Cantinho da Leitura - 23/07/2006
Fábula espírita: O cisne que virou patinho feio.






Num grande lago, o patinho tentava ser feliz. A mamãe pato era muito amável e carinhosa com todos os cinco patinhos. O Neco era diferente de todos. Mirrado. Franzino. Teimoso. O bico tinha uma saliência que lhe dava um ar desengonçado. Mancava um pouco, mas nadava muito bem e era um exímio pescador. Fazia questão de liderar os irmãos nadando no lago de águas transparentes. Sentia-se como se fosse um lindo cisne e queria ser um cisne. Nascera pato. Difícil aceitar a dura realidade. Fazia pouco da sua família unida. A mãe pata ficava preocupada e dizia:

- Neco, por que você é tão triste e pensativo? Aqui você tem tudo: sol, água fresca, peixes, sua mãe e seus irmãos.

Neco batia as asas e olhava para a mãe pata com olhar indiferente. Queria fazer parte de outra família. Queria outra vida e outra família.

Um dia, Neco sentiu o coração disparar no seu corpo de pato.





Viu a mãe Cisne nadando com os filhotes no grande lago. Quase ficou para trás quando parou de nadar para admirar a bela família. Isso que era família! Uma linda família de cisnes. Os filhotes eram desengonçados, mas dentro de pouco tempo, teriam a expressão majestosa da mamãe Cisne. O Pai Cisne tinha um porte garboso e elegante. Neco ficou babando de tanta inveja. Um dos seus irmãos resmungou:

- Neco, o que está olhando? Está atrasando a mamãe! Precisamos voltar para o abrigo. Vai anoitecer. - avisou.

- Oh, que lindo espécime de ave! Sou parecido com eles! Não tenho nada a ver com vocês! Veja, meu pescoço se parece com a Mamãe Cisne!- a mãe pato sorriu um sorriso de pato.

Repreendeu o filho com bom humor:

- Ara, Neco, você está se sentindo o patinho feio da fábula "O patinho feio"? Meu filho, olhe para você! Você é meu filho! É, e sempre será um pato, mas eu quero que seja um pato feliz. Você manca um pouco, mas nada como um peixe. Você é um grande pescador! Seu futuro será magnífico! - elogiou a mãe orgulhosa.

Neco fez cara feia e continuou com o olhar lambido para a Mãe Cisne e os seus filhotes.

 - Neco, pára de ser bobão! Você não é cisne, é apenas um pato!- ironizou sua irmãzinha Pata Filomena.

A noite chegou e a família dos patos se refugiou no belo abrigo de madeira fincado na floresta. Na escuridão do abrigo, Neco choramingava. Ela havia reparado em seu reflexo na água transparente. Sim, era parecido com um cisne. Ele se negava a ser pato!

Todos os dias, olhava embevecido a família de cisnes. Eles estavam de passagem. Iriam para um lugar longínquo por causa da mudança de estação. Neco decidiu. Queria ir embora com eles. Enquanto a mãe pata ciscava na terra e os irmãos brincavam, Neco pulou na lagoa. Nadando chegou bem perto da família de cisne. Enfileirou-se junto com os cisnezinhos e ficou por lá mesmo. A noite chegou e o pato sonhador partiu junto com os cisnes.






Voaram um pouco e pararam em outra mata que parecia uma grande campina. Aí, a mãe Cisne se deu conta de que o pato Neco estava por lá. Intrigada perguntou:

 - Quem é você, patinho? O que faz aqui? - ela perguntou. Pai Cisne empertigou-se todo e olhou feio para o intruso pato.

 - Sou Neco, sou um cisne também. É que sou um filhote!- justificou-se. - Eu sei pescar muito bem. Deixe-me ficar com vocês, pois perdi toda a minha família. - mentiu.

O pai cisne achou aquela história muito mal contada, mas a Mãe Cisne se encantou com o patinho feio.

 - Você não é um cisne, mas pode fazer parte da nossa família. Só que terá que ficar no final da fila quando a gente cair no lago.- ela disse. Neco não gostou muito da idéia, mas concordou. Os dias se passaram. Mamãe Cisne o tratava muito bem, mas o Papai Cisne mantinha distancia. Os filhos da família Cisne não gostavam muito do patinho feio metido a cisne.

Uma noite, Neco teve um sonho estranho. Apareceu para ele um grande cisne Branco cheio de luz. A luz era tanta que quase o cegou. O cisne bateu as asas e vaticinou:





- Por causa da sua vaidade e orgulho, corre perigo. Sua mãe pata está desesperada. Volte para casa, Neco! Enviarei um pombo correio para orientar seu caminho de volta.

 - Não quero voltar e não sou pato. - teimou Neco revoltado.

