Cantinho da Leitura - 25/07/2006
As razões do destino (Conto)





Quando Luciana completou quinze anos, ganhou um presente inesperado dos pais: uma imagem de Santo Antonio. A mãe disse orgulhosa:

_ Luciana, chegou a sua vez! Este Santo nos acompanha há muito tempo. Passou por todas as mulheres da família e todas se casaram. Agora, você já é uma mocinha! O Santo Antonio ficará no seu quarto. Quando você se casar, a imagem será doada para a mulher mais nova da família. É uma tradição familiar! Esse santo nos trouxe sempre esperança e amor! 

Luciana olhou para o santo com certo descaso. A família era católica fervorosa. A sua casa sempre cheia de gente. Novenas, orações e estudos bíblicos. A devoção por Santo Antonio inquestionável! A moça não tinha religião definida. No momento, seus objetivos eram os estudos. Queria um destino diferente. Não sonhava com o casamento. Quando se lembrou das irmãs, lançou um olhar irônico para a imagem. Beth era casada com um homem gordo e pão duro. Luísa casara com um homem muito ciumento. A sua casa tinha que estar sempre imaculadamente limpa. Sonia casara com um homem franzino e implicante. Francisca casara com um católico fanático. O homem não saía da igreja. A vida da Francisca se chamava monotonia; da casa para a igreja e da igreja para casa. Sem contar nas inúmeras fraldas molhadas tremulando nos varais. Sua irmã vivia grávida e enjoada. Luciana deu um longo suspiro:

- Mãe, obrigada pelo lindo presente, mas não posso aceitar. Que tal minhas primas? Não gosto muito de santos e não pretendo me casar!- protestou decidida.

- Não rejeite o santinho. - censurou o pai.

A mãe fez o sinal da cruz imediatamente.

- Uma tradição de família! Você deseja quebrar uma tradção de família, Lu?- Catarina ficou muito nervosa.

- Tá bom!- concordou Luciana a contragosto.- Deixe em cima da cômoda. Não gosto de santos e tão cedo não pretendo me casar. Aliás, acho que não me casarei!- começou a enrolar os cabelos com a ponta dos dedos numa atitude displicente.


Os pais colocaram o santo em cima da cômoda e saíram do quarto. Luciana não conseguiu dormir direito à noite. Sonhou com o seu casamento. O noivo tinha 80 anos e entrou de bengala na igreja. Um pesadelo terrível. Acordou assustada e olhou para a imagem. O Santo lá estava impassível como sempre. 

O tempo passou e Luciana permaneceu solteira. Estava com vinte cinco anos. Coincidência ou não, os pretendentes apareceram logo depois que ela ganhou o santo. Luciana rejeitou todos. Os rapazes queriam compromisso sério, mas ela não se apaixonou por nenhum deles. Armando tinha uma mercearia, mas mal sabia conversar. João não gostava de escovar os dentes. Paulo gostava de contar piadas e falava muito alto.

Meses depois, o pai de Luciana morreu de enfarte durante uma novena em sua casa. Catarina, a mãe, ficou ainda mais fanática por rezas e missas. Todos os dias, entrava no quarto da filha para acender uma vela para o santinho:

- Alguma coisa está errada, filha. Você já está com vinte e cinco anos e nem tem namorado. Vou levar o santo!

Luciana sorriu satisfeita. Até que enfim, se livraria do santo casamenteiro. Fez um muxoxo e disse fingindo tristeza:

- Vou sentir a falta dele, mãe! Mas se assim que deseja ...Pode levar!- disse, aliviada.

- Ele voltará, filhinha.- consolou a mãe.

    - Como?!! Ele voltará para meu quarto? Ah, não! Mamãe dê o santo para minha prima Tânia. Ela vai adora, porque ainda não se casou.

- Sua prima mudou de religião. Agora é evangélica. - a mãe da Luciana arregalou os olhos e fez o sinal da cruz. - Bem, vou levar o santo. Vamos colocá-lo de cabeça para baixo. É necessário fazer algumas simpatias para que você desencalhe, filha. 

   - Ficou louca, mãe? Pegar a imagem e colocá-la de cabeça para baixo?- Luciana desatou a rir.

- Não ria de coisa séria! São simpatias comprovadas. - Dona Catarina pegou a imagem e saiu.

Santo Antonio dentro d´água, de cabeça para baixo ou trancado dentro do armário. O santo não parava mais no quarto de Luciana. A moça estava cansada de tanta reza, novena e simpatia. A família comentava penalizada:

"- Luciana está demorando para se casar! O que será que está acontecendo? Não é bom sinal! Até a tia Eufrásia casou!"

