Cantinho da Leitura - 01/08/2006
Conto: O Anjo da Guarda de Tico





Menino peralta. Esperto. Pequeno, franzino e de cabelo liso escorrido. Olhos grandes, vivos. Rostinho sério. Sisudo. Nunca sorriu. Pelo menos, ninguém o viu sorrir. Cresceu na Favela Careca Preta no Rio de Janeiro. Ágil. Mentiroso. Dez anos de experiência sofrida. Dez anos de rua. Pai? Não sabe onde está. Mãe? Morreu de parto. O menino morava com a avó num barraco feito de papelão, zinco e apenas sonhos.

Tico estava na escola. Puxava os cabelos das meninas. Roubava lápis e caneta. Escondia tudo no bolso da sua mochila velha. Estava sempre sujinho e distraído. No entanto, seus olhos brilhavam na aula de Artes. Tico adorava desenhar. A professora gostava dele. Tico não sabia o que era esse sentimento. Queria sempre chamar a atenção. Colocava tachinhas na cadeira da Carminha, a professora. Jogava avião de papel durante à aula. Dona Carminha não conseguia ser autoritária com o Tico. Chamava a atenção com a voz doce como mel. Tico queria vê-la irritada. Não conseguia.

- Tico, volte para sua carteira e termine o desenho.- ordenou a professora naquela tarde ensolarada de segunda-feira.

- Carminha, quero ir embora! To com dor de barriga!- gritou o menino do fundo da sala. Os outros começaram a rir.

- Pode ir para casa, mas você vai perder um desenho novo!-avisou a professora.

- Desenho novo?- ele perguntou tentando disfarçar o interesse.

- Hoje, vou ensinar a desenhar duendes.

- Aqueles monstrinhos? São pequenos e malvados. - falou Tico, coçando a cabeça.

- Os duendes vivem nas florestas. São alegres e gostam de brincar.- explicou a professora com ar divertido.

Tico desenhou a aula toda. Ficou quieto. Quase comportado. A professora aproximou-se do garoto e pôde ver as lêndeas de piolhos grudadas no seu cabelo duro. Seu coração se apertou.

- Tico, seu desenho ficou ótimo!- elogiou com sinceridade. - Que duende simpático!

O pequeno menino não sorriu, mas quase... quase...

Os dias se passaram. Tico pegou dez dias de suspensão porque comeu o lanche todo de um colega da classe e começaram a brigar.

Carminha sentiu falta dele. Os dez dias se passaram, mas Tico não voltou mais à escola. Ela ficou preocupada. Uma idéia se formou em sua mente: "Vou visitar o Tico. Tenho que encontrá-lo."

Tico estava em seu barraco. A avó adoentada e febril. Sua avó era a única pessoa que gostava dele. Um dia, após levar um pouco de sopa para a doente, Tico deitou-se no colchão velho. O desenho do duende estava em cima do caixote perto do colchão. O menino pegou o desenho e cochichou:

- Duende, quero uma grande torta de chocolate! Duende, quero que minha avó fique boa!

Dormiu com fome. A folha de papel sobre a camiseta. Viu a folha de papel se mexendo. Sentiu cócegas e acordou assustado. De repente, uma figura esquisita apareceu em sua frente. Era um duende de orelhas pontiagudas e risada estridente parecido com o seu desenho. A roupa dele era vermelha, os olhos muito vivos. Ar simpático, jovial. Pequeno como um anão.

- Quem é você?- perguntou Tico assustado.

- Deveria saber, porque você me criou!- apontou os dedos compridos para o menino.

- É um duende de verdade?- Tico perguntou curioso. Levantou-se e foi buscar o estilingue. Era sua forma de lidar com as coisas novas em sua vida. Atacava para se defender.

- Ora, seu tampinha! Não tenho medo de você! Não precisa do estilingue, porque não vou lhe fazer mal. Sou seu anjo de guarda!

- Os anjos têm asas e são lindos. Você é apenas um duende!- concluiu Tico fazendo uma careta.- Cadê minha torta de chocolate?- perguntou.

- Eu sou o anjo que você merece! Ainda estou aprendendo a fazer magia! Hoje, sem milagres!- avisou soltando uma gargalhada sonora.

- Ora, seu bobo! Você não existe! Se você é meu anjinho da guarda, por favor, cure minha vovó!- seus olhinhos se encheram de lágrimas. Se você é meu anjo, quero minha torta de chocolate. Dei meu prato de sopa para minha avó! To com fome!- resmungou.

- Não tenho poder de cura, Tico! Isso é com o Pai lá de cima e apontou para o céu! Não estou satisfeito com seu comportamento!- disse o duende com um ar sério. - Chega de fingir que é malvado!