 - Você já foi cisne em outras vidas, Neco, mas abusou do seu poder e da sua beleza desprezando todos da floresta. Você mesmo pediu para voltar novamente como pato, um pato mirrado e quase feio. Mas poderá mudar seu destino e ser um pato feliz e inteligente. Se você se empenhar será o pato mais esperto da lagoa. Está em suas mãos a felicidade!

 Neco agitou as asas nervosamente:

- Sinto que sou um cisne, grande Luz!

- Volte para sua família, seu lugar é junto com seus verdadeiros irmãos. Se teimar, não poderei ajudá-lo. Você está muito apegado à forma e a beleza. Sinto muito, mas se teimar em viver um destino que não é o seu, não poderei mais ajudá-lo.- afirmou com voz grave.

- Não, não e não!- teimou. Daqui a alguns meses, vou crescer e me transformar num grande e imponente cisne.

- Não se engane, Neco!- advertiu o cisne iluminado.

 Neco acordou sobressaltado. Naquele instante, sentiu uma grande saudade da mãe Pata e dos seus irmãos patinhos, mas queria outra vida. Vida de cisne com família de cisne, com vôo de cisne.

Alguns dias se passaram e Neco esqueceu-se do sonho premonitório. Voou para longe junto com sua nova família. Sentia-se muito só, porque seus irmãos postiços não o aceitavam. Ele estava crescendo mas seu pescoço continuava o mesmo. Pescoço de pato. Asas de pato. Coração de pato. Não! Tinha certeza de que era um lindo cisne. Aos poucos, o seu pescoço cresceria.

Depois do longo vôo, pararam numa clareira para descansar. Havia um pequeno lago. Nadaram para matar a sede e pescar. Neco pescava muito bem e se sentia vaidoso como nunca. Fazia tudo para agradar seus irmãos,mas não conseguia.

 - Neco, você pesca bem, mas continua pato. E quando vai crescer seu pescoço, seu bobo? - brincava o cisne filho alongando o pescoço esguio cheio de vaidade. Mãe Cisne dizia:

 - Neco, é um lindo patinho diferente. Ele sabe disso!

 Neco resmungava:

 - Serei um lindo cisne como vocês!

 A manhã estava fria. A família aproveitava o banho na água azulada do lago. Mamãe cisne sentiu um calafrio. Ouviu rumores diferentes na clareira. Temeu pelos filhotes. Avisou papai Cisne sobre sua intuição. Estava apreensiva.

 A mata recebeu uma visita de caçadores de marrecos e pequenas aves. Eles estavam famintos e pararam na clareira para descansar e comer. Um deles , espichou o olhar arguto para o lago e observou:

 - Companheiros, minha barriga dói de fome e não conseguimos nenhuma caça até agora. A corça perseguida conseguiu fugir e um marreco também. Só nos restam cisnes.- disse em tom de zombaria.

 Um dos caçadores , pegou o binóculo e olhou a família de cisnes. Quatro estavam bem crescidos, mas um era diferente. Mergulhava como nunca e pescava com agilidade, mas tinha um jeito diferente.

 - Gente, não vamos caçar cisnes. A carne não é boa, aliás, nunca experimentei! - afirmou, faminto. Entregou o binóculo para outro caçador e apontou: "Olhe aquele cisne, o último da fila. Viu como é diferente e gorducho?" O outro caçador observou o patinho Neco e caiu na gargalhada:

 - Companheiros, aquele "cisne" não é cisne, mas um pato e muito desengonçado. Feio mesmo, mas está muito gordo! No ponto! Dará um belo assado! - afirmou enquanto esfregava a mão na enorme barriga.

- Vamos, Tonho, prepare a espingarda! O nosso almoço logo estará no papo.

 Pronto! Tonho , ótimo caçador, mirou Neco e o tiro foi certeiro. Neco estava saindo da água e foi atingido mortalmente.

 Neco, a reencarnação de um cisne orgulhoso, morreu na mira de um caçador faminto. Neco achava que era cisne, mas era pato virou carne assada no espeto. Neco que havia sido cisne em outras vidas, falhou novamente por causa da vaidade e do orgulho.

 Agora, ele está no plano espiritual dos animais esperando nova chance de voltar para Terra. Conseguirá uma nova experiência, mas voltará ainda como pato até aprender a se conformar com situações que não pode modificar.

Saber o limite da fantasia e da realidade nos ajuda a diferenciar as falsas e verdadeiras limitações. Aceitar-se é um grande passo para sua saúde mental, emocional e física. Independente de suas encarnações de poder, de beleza ou destaque, pense somente no agora, lutando para se melhorar mais aceitando aquilo que não pode modificar!

Conto inspirado pelos espíritos.


Psicografia do dia 29/04/06 realizada no Grupo da Fraternidade "Irmão Altino".




Sandra Cecília

 

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