Tia Eufrásia sofria de gases intestinais desde os 10 anos. Mesmo assim, conseguiu arrumar um marido. Era um senhor franzino e calado. 

Luciana estava com 30 anos. Formara-se no curso superior de Matemática. O Santo Antonio estava em seu quarto novamente. Os pretendentes a marido voltaram, mas a jovem Luciana, agora, mulher madura, não se apaixonara por nenhum deles. Estava muito irritada com a presença daquele santo em sua cômoda. Era um estigma do qual não conseguia se livrar:

  - O senhor já está me enchendo a paciência! Já falei que não quero me casar! Não agüento mais essas rezas em minha casa. Santo Antonio, me desculpe, mas tomei uma decisão. O Senhor vai morar em outro local, sabia? Fará parte da igreja mais bonita desta cidade! Por que não? Moças aflitas por casamento poderão rezar aos pés da sua santa imagem! Eu não! Não me casarei!- afirmou, decidida.

Luciana decidiu. Acabaria com uma tradição de família, mas se livraria do santo. Tudo preparado. Os parentes se acostumariam. Colocou a imagem numa caixa de madeira. Teve muito cuidado para que ninguém a visse sair com ele. Seria um Deus não acuda!

- O senhor vai morar numa bela igreja!- afirmou decidida.- Arrumará casamento para muitas mulheres! Os candidatos a marido que o senhor arrumou para mim, deixaram muito a desejar.- concluiu, com certa amargura.

Chegou à igreja da cidade de manhãzinha. Estava à procura do Padre Carlos antigo pároco. Tirou com muito cuidado a imagem da caixa e aproximou-se do altar. A imagem era grande e bonita. Todos gostariam de ganhar aquela relíquia. Quando aproximou-se do altar, deparou com um par de olhos verdes e brilhantes. Não era o padre Carlos, mas um padre novo de, no máximo, 30 anos. Ele a fitou com ar surpreso. Seus olhos brilhantes voltaram-se para a bela imagem:

- O que a senhora deseja? Que bonito santo! Estou reconhecendo! A histórica imagem da família Almeida.- o homem sorriu gentilmente.

    - Gostaria de doar este santinho à igreja. É uma promessa! - mentiu, aflita.- Os olhos verdes a fitaram de novo. Luciana sentiu um arrepio na espinha.

- Onde está o padre Antonio? - perguntou olhando para os lados.

- Padre Carlos está adoentado e repousa na casa de parentes. Amanhã, chegará outro pároco. Estou neste paróquia há apenas alguns meses, mas hoje é minha última missa. - avisou o padre com ar sorridente.

- Por que? - perguntou Luciana curiosa. "Um padre tão simpático de olhos verdes. Como deveria ser interessante acompanhar sua missa."- pensou.

- Vou deixar a batina. - respondeu com ar sério. - Pretendo me casar e servirei a Jesus de outra forma.- seus olhos ficaram mais brilhantes. - Luciana sentiu outro arrepio na espinha. Até aquele padre desejava se casar? - pensou, revoltada.

- Padre Carlos, o senhor não pode me impedir de cumprir uma promessa. O Santo não vai gostar disso.- ponderou Luciana irritada.

- Qual o seu nome? - perguntou o padre. _ Não posso ficar com a imagem sem a aprovação do padre Carlos. Faz parte da sua família. Pense melhor!- pediu ele.

    - Meu nome é Luciana. - respondeu contrariada. - O senhor vai rejeitar o Santo Antonio, relíquia da família Almeida?

- Não posso, Luciana- retrucou o padre. Conheço a história deste santinho. Padre Carlos me contou. Ele faz parte da tradição da família!- fitou a imagem com ar respeitoso.

    - O senhor não pode fazer isso comigo! - Luciana estava quase gritando.

- A senhora está se sentindo bem? - perguntou o padre com ar preocupado. - Parece nervosa e preocupada.
 
- Estou ótima, padre!- respondeu, tentando disfarçar o nervosismo. "Não é o senhor que tem uma família fanática por rezas e casamentos. Não é o senhor que tem que aturar todos os dias olhares esquisitos só pelo fato de estar solteira."- pensou. 

- Padre Antonio, às suas ordens! Você está muito nervosa! Tem algum problema? Posso ajudar? - perguntou o religioso. Seu olhar se demorou naquela mulher madura de olhos escuros, cabelos crespos que emolduravam seu rosto delicado. Seu olhar sensível se demorou naqueles olhos escuros e tristes. Sentiu uma sensação estranha, quase familiar. Luciana devolveu o santo à caixa e despediu-se rapidamente dele:

- Desculpe, se eu o atrasei, padre. Se mudar de idéia, por favor, me procure.- ela pediu com olhar súplice e afastou-se. Luciana saiu da igreja e voltou para o carro. Tudo ficava na mesma. Nenhum padre aceitou o Santo Antonio. Todos temiam contrariar a Dona Catarina. 

