Formado, regressei à Taubaté onde fui recebido com muitas manifestações carinhosas.

Relax Mental: - Quem foi Maria Pureza Natividade?

Monteiro Lobato: - Eu me apaixonei por ela!- seus olhos brilharam. Como era moda naquela época, fiz versos para conquistá-la. Eu queria casar-me, mas precisava conseguir um posto de promotor. Consegui o lugar.

Relax Mental: - Como foi sua vida profissional em Areias, Sr. Lobato?

Monteiro Lobato: - Consegui o lugar de Promotor em Areias, mas pouco tive o que fazer por lá profissionalmente. Esperei transferência para lugar melhor, mas não veio. Casei-me assim mesmo... em 1908.

Relax Mental: - Nesta época, o senhor parou de escrever?

Monteiro Lobato: Descobri que poderia ganhar dinheiro colaborando para jornais. Enviei artigos para o "Estado de São Paulo", "Tribuna" de Santos e outros. Ilustrava com desenhos e caricaturas o que escrevia.

Relax Mental: - Estou supercuriosa para saber como nasceram seus famosos personagens infantis....... e, também, o Jeca Tatu- afirmei, alegremente.

Monteiro Lobato: - Ainda em Areias, tive 3 filhos. Morreu meu avô Visconde de Tremembé. As terras ficaram para mim........e virei fazendeiro!

Relax Mental: - Então..... surgiu Jeca Tatu!

Monteiro Lobato: Tentei tudo para a fazenda progredir e obter lucros. Procurei novas técnicas agrícolas, melhorias para os lavradores. Deparei-me, com a "indolência" do caboclo. Procurei as causas para a dificuldade de adaptação. Não era preguiça como costumeiramente se pensava, mas sim moléstias endêmicas e péssimas condições do ambiente. Nasceu Jeca Tatu, meu personagem caboclo. Publiquei a história num livreto de publicidade de um medicamento de combate à verminose.

Relax Mental: (Ouvia maravilhada com tanta criatividade!) - O senhor continuou escrevendo?

Monteiro Lobato: - Não abandonei a Literatura um só momento. Em 1914, publiquei dois artigos no "Estado de São Paulo": Velha Praga e Urupês.

Relax Mental: - "Velha Praga" comentava sobre os males da queimada?

Monteiro Lobato: - Isso mesmo!

Relax Mental: - O senhor continuou fazendeiro?

Monteiro Lobato: - Não. Em meados de 1917, consegui vender a fazenda e fui para São Paulo.

Relax Mental: - E... continua escrevendo?

Monteiro Lobato: - Minha paixão foi a Literatura!- seu olhar ficou quase nostálgico como se recordasse algum momento especial ou então algum personagem.

Relax Mental: - Como surgiu o Saci?_ estava curiosa demais e não tinha muito tempo para a entrevista. Teria que aproveitar todos os minutos.

Monteiro Lobato: - Através do Brasil fiz um enquete sobre o saci, personagem do folclore brasileiro.

Relax Mental: - Como se saiu?

Monteiro Lobato: - O enquete fêz sucesso e resolvi publicar em forma de livro.

Relax Mental: - E nasceu Lobato como editor- afirmei.

Monteiro Lobato: (Ele confirmou com um sorriso) - Em 1918, publiquei meu primeiro livro: Urupês.

Relax Mental: - No ano seguinte, se não me engano, o senhor fundou a Editora Monteiro Lobato& Cia. Deu certo?

Monteiro Lobato: - Em 1924, vem a falência.- afirmou. - Não desisti e fundei nova Editora em sociedade com amigos.

Relax Mental: - Esta mesma empresa se transformou mais tarde numa das maiores do país: a...ih.....esqueci o nome!

Monteiro Lobato: ( Lobato sorriu com uma expressão amigável) - Chamava-se Cia. Editora Nacional.

Relax Mental: - Estou mais do que curiosa..... para saber como nasceram os personagens do Sítio!- afirmei.

Monteiro Lobato: ( Lobato ficou animado. Senti o quanto estes personagens significavam para ele)- Comecei outro estilo de literatura: para as crianças.. A primeira história da série chamava-se "A menina do Narizinho Arrebitado"... Não pensei que fosse fazer tanto sucesso! Foi editada em 1921.

Relax Mental: - A Narizinho!- exclamei animada.

Monteiro Lobato: - Fui buscar na minha infância na roça... os meus queridos personagens: Emília, a boneca ; o Visconde de Sabugosa; Tia Nastácia; Rabicó, o Porco; Dona Benta e o Pedrinho...... ( seus olhos ficaram cheios d`água. Estava emocionado! ) As primeiras edições eram feitas em papel jornal.. e meu primeiro ilustrador chamava-se Belmonte..

Relax Mental: - Seus personagens são famosos até hoje, Sr. Lobato. O senhor têm conhecimento disso? - (Havia tanta coisa para falar, a viagem de Lobato a Nova York, o petróleo, sua prisão...mas, algo me dizia que a entrevista estava terminando... Lobato foi um dos primeiros autores a sobreviver da Literatura. Não ficou rico, mas seu talento foi próspero... Foi um homem especial! ) - Desculpe, eu pensava em seus personagens. Gostava da Tia Nastácia e seus quitutes, Dona Benta...

Monteiro Lobato: "Escrever para crianças é semear em terra roxa virgem."( 2 )- disse em tom melancólico, mas seus olhos tinham um brilho especial.

Relax Mental: - Queria lhe agradecer por esta oportunidade de conversar com o senhor.

Monteiro Lobato: - Saber que gerações e gerações infantis convivem com meus personagens me enche de alegria- disse e levantou-se. Antes, cumprimentou-me com um aperto de mão.

Relax Mental: (Cumprimentei-o e o vi desaparecer por entre as brumas da minha imaginação) Senti uma intensa emoção misturada à nostalgia da infância. Jamais esqueceria aqueles momentos.

Monteiro Lobato, consagrado como escritor das crianças, morreu de um derrame em Julho de 1948.

Singela Homenagem ao nosso querido escritor Monteiro Lobato.

Notas:- (Trechos em vermelho são expressões do próprio escritor)

1. Comentário feito no dia 16/06/1904.

2. Trecho da Carta de Lobato a Otaviano Alves de Lima em 13/08/1946.

Fontes consultadas:

Agradecimentos ao senhor Àlvaro Gomes. ( Homepage oficial do Escritor Monteiro Lobato ) pela autorização da publicação desta entrevista.

Site oficial de Monteiro Lobato : www.lobato.com.br

Enciclopédia Conhecer ( Editora Abril Cultural)- Editor Victor Civita

Volume XII- páginas 3006 a 3007.

Bibliografia consultada : Enciclopédia Conhecer (Editora Abril Cultural)

Editor Victor Civita- Volume XII- páginas 3006 e 3007.

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