Entrevistas - 05/08/2006
Entrevista com os Doutores da Alegria




  


Wellington Nogueira,diretor artístico da Equipe, responde às perguntas:

Histórico:- O grupo "Doutores da Alegria" é pioneiro em levar alegria às crianças hospitalizadas no Brasil, através da arte do teatro "clown" - mágica, malabarismo, mímica, improvisação e música. Completou doze anos de atividades no país, já tendo visitado cerca de 300 mil crianças, em 10 hospitais pelo Brasil, Rio de Janeiro e em Recife. 

Relax Mental: - Como tudo começou ? De quem partiu esta primeira idéia?

Wellington: - Em 1988, passei a integrar a trupe americana da Clown Care Unit(tm), organização especialmente treinada para levar alegria às crianças internadas nos principais hospitais de Nova York. Assumi o papel de "Dr.Calvin", Besteirologista com PhD em Bobagem." Voltei ao Brasil em 1991 com a idéia de montar aqui um programa-irmão da Clown Care Unit, geradora também de outros dois projetos semelhantes - Le Rire Medecins, na França, e Die Klown Doktoren, na Alemanha. Com persistência e paciência, fui superando os principais obstáculos - como começar, onde encontrar os artistas, conseguir verbas necessárias, convencer os hospitais da importância do trabalho. Finalmente, em setembro daquele ano, numa iniciativa pioneira do Hospital e Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, surgiram os DOUTORES DA ALEGRIA, oficialmente afiliado do programa americano.




  
- Qual foi a primeira atriz treinada no Brasil para participar da equipe Doutores da Alegria?

Wellington: -Após três meses de experiência atuando como o único Besteirologista e
atendendo pelo nome de Dr.Zinho, o projeto estava pronto para ser ampliado. O primeiro passo foi encontrar uma atriz ideal para formarem um casal e, assim, poder visitar o HMNSL duas vezes por semana, quatro horas por dia, indo de leito a leito, inclusive na U.T.I. e na Unidade de Cirurgia Ambulatorial. A primeira Besteirologista treinada no Brasil foi a atriz Vera Abbud e, daí para a frente, o programa começou a crescer em ritmo galopante. Com a aprovação na Lei Mendonça de Incentivo à Cultura, surgiram os primeiros patrocinadores e outros hospitais passaram a se interessar pelos resultados obtidos. Para poder ampliar o projeto, novos artistas com formação no teatro clown foram selecionados e especialmente treinados.

    
- Quais os hospitais que fazem parte deste Projeto e são visitados pelos Doutores da Alegria?

Wellington: - Hoje, contamos com 36 atores profissionais que atuam em seis hospitais em São Paulo: Hospital da Criança, Hospital Albert Eistein, Instituto de Infectologia Emílio Ribas, Hospital do Câncer, Instituto da Criança do Hospital das Clínicas e Conjunto Hospitalar do Mandaqui. Em 1998, os Doutores ampliaram o projeto a dois hospitais do Rio de Janeiro (Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira - UFRJ e Hospital Municipal Jesus). Em 2003, dando continuidade ao processo de expansão nacional, o programa estabeleceu-se também no Hospital da Restauração, em Recife.

- Os Doutores da Alegria também estão no Hospital da Restauração em Recife. Contem-nos como está sendo a receptividade das crianças; Destaquem, se possível, alguns momentos de grande emoção que marcaram na memória e sentimento de vocês.

Wellington: - É uma experiência maravilhosa, pois nos propusemos a reeditar o Doutores, ou seja, começar de novo, com quase doze anos de experiência. Ficamos um ano e meio no processo, entre negociações e implantações, mas valeu a pena. Nossa proposta era trabalhar com a riqueza e a diversidade cultural do artista pernambucano, aliada à nossa técnica de atuação hospitalar. Trabalhamos com todo o carinho e disciplina para não descaracterizar os artistas, mas enriquecê-los. O resultado é maravilhoso, pois vemos o frevo, o maracatu, as histórias e as palhaçadas realmente com parte da vida das crianças. Agora, quero trazer artistas de RJ e SP para compartilhar a experiência. Sem querer, sinto que estamos formando uma ponte de integração cultural no Brasil, pela arte do palhaço no hospital.
  