Luciana completou 31 anos. Tia Eufrásia e o marido a visitaram. Fizeram questão de ver a imagem do Santo Antonio. O marido da Eufrásia, Pedro era um senhor grisalho de olhos pequeninos e ar desconfiado. Tia Eufrásia falava muito alto:

- Oh, meu santinho! Estava com saudades do senhor!- beijou a imagem com respeito. - Está  em boas mãos! E, você, Luciana, já tem um noivo? - perguntou curiosa.

De repente, um cheiro forte e desagradável se espalhou pelo quarto. Luciana teve vontade de rir. Infelizmente, o problema dos gases da Tia Eufrásia não havia se resolvido. Ela encarou o tio Pedro com um sorriso irônico. O homem parecia imperturbável:

- Eufrásia queridinha, como pôde fazer uma coisa dessas perto do santo? Ora, Eufrásia!- censurou Pedro desconcertado.

Eufrásia fez uma careta:

- Ora, você sabe que sofro de gases. Não consigo me controlar, Pedro. Santo não sente cheiro! Está acostumado aos aromas das flores do Paraíso. - Eufrásia se benzeu com fervor.

- Vão levá-lo? Pronto! Estou doando nesse momento o Santo Antonio à minha querida tia Eufrásia.- disse Luciana com afetação.

- Eu já me casei, graças ao santinho, não é Pedro? - disse, Eufrásia com orgulho. Luciana pensou: "Coitado do tio Pedro! O amor deixa as pessoas cegas e sem olfato também."

Recomeçaram as novenas, as rezas e ladainhas. Santo de cabeça para baixo e dentro d`água. Santo de costas para a parede. Luciana estava a ponto de ter um colapso. Uma chuva de pretendentes a marido surgiu em sua vida. Luís, um homem alto, fumante inveterado de charuto cubano. Depois Pedro, um rapaz com tique nervoso: piscava um olho e pigarreava. Apareceu Jurandir, um farmacêutico com mania de doenças. Luciana rejeitou todos os pretendentes. Não suportava mais olhar para o Santo Antonio:

- O senhor está brincando comigo? Já prestou atenção nos meus namorados? Está se divertindo às minhas custas? Quem o senhor pensa que é? Amanhã mesmo vai sair deste quarto!- protestou indignada. - Não quero me casar, sabia? O Senhor sabe que não sou mais virgem... mas guarde segredo! Se minha mãe souber, me mata!- disse, piscando o olho.- Não quero passar minha vida inteira lavando cuecas e preparando jantares sem graça. 

No mundo de Luciana ainda não havia lugar para o amor. Talvez estivesse no mais recôndito do seu ser, preparando-se para despertar. E o fanatismo da família Almeida provocava todos os seus medos mais íntimos.

Luciana colocou o santo na caixa de madeira e voltou à paróquia. Três meses haviam se passado. Padre Carlos estava de volta! Tudo daria certo dessa vez.

    Entrou na igreja. Era um dia frio e cinzento. Tirou o santo da caixa com muito cuidado. No entanto, algo estava diferente naquele templo. Muitas flores e uma decoração cheia de fitas entre os bancos da igreja.

No altar estava Padre Carlos, um velhinho simpático, fazendo os últimos preparativos para o casamento que se realizaria dentro de meia hora. Luciana admirou os enfeites e ficou muito curiosa. Quem iria se casar naquele fim de tarde frio e chuvoso? Aproximou-se do pároco com a imagem nos braços e disse com ar respeitoso:

    - Padre, sua benção!- cumprimentou enquanto beijava as mãos enrugadas do religioso.- Padre Carlos, estou feliz com sua recuperação. Como sei que é devoto de Santo Antonio, resolvi doar essa imagem para o senhor e essa linda igreja.- disse. 

O padre parecia distraído. Ergueu a cabeça grisalha e fitou a imagem com seus olhos pequenos e míopes:

- O Santo Antonio dos Almeida! Linda imagem! Seria uma honra, tê-la em minha igreja, mas...

  - Mas o que, padre? O senhor vai rejeitar o santo?-perguntou contrafeita.

- Querida Luciana, não posso aceitar este presente. Aliás, estive com sua mãe e ela nada comentou sobre o fato. Essa imagem faz parte da sua família. Não posso aceitá-la. Sinto muito! Por que está querendo se livrar dela? - fitou Luciana com ar de censura.

- Padre Carlos, volte para seus afazeres e esqueça o presente!- disse com certa irritação no tom de voz. Suas mãos tremiam quando guardou a imagem na caixa.

