Cantinho da Leitura - 24/07/2006
Conto- Sonhos de amor

Diário da Marina






"Estou muito feliz! Augusto e eu selamos nosso compromisso de amor. Nós nos encontramos num lugar maravilhoso. Havia uma linda cachoeira de água espumante. Ruídos misteriosos, cheiro de mato e aroma das flores miúdas misturadas com as pedras.

Amo Augusto! Sou louca por ele! Agora, não preciso sentir inveja da Clara, aquela menina vesga metida a inteligente. Não preciso me comparar à Tina, a garota mais sensual do colégio. Não preciso invejar os olhos verdes da Susana.

Tenho 18 anos e um homem maravilhoso me chama de linda. Nossos encontros fazem parte de um sonho, mas são meus!

Nosso primeiro encontro foi lindo! Eu adormeci na cama depois de chorar muito. Havia ficado com Sérgio, aquele garoto antipático da escola. Ele era um gato e quis ficar comigo.

No entanto, nossos momentos não passaram de momentos. Beijos. Abraços apertados. Toques.

Quando eu ia às baladas, lá estava Sérgio. Ficávamos sempre juntos. Ele não me chamava de linda como o Augusto, mas eu me sentia nas nuvens ao lado dele.

Meu castelo desmoronou num sábado durante uma balada. Sérgio estava com uma menina linda. Eu nunca a havia visto por lá. Seus cabelos eram negros, brilhantes. Todos olhavam para ela. Sérgio passou por mim abraçado à menina. Senti um aperto no peito.

Cheguei em casa. Mal falei com minha mãe. Deitei- me na cama. Chorei muito. Eu me senti a mais boba e a mais feia de todas as garotas. E, quando fui ao banheiro para escovar os dentes, havia uma espinha nova no meu queixo. Odiava espinhas. Odiava a mim mesma. Desejava morrer! Não morri. Dormi!

Meu travesseiro úmido por causa das minhas lágrimas. Eu era apenas uma garota baixinha e insignificante. Aluna mediana do colégio. Meus cabelos não brilhavam e minhas pernas não eram bonitas. Os olhos escuros não tinham as sobrancelhas sensuais da Joana. Meus seios não eram grandes como os da Lúcia. Ela saía de roupas justas e decotadas para provocar os rapazes do colégio.

Era a garota mais falada do colégio. Eu sentia inveja dela. Aliás, a inveja fazia parte do cenário da minha adolescência.

Naquela noite, eu dormi...Nos meus sonhos, apareceu o Augusto. Nosso primeiro encontro, foi numa praça florida. Era um rapaz claro, de cabelos loiros e olhos castanhos. As sobrancelhas eram bonitas e as mãos alongadas. Alto e forte, com um sorriso encantador! E a boca... Nossa! A boca de lábios carnudos. Lábios que pediam muitos beijos de língua. Eu me apaixonei no primeiro sonho. Ficamos juntos sentadinhos no banco da praça. Ele me dizia:

 - Eu a procuro há muito tempo. Você não sabe, mas nós nos conhecemos há séculos.. Você é linda! Quer ser minha namorada?

 Ninguém havia me chamado de linda. Minha vida era feita apenas de pedaços de alegria. Meus pais me chamavam de bonitinha. Minha melhor amiga dizia que eu era inteligente, escrevia bem e era muito bondosa. Ninguém me chamava de linda! Roberto, o sardento da minha sala, me chamava de a magrela espinhuda.

Augusto, o rapaz que aparecia em meus sonhos me chamava sempre de linda!

 Agora, eu só queria sonhar!

Chegava correndo da escola e deitava-me na cama para uma rápida cochilada até à hora do almoço. Sonhava com Augusto. À tarde, adormecia em cima dos cadernos. Sonhava com meu Augusto, o amor da minha vida! Meu segredo maluco!

Agora, eu só queria sonhar! Minha mãe via com estranheza o meu silêncio. Nunca mais fui às baladas. Dormia cedo para sonhar com Augusto. Um dia, fizemos amor na praia e e me tornei mulher! Foi maravilhoso! Eu me senti tão feliz que parecia verdade.

Sonho e realidade se misturavam na minha vida solitária.

Augusto selou nosso amor com um anel de compromisso. Ele afirmou que eu encontraria esse anel. Acordei feliz! Nada havia em meu dedo anular da mão direita.

Naquela manhã, fui à praia com algumas amigas. Caminhando na areia, achei o anel de Augusto. Dei um grito de alegria! Augusto! Augusto! Augusto! Meu sonho de amor!

 Meu sonho agora se transformou em pesadelo. Meus pais querem me levar ao médico. Estavam preocupados com minha saúde. Dizem que eu estava dormindo demais! Não estava dormindo! Estava vivendo! Quero viver! O médico conversou muito comigo. Ninguém sabia do meu segredo.Não posso contar a ninguém.

Voltei para casa com alguns soníferos. Não posso contar a ninguém. Minha mãe não me entende e nem meu pai que só pensa em carros e corridas de cavalo.

A vigilância materna era total! Tomei os calmantes.

 Fiquei uma semana inteira sem sonhar com Augusto. Não! Esses remédios não podiam destruir meu sonho de amor. Cochilava e não via mais meu amor.

À noite, a solidão era amarga. Os sonhos acabaram! Ah, quero morrer! Não tenho vontade de comer.

Minha mãe está preocupada! Falam em esquizofrenia, depressão...

 Agora, durmo de roupa. Comprei uma roupa nova para sonhar com Augusto. Um lindo vestido azul. Nada adiantou! Minha mãe ficou assustada! Quando me acordou de manhã, eu estava dormindo com um vestido de baile. Não estou ficando louca!!! E se é loucura ,que venha a loucura. Venha, loucura maravilhosa!

 Quero voltar a sonhar com Augusto. Augusto, venha me buscar, por favor! Venha! Eu o espero!"

Rosa,a mãe de Marina, fechou o diário da filha. Uma crise de choro invadiu seu corpo e seu coração. Nada sabia sobre a filha. E, agora de que adiantava? Marina estava morta, atropelada por um motorista bêbado que dirigia em alta velocidade. O arrependimento doía. Sua omissão inconsciente fazia tremer as fibras da sua alma. Mesmo assim, amava Marina!

O marido e pai abraçou Rosa. Chorou copiosamente:

- Rosa, nossa filha estava muito doente!

- Será, meu querido? Quem estava realmente doente éramos nós dois! Mergulhamos em nossos sonhos de ilusão, de poder e dinheiro. Você acha que um vidro de ansiolíticos cura falta de amor? Cura solidão? Marina precisa de pai e de mãe para se valorizar , para se amar...Mas sempre estávamos muito ocupados.

Depois do enterro, Rosa tentou dormir sem comprimidos. Sonhou com uma linda praia de ondas calmas e azuis. Caminhando na areia passou um casal.

Era Marina e Augusto. Caminhavam de mãos dadas. Rosa gritou, chamou a filha, mas em vão... Não conseguiu chamá-la!

Marina vivia integralmente seu sonho de amor!









Sandra Cecília

 

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