- Eu sou malvado! Dei uma surra no gordinho, aquele mauricinho bobo da escola. Ele jogou meu lanche no chão de propósito!

- Você se afasta dos seus colegas com esse comportamento malcriado. - repreendeu o duende.- Eu vejo tudo o que você faz. Às vezes, é bom você experimentar o remédio que dá aos outros. Tá certo, temos que nos defender, mas é um menino muito revoltado.

- Pára de falar ! Você não existe! Não quero um anjo feio! Quero um anjo com asas!- berrou o menino com o estilingue na mão.
O duende sorriu:

- Vou lhe ajudar, seu tampinha! Anda cheirando muita cola e fazendo coisas erradas, mas mesmo assim, o Homem lá de cima me enviou para lhe ajudar.

A pedra do estilingue não atingiu o duende. Ele deu outra gargalhada e desapareceu no ar.

Tico falou um palavrão e voltou a dormir. Quando acordou, correu para ver sua avó. Ela estava fria como pedra. Olhos fechados. Sua avó estaria morta?

- Vovó, fala comigo, por favor! Fala! Não morra! Só tenho você, vovó!- Tico sacudia a sua avó com força. Desesperado. Descontrolado. Correu para o caixote perto do colchão e pegou o seu desenho preferido. Que vontade de rasgá-lo, mas não o fez. Atirou o papel pela janela.

Carminha andou bastante pela favela à procura do barraco do Tico. Nenhum sinal do menino. Estava quase desistindo, quando começou a ventar muito. "Será que vai chover?"- pensou preocupada, enquanto vasculhava a bolsa à procura da sombrinha. De repente, viu uma folha de papel voando. A folha caiu a seus pés. Pegou a folha de papel e viu o desenho do duende do Tico. Sorriu e ficou toda arrepiada:

- Deus meu, é o desenho do Tico! Será que estou perto da casa dele?- olhou em frente e viu um barraco de folhas de zinco.- Quem sabe se dessa vez eu encontro o Tico?- Bateu palmas. Nada. Chamou, chamou e ninguém saiu do barraco. Quando estava quase desistindo, ouviu passos. De repente, viu um menino franzino e sujinho abrir a pequena janela que dava para a calçada. Pingos de chuva começavam a cair.

- Tico, sou eu, a professora Carminha! - mostrou a folha de papel para o menino .- Achei seu desenho! O que aconteceu? Você jogou fora o desenho do duende? Por que, Tico?- Carminha guardou o desenho na bolsa. Começava a chover forte.

Um instante se passou. Tico abriu a porta do barraco. Seus olhos estavam vermelhos. Vestia um short surrado e sujo. Pés descalços.

- Posso entrar?- ela pediu.

- Professora, acorde minha avó! Acorde minha avó! Acorde minha avó!- o menino começou a chorar.

Professora Carminha entrou no barraco. Apenas dois cômodos. Um quarto com dois colchões velhos forrados com um pano encardido. Uma cozinha, com mesa e um fogão. No colchão maior, estava uma senhora de semblante muito pálido e macilento. Carminha se aproximou e abaixou-se. Tocou a velha senhora. "Nossa, essa mulher deve estar morta!"- pensou.
Tico perguntou à professora:

- Professora, a senhora acredita em anjos?

- Anjos? Gosta de anjos também? Sim, acredito em anjos.- respondeu tentando disfarçar o nervosismo.

- Alguns anjos não têm asas? - ele perguntou curioso.

- Como assim?- Carminha perguntou intrigada.

- Anjos de meninos malvados são feios e não possuem asas, professora?

- Quem disse que você é malvado? São várias as formas de anjos. Um dia, lhe contarei uma linda história sobre anjos.- Carminha sorriu.

- Eu sou malvado! Ninguém gosta de mim na escola.
Professora, chame um médico para minha avó!- suas mãozinhas tremiam muito.

- Vamos chamar uma ambulância para sua avó. Estou com o celular na bolsa. Fique calmo,Tico!

- Ela está muito fria. Acho que morreu!- disse, o menino alisando o rosto da velhinha.

Tico agarrou-se à saia da professora e implorou:
- A senhora deve ser um anjo! Por favor, não me abandone aqui sozinho.- implorou.

Carminha olhou para Tico e viu apenas um menino solitário, faminto e amedrontado. Sabia que havia muito a fazer por ele. Não seria fácil. No entanto, a partir daquele momento, descobriu que sua vida tinha sentido.

Obs: dedico esse conto a todos os professores do nosso país.










Sandra Cecília

 

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