Deixou o altar sem olhar para trás e ganhou as escadas da igreja. Já estava escurecendo. Seus olhos estavam cheios de lágrimas.

Quando descia com cuidado o último degrau, viu um carro escuro estacionado. O noivo estava chegando para o casamento:

"Quem será o tonto que vai se casar?"- Luciana pensou,enquanto alguém abria a porta do carro.

Um homem alto, de terno escuro, desceu do carro. Luciana ficou estática olhando para ele. O homem aproximou-se  e a fitou com ar divertido. Luciana viu um par de olhos verdes brilhantes como esmeralda. Ela o reconheceu: o ex-padre Antonio.

O homem falou rapidamente. Seus olhos verdes pareciam sorrir:

- Acho que a conheço! A mulher do Santo Antonio!- afirmou convicto.

Luciana se sentiu ridícula parada ali com uma caixa grande de madeira na mão. 

- Padre, é o senhor que vai se casar agora? - ela perguntou com os olhos baixos.

- Luciana, não sou mais padre! - afirmou. Seus olhos brilharam:

- Deseje-me felicidade!- ele pediu. - Espero que um dia você também seja feliz e consiga realizar o sonho de se casar!- Antonio tinha um ar divertido no rosto.

Seus olhos fitaram a caixa de madeira. Luciana ficou furiosa :

- O senhor acha que estou fazendo promessa para me casar? É isso, Padre Antonio?- seus olhos faíscavam de raiva. Alguns carros começaram a encostar no meio fio da calçada. - O senhor está muito enganado!- Luciana afastou-se rapidamente, enquanto o noivo a olhava com ar intrigado. 

Luciana completou trinta e seis anos. A sua mãe, Catarina, morreu dormindo. Foi um período triste na sua vida. Saudade misturada à sensação de culpa:

"Não devia ter brigado tanto com minha mãe, por causa do Santo Antonio."- pensou, arrependida. Ao mesmo tempo, achava que estava livre da obrigação de manter o santo em sua casa. Afinal, Catarina era a matriarca da sua família.

Um mes depois da morte da sua mãe, voltou ao cemitério. Deixaria a imagem no mausoléu da família. Ele era grande e tinha até uma Capela. O santo estaria num lugar sagrado! 

O dia amanheceu. Luciana saiu de casa rapidamente com uma caixa nas mãos. Dentro da caixa, a bela imagem. Entrou sorrateiramente no cemitério. Não queria que ninguém a visse. Precisava procurar o administrador e conseguir as chaves para entrar na capela do mausoléu.

Quando tirou a imagem da caixa, um movimento em falso e o susto! O santo escorregou das suas mãos e quase caiu. Fez um gesto ligeiro com as mãos para evitar a queda. Alguém foi mais rápido. Luciana viu um homem alto à sua frente.

Ele pegou a imagem das suas mãos e disse:

- Mais um pouquinho e o seu Santo Antonio nada mais seria do que apenas alguns cacos! Que imagem bonita!- um par de olhos verdes fitou Luciana com ar de curiosidade.

Luciana fez um esforço para se lembrar. Aqueles olhos verdes! O sorriso familiar. Ah...quem seria? Ela conhecia aquele homem, mas estava muito aflita para se livrar da imagem. 

- Muito obrigada!- agradeceu Luciana e estendeu as mãos para pegar a imagem. O homem sorriu e a devolveu.
 
- Não nos conhecemos?- perguntou enquanto observava Luciana com ar divertido. - Essa imagem, o seu rosto... Eu a conheço!- afirmou o homem de olhos verdes e um vinco se formou em sua testa.

- Impressão sua!- disfarçou Luciana.- Imagens de Santo Antonio existem aos montes!- justificou-se

impaciente.

Ele riu:

- Acho que não! Já presenciei essa cena antes! Eu a conheço! Você é a jovem que desejava devolver o santo a qualquer custo, porque não havia se casado. Não é isso? - Antonio sorriu amavelmente. Luciana ficou irritada com o comentário irônico do homem desconhecido. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Luciana afastou-se rapidamente com a imagem nas mãos. 

Uma hora depois, voltava para casa aliviada. O Santo Antonio agora fazia parte do Mausoléu da família Almeida. Ponto final! Caso resolvido.

Alguns dias depois, recebeu uma visita inesperada: o casal Eufrásia e o marido. Tia Eufrásia segurava a imagem do santo. Não! Era um pesadelo. "O santo de novo? Ah, não!"- pensou, Luciana decepcionada.

