Cantinho da Leitura - 25/07/2006
Amor não correspondido 3 (continuação)

Recomeço







O telefone tocou. Insistente. Desesperado. Não atendi. Curiosidade mórbida. Seria a desalmada? Talvez.

Fumei um cigarro. Voltei para cama. O sono não veio. A televisão não fez companhia. A dor de cotovelo voltou forte. Avassaladora. Cruel. Arrebatadora. Gelada.
Quente. Fria e quente. Mil pontadas atravessando o coração.

Só restava o apoio do Lexotan. Quantos? Quantos ansiolíticos arrancariam a dor desse amor não correspondido? Dois? Quatro? Sono. Queria uma amnésia eterna. Afastar o passado. Fechar a cortina. Parar de sofrer.

Era homem ou não? Forte ou fraco? Joguei os comprimidos na gaveta. Preparei uma dose de uísque. Uma apenas. Forte. Sem gêlo. Dormi. Sonhei. Delirei.

Sonhei com uma porta. Ela se abriu e deparei com uma linda paisagem. Verdejante. Saudável. Perfumada.

Acordei renovado. O sol ganhou o quarto numa atitude poderosa. Calor. Vida.

Peguei o retrato da mulher amada. Ritual lento. Profundo. Secreto. Foto de casal feliz. Testemunha daquele amor quase sádico. Meu olhar se demorou alguns segundos naquele rosto bonito.

A caixa de fósforos ao meu alcance e, em poucos minutos, a foto do casal feliz nada mais era do que um punhado de cinzas.

Vocês acham que a dor de cotovelo desaparece de repente? O que será que Freud diria sobre aquele sonho? Liberdade ou desejo enrustido? Não sei.

    A campainha tocou. Abri. Ah, não! Era Ângela!

Desalmada. Vestida de vermelho. Pernas à mostra. Meu ciúme voltou. Gente, eu queria me curar daquela doença chamada Ângela! Ficamos parados na porta nos olhando. Medindo forças.

    - Posso entrar?- perguntou ela enquanto invadia meu apartamento e minha vida. Seus olhos de sombra azul brilharam. Viu as cinzas da foto no chão.Parece que não deu importância.

Invadiu meu espaço assim como invadiu meu coração. Esparramou-se no sofá como uma rainha. Parecia uma fêmea fatal, insensível e poderosa.

- Você não atendeu meu telefonema ontem. Não estava em casa?- perguntou enquanto desviava o olhar das cinzas da foto esparramadas no tapete.

   - Não!- respondi quase gritando. Seu perfume alcançou meu olfato apurado. Atiçando. Excitando. 

    O telefone tocou. Atendi enquanto a desalmada Ângela me observava com o canto dos olhos.

    - Alessandro, é a Roberta!- disse a voz do outro lado. Ah, Roberta de seios grandes! Lindos. Sem silicone.
Cintura fina. Cabelos claros. Macia e gostosa.

    - Oi, minha querida!- respondi, enquanto observava a reação da Ângela. - Tudo bem com você? - perguntei animado.

    - Estou em São Paulo na casa da tia Lu. Quero lhe ver!

    Roberta não oferecia perigo. Apaixonada por mim. Sempre. Sem cobranças. Sem sofrimentos. Sabe o que eu fiz? 

    - Estou indo, Rô! Dentro de alguns minutos estarei aí.- falei decidido. Ângela ficou me olhando com estranheza.

Levantou-se do sofá e caminhou até à porta. Vi seu decote insinuante.

Ei, o que estão pensando? A cura da dor de cotovelo é um processo muito lento. Quem sabe alguma forma de curar essa dor? Então, me ensine! 

    - Outra hora eu ligo, Alê. Tchau! - Ângela afirmou com um sorriso quase irônico enquanto caminhava para a porta balançando os quadris largos. Como se soubesse que seu lugar estava garantido. Até quando?!

    Fui ao encontro da Roberta. Ela me levou para um passeio no sítio do avô. Fizemos amor numa cabana abandonada.

No dia seguinte, quando abri a porta da cabana, deslumbrei a mais linda e verdejante paisagem!Lembrei-me do sonho.

Freud estava certo? Jung estava certo? Sei lá. Até mais, gente! 

Um novo amor pode ajudar a esquecer a dor de cotovelo? Quem sabe!
    
Alessandro Alves.


Sandra Cecília

 

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