- Estava em minha casa em Carmo de Minas, quando sonhei com sua mãe, Luciana- tia Eufrásia estava com um ar grave e muito sério. Tio Pedro fitou Luciana com ar de reprovação. Eufrásia soltou alguns puns sonoros e recomeçou:

- Sua mãe não está feliz, sabia? Você quebrou a tradição entregando o santinho no mausoléu! Como pôde fazer isso com nossa família? Sua mãe estava desesperada! A imagem só poderá sair das suas mãos, quando você se casar. Peguei-a de volta!- justificou-se Eufrásia com ar de censura. Luciana deu um longo suspiro de desânimo. 

- Tia Eufrásia, e se eu não me casar? Que maldição cairá sobre a família Almeida se eu não me casar? O Santo Antonio está cansado de tanta ladainha. O problema não é o santo, mas são vocês que não me deixam viver a MINHA VIDA! - Luciana desatou a chorar compulsivamente.

Eufrásia deixou a imagem no quarto da sobrinha. Aproximou-se da sobrinha e lhe deu um beijo na testa:

- Nós desejamos que seja feliz! Todas as mulheres da família que ficaram com o Santo Antonio se casaram muito bem. Não quebre essa tradição se livrando dele! Por favor, não faça isso, querida!- Eufrásia estava muito séria. - O que será de você, minha menina? Vejo solidão em seus olhos! 

- Não me sinto sozinha. E a senhora acha mesmo que as mulheres da família se casaram bem? Não tenho o mesmo raciocínio.- protestou a sobrinha indignada.- O que me deixa infeliz é essa interferência em minha vida. Parem com isso, por favor!- pediu súplice.

- Luciana, por causa do Santo Antonio conheci o grande amor da minha vida!- afirmou, Pedro fitando a esposa com admiração. Eufrásia é meu grande amor! Ela não é uma mulher perfeita,mas é a mulher que eu amo! - disse, convicto. 

    "Não precisa nem dizer. Para suportar seus gases o tempo todo, só gostando muito mesmo."- pensou, Luciana, tentando se recompor.

Luciana observou o casal com uma ponta de inveja. Eufrásia era uma mulher franzina e implicante. Pensava com seus botões: "O que será que tio Pedro viu na Tia Eufrásia? Acho que viu sua alma bondosa, implicante, mas bondosa." Enxugou as lágrimas com as costas da mão. 

- Não se preocupem comigo, por favor. Tio Pedro, talvez meu destino não seja o casamento.- seus olhos fitaram um ponto distante. - Já namorei muito, mas não deu certo. Vou ficar bem.- disse, resignada.

- Sua mãe a amava muito e eu acredito nos sonhos da minha querida Eufrásia - aconselhou Pedro. - Deixe o santo no seu quarto mesmo. Um dia, você saberá o que fazer com essa imagem!- profetizou o homem com um brilho estranho no olhar.

O casal saiu do quarto. Sozinha, em sua cama, Luciana pensava na vida e no amor. Estava no século 21. As mulheres ainda se casavam, mas eram independentes. Era feliz com sua carreira de magistério. Pensou em Carlos e Pedro. Era realmente o amor que os unia? Era o Amor que fazia com que Pedro suportasse os gases da tia Eufrásia? O que era o amor, afinal? Como se comportava alguém que amava? Deu um longo suspiro, mirou o santo com o olhar e tentou adormecer.

Luciana agora era uma professora madura de 37 anos. Estava terminando uma pós-graduação. Sentia-se realizada! O Santo Antonio ainda estava no seu quarto. Resignara-se com a presença do santinho. As visitas dos parentes não mais a incomodavam.  

No entanto, um sensação diferente tomou conta do seu íntimo: solidão. Vazio. Sentia falta dos pais. Saudade. Nostalgia. Medo de envelhecer. 

Conheceu José Francisco,o professor de Música da faculdade. Tinha 45 anos e era muito simpático. Solteiro por opção. Gostava de violoncelo. Amava música. Poesia. Luciana e José Francisco ficaram muito amigos. Namoro. Beijos. Não estava apaixonada, mas gostava da presença dele. Um dia, ele entrou em sua casa esfuziante:

- Minha bela Luciana, tenho um pedido a fazer!- seus olhos castanhos brilhavam.

Luciana ficou surpresa. Era um pedido de noivado. Noivado rápido. Ele queria se casar logo. Quando viu aquele aro dourado em seu dedo, Luciana deu um longo suspiro. Sentiu uma sensação esquisita, quase desconfortável.

- Não está feliz?- José perguntou com a voz trêmula.

- A gente estava namorando. Estava bom desse jeito. - afirmou quase resignada. - Nunca pensei em me casar.- justificou-se e deu de ombros.

- Vamos nos casar logo e morar em minha casa! Quero uma festa, lua de mel e tudo a que temos direito.- José esbanjava felicidade.
 
Tia Eufrásia e Pedro ficaram muito alegres. Todos os Almeida exultaram com o noivado da Luciana:

- Não falei? O santinho é forte, querida sobrinha.- disse, Eufrásia olhando para a imagem no quarto da sobrinha.- Vou ajudá-la a escolher o vestido e a organizar o casamento civil e o religioso.

- Não quero me casar na igreja.- resolveu Luciana. - Estou muito velha para casar na igreja. Vou me casar por causa do Francisco. Namorar é muito bom!- Eufrásia fez o sinal da cruz:

     - Ora, Luciana! Este era o sonho da sua mãe! Vê-la casada e feliz!- afirmou Eufrásia com um brilho no olhar.

Os dias se passaram. Luciana escolheu um vestido muito simples. Não havia cauda, apenas um véu curto. No entanto, não sentia entusiasmo. Gostava do José, mas será que o amava? O bastante para conviver todos os dias com ele, na saúde e na doença, na tristeza ou na alegria?

Luciana olhou para o santinho. Depois, para a aliança. Não sentia muito entusiasmo, mas quem sabe com o tempo se acostumaria com a idéia. Faltava um mes para seu casamento.
 
Naquela noite, dormiu muito mal e teve pesadelos. Havia uma procissão e sua mãe segurava o Santo Antonio. Usava um vestido negro.

Luciana acordou assustada e nervosa. Eram 3 horas da manhã quando o telefone tocou. Atendeu e ouviu uma voz muito aflita do outro lado:

- Lu, aqui é Eduarda, irmã do José Francisco!

- José viajou para São Paulo. Ele já chegou? Fez boa viagem? - perguntou Luciana, com voz sonolenta.

A voz do outro lado do telefone começou a chorar compulsivamente: 

- José Francisco sofreu um acidente, Luciana.

- Como?- o coração de Luciana disparou. 

- Ele estava quase chegando... mas estava chovendo muito, a pista escorregadia e apareceu um caminhão desgovernado. Meu irmão morreu na hora, Luciana!

José foi enterrado na capital São Paulo no mausoléu da família. Quando Luciana voltou para Minas Gerais, para sua casa, tia Eufrásia e Pedro a esperavam aflitos: 

- Oh, minha querida! Que desgraça! Agora, que você ia se casar o noivo morreu! Demorou tanto para arrumar um marido!- lamentou-se a tia penalizada.

- Por favor, não tenham pena de mim! Quero ficar sozinha, por favor! É culpa minha ou do Santo? Estou bem, tia. Só não ficarei bem, se vocês continuarem com essa tortura.- seus olhos ficaram marejados de lágrimas.

Luciana ficou sozinha em seu quarto. Olhou para o santo com ar desafiador:

- O que o senhor está querendo, Santo Antonio? Tive inúmeros namorados e jamais quis me casar. Quando resolvo, o noivo morre! O senhor tem parte nisso? Ora, bolas! Eu não o amava, mas pelo menos, o suportava... Pelo menos eu ficaria livre do senhor! - choramingou revoltada.

Adormeceu chorando.

O tempo passou. Aos poucos, a família Almeida esqueceu a tragédia. O santo Antonio continuava no quarto da Luciana. Ela estava com quarenta anos. 

Tia Eufrásia e Pedro apareceram para uma visita:

- Vão levar o santo? - Luciana perguntou com ar displicente, enquanto escovava os cabelos escuros. - Agora, não me importo mais! Ele me faz companhia e ouve minhas confidências Luciana disse tentando disfarçar certa amargura na voz.

- Ainda não está na hora, minha filha! - concluiu tio Pedro com ar penalizado.

   - Não me casei até agora. Como fica a tradição da família?- perguntou Lu com ironia. Vão continuar com as inúmeras simpatias e rezas? Até quando, titia? - perguntou Luciana indignada.

- Não precisa ficar nervosa.- disse, Eufrásia. Nós a amamos, querida Luciana!- beijou a testa da sobrinha, cochichou qualquer coisa no ouvido do marido e saíram do quarto.

Luciana olhou para o casal. E, pela primeira vez, se sentiu muito só. Pedro e Eufrásia estavam há muito tempo juntos! Ela viu amor nos olhos do tio Pedro. Viu amor nos olhos da velha tia. Era assim o amor? Compreendia e aceitava os defeitos e as manias de cada um? 

Ela demorou a pegar no sono aquela noite. Sonhou com sua mãe vestida de branco. A senhora segurava a imagem de Santo Antonio. Ela disse com voz terna:

-" Neste lugar, vivemos no Amor e no Bem. Quero que seja feliz! Por causa do meu amor intenso, mas ainda imperfeito, você enfrentou constrangimentos inúteis. Filha, se você quiser doe esta imagem. Ela representou muito para nossa família. Lembre-se! O amor vale a pena, sempre valerá a pena... O amor não constrange, não domina... apenas ama. Eu a amo muito! Só desejava sua felicidade. Suas irmãs são felizes. Fizeram escolhas. Amam. Vivem. Você tem medo do Amor! Nossa família agora se liberta da tradição do santinho. Está em suas mãos, o destino desta imagem! Não é apenas uma imagem, mas a lembrança de um ser que foi muito bom na Terra. Um fluxo de energias de Amor fluindo através dos séculos. Seja feliz!"

Luciana acordou bem humorada. Quase feliz. Uma fresta de sol iluminava o santinho. Olhou para ele com carinho. Estava liberta daquele estigma. Naquele dia mesmo, recebeu uma carta de uma amiga que morava em Caxambu, Minas Gerais:

"Querida Luciana, pensando no seu drama, encontrei na beira da estrada, um pequeno cemitério. Há uma linda capela. Roubaram o Santo Antonio da Capela! Então, pensei em você. Venha para cá! Você sempre quis doar esse Santo Antonio... Por que não doar a imagem para esta capela? Ele ficará bem. Muita gente vem orar aqui. Eu a espero neste final de semana! 
beijos da Margarida"


Luciana sorriu. Mesmo assim, sentiu um aperto no peito. Ela estava acostumada com o santo. Rezava para ele todas as noites. Seu olhar ficava triste, quando ela estava nervosa.

Aprendeu a não ter medo da fé.

Refletiu sobre a vida de Santo Antonio lá no céu, em outra dimensão. Quantos pedidos ouviria por dia? Sonhos de mulheres apaixonadas. Ah, o drama do santo casamenteiro! As razões do destino.

Por que não conseguiu ser feliz no Amor mesmo com tantas orações dos parentes e da sua querida mãe? Por que não conseguiu se livrar daquela imagem tão amada e idolatrada? Haveria uma razão, um motivo qualquer? 

Arrumou as malas, pegou o santo e o guardou cuidadosamente na caixa. Pegou as chaves do carro e saiu. Enquanto viajava pensava na sua vida, nos seus amores efêmeros. Pensava no seu medo de amar! 

Através do celular, falou com Margarida. Estava perto da Capela. Queria conhecê-la antes de ir para Caxambu. Ficava praticamente na beira da estrada. Sentiu um forte cheiro de eucaliptos. Entrou com o carro numa estradinha íngreme e, logo adiante, viu o portão do cemitério.

Através do portão, viu a silhueta da Capela. Havia um carro parado com chapa de São Paulo. Quem seria? Luciana desceu do carro. O portão de ferro do cemitério estava apenas encostado. Estava cansada, mas sentia uma sensação agradável.

Como se pressentisse bons augúrios. Caminhou alguns passos e viu alguns túmulos. À sua frente, a capela. Entrou. Havia um homem sentado em um dos bancos. 

Na capela, apenas um altar vazio e um vaso de flores. Na parede, um quadro pintado a óleo; um belíssimo trabalho pintado por algum artista desconhecido: um Santo Antonio de olhar compassivo e quase terno. Luciana aproximou-se do altar mas sentiu uma presença forte. Como se um olhar a seguisse. Olhou para trás. Havia um homem sentado no último banco da Capela:

- A jovem do Santo Antonio!- o homem disse. Luciana olhou para trás e viu um par de olhos verdes brilhantes a fitando com curiosidade. O homem sorriu com ternura. Seus cabelos eram fartos, mas grisalhos. O rosto familiar:

- Hoje, você não está com a imagem! Conseguiu se casar, Luciana? - o simpático homem de olhos verdes perguntou e ela ficou constrangida com seu olhar penetrante. 

- Oh! Eu o conheço! Sua fisionomia é familiar. - Luciana sorriu. Reconheceu o ex-padre Antonio. Sim! Era ele ! O que fazia em Minas Gerais? O que fazia sozinho num cemitério?"

Ele se adiantou:

- Perdi minha esposa há alguns anos. Estávamos casados há alguns meses apenas. Resolvemos passar as férias em Caxambu, onde Maria tinha alguns parentes. Chovia muito, o carro derrapou na estrada e capotou. Maria morreu na hora.- seu olhar parecia distante.- Ela foi enterrada neste cemitério. Não me casei mais. Gostei da cidade. Algum tempo depois, fixei residência em Caxambu. Encontrei a felicidade ajudando os outros. Assim, sublimo meu sofrimento. Tenho uma pequena firma de computação.- seu olhar ficou distante. Voltou-se para Luciana e sorriu. Ela sentiu seus olhos melancólicos, de um brilho intenso. Nesses olhos pareciam caber todos os oceanos. 

    - Você é mesmo o ex-padre Antonio?- perguntou Luciana nervosamente tentando disfarçar o quanto esse homem a perturbava. Queria ter certeza! Como me reconheceu? Faz tanto tempo! - perguntou, aproximando-se dele.

- Você ainda me pergunta? Uma jovem aflita me abordou na igreja para se livrar de uma linda imagem de Santo Antonio. Era você!- afirmou. - Naquela tarde, no dia do meu casamento, também era você que segurava a mesma imagem de Santo Antonio! Eu sei que Santo Antonio é o santo preferido das moças que desejam se casar.- falou em um tom bem humorado. No entanto, você não concorda comigo que não é comum, ver por aí, moças carregando imagens?- Luciana ruborizou.- E agora, você novamente. Teve permissão para doar o Santo Antonio? O que faz aqui nessa Capela? Ainda está querendo dar fim no Santo de família?- ele sorriu.- Afinal, se não me falha a memória, trata-se de uma tradição de família. Falaremos com o padre Inácio. A imagem ficará bem nessa capela. Providenciaremos para que fique em segurança.- afirmou com um sorriso.

Ah, também era você que quase deixou cair o santo naquele dia no cemitério! Tinha ido ao cemitério para visitar o túmulo de uma tia que havia falecido há alguns dias. Era você, não? Sei que me reconheceu , mas saiu correndo.- Luciana ficou pálida de repente. Era Antonio, o ex-padre ,que salvou o santo? Sim, foi ele que havia pêgo a imagem que havia escorregado dos braços de Luciana.

Luciana sorriu. Sentou-se ao lado de Antonio no banco de madeira. Suas mãos tremiam muito, o coração disparado.

Ah,aqueles olhos verdes! Lembrou-se de tudo. Padre Antonio se preparando para a missa. Depois, chegando à igreja para se casar. Tantos encontros e ela sempre com a imagem do Santo Antonio nos braços.

Agora, novamente Antonio na capela próxima à cidade de Caxambu. Seria uma coincidência?  Predestinação? Mistérios e razões do destino que ela não compreendia? Um homem com nome de santo! Seria um milagre do Santo casamenteiro?

- O tempo passou e não sou mais uma jovem.- lamentou com certa tristeza.- Tanta coisa me aconteceu! Perdi meu noivo quinze dias antes de me casar. Acidente de carro. Não me casei mais. Jamais fiz promessa para o Santo. Esse era meu drama de família. Um dia lhe contarei. - baixou os olhos.

- Você é uma bela mulher. Tem o olhar triste, mas ainda continua uma bela mulher.- elogiou. Fitou-a com ternura.- Será que não fomos feitos para o casamento? - perguntou Antonio com ar divertido. - Sinto falta da minha esposa, mas estou bem. Tenho uma curiosidade. Por que sempre quis se livrar desta imagem tão bonita? 

- Um dia, lhe contarei, Antonio. Agora, preciso seguir para Caxambu. Está perto?- perguntou.

- Claro, mas faço questão de lhe mostrar o caminho. Seguirei na frente, ok? - ofereceu-se solícito. Conhece Caxambu?

- Sim, mas já faz muito tempo que não venho a essa estação de águas. Uma amiga me espera. Ficarei hospedada na casa dela!- disse Luciana.

Os olhos verdes a seguiram quando ela se levantou:

- Faço questão de levá-la à igreja local para conhecer o Padre Inácio. Depois, que tal um passeio no Parque das Águas?- convidou Antonio. Os dois conversaram até chegar nos respectivos carros. Antonio concluiu bem-humorado:

- Foi Santo Antonio que sempre nos aproximou, Luciana. Não sei se você é católica, mas isso você não pode negar!- o homem sorriu amavelmente. 

Luciana sentiu o rosto corar. 

A tarde caiu. Céu azul. Uma réstia de sol iluminou o casal. No carro, dentro da caixa de madeira, Santo Antonio parecia aliviado. Luciana sentiu uma brisa suave e entendeu as razões misteriosas e sábias do destino. 

FIM

    Dedico este conto à minha tia Áurea, nascida em Caxambu- Minas Gerais, devota de Santo Antonio, falecida há muitos anos. Viveu um grande amor, um dia, mas jamais se casou. Renunciou a seu grande amor para criar os 5 irmãos, órfãos de mãe.

Conto escrito no dia 09/07/04. 


   
   

    

   


Sandra Cecília

 

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