- A Psicóloga formada pela PUC Morgana Masetti, é lembrada por haver acompanhado o Projeto desde o início. Que traços ela trouxe para o grupo?
 
Wellington: - O olhar! Ela nos observou sem querer alterar nada e, dessa forma, observou as cenas que nunca vemos: o antes e o depois. Ao documentar essa experiência e disseminá-la sob a forma de conhecimento organizado, ela nos ajudou a criar um legado para as futuras gerações. Isso não tem preço.

  - Como vocês trabalham a emoção de ver uma criança doente internada num hospital, de maneira de forma a não comprometer negativamente no
trabalho dos Doutores da Alegria?

    
Wellington: - Quando o besteirologista entra no hospital.

   

- Há trabalhos científicos que comprovem o efeito
terapêutico dos Doutores da Alegria na recuperação das crianças?


Wellington: - A psicóloga Morgana Masetti acompanha o grupo desde o início e realizou inúmeras discussões conosco sobre o trabalho realizado. A partir daí, desenvolveu uma pesquisa de avaliação do efeito causado pela atuação dos atores entre as crianças atendidas, seus pais e os profissionais de saúde dos hospitais onde a equipe atua. Esta pesquisa, inclusive, foi o primeiro passo para a realização do livro Soluções de Palhaços Transformações na Realidade Hospitalar e chegou a representar o Brasil na 8ª Conferência Internacional Sobre Estudos de Humor, realizada em Oklahoma (EUA), em julho de 97. Este foi o único trabalho a representar a América Latina e faz parte da tese de mestrado de Morgana em Psicologia Social, pela própria PUC. A tese de Morgana Masetti, chamada Boas Misturas, foi defendida este ano para a Banca Examinadora da PUC. Nela, Morgana relata sua trajetória como psicóloga atuando em hospitais e pensando nos processos das pessoas que passam por situações de doença.

Após anos percorrendo corredores transitados por aventais brancos, abrindo e fechando portas de quartos arrumados com sofrimento e mistério, ela deparava-se com suas dúvidas e inquietações sobre seu papel naquele contexto. Sabia que sua formação e a da maioria dos que ali estavam não era suficiente para dar conta dos acontecimentos que circulavam nos hospitais. Foi quando entrou em contato com a dinâmica estabelecida pelos Doutores da Alegria. Através do trabalho do grupo, conseguiu pegar o fio da meada que poderia levá-la a participar da vida daquelas pessoas com toda sua riqueza de acontecimentos. Desde este encontro, Morgana vem refletindo sobre a atuação destes artistas e sobre o termo humanização, que permeia uma série de práticas que estão sendo introduzidas no tratamento de pessoas hospitalizadas. Daí surgiu a tese Boas Misturas, no qual ela enfoca a qualidade das relações estabelecidas entre os profissionais e os pacientes dentro do hospital. Ela defende que esta qualidade está ligada a um conceito de saúde de Espinosa (paixões alegres e paixões tristes), onde pensamento e corpo estão intimamente ligados e as relações são compostas de encontros nos quais um é capaz de aumentar ou diminuir a potência de ação do outro.

Além disso, a idéia de escrever um livro sobre o trabalho realizado pelos Doutores da Alegria vem sendo amadurecida desde o primeiro encontro com a Morgana. Em 1998, este projeto tornou-se realidade com a publicação do livro Soluções de Palhaços - Transformações na Realidade Hospitalar. Em sua pesquisa para a realização do livro, a psicóloga entrevistou 75 profissionais de saúde, 67 pais e mães e analisou 90 desenhos das crianças antes e depois da visita dos clowns e concluiu, em seus primeiros resultados, que a relação entre eles e o paciente consegue modificar o estado emocional da criança internada. Menor ansiedade, melhora da imagem da hospitalização e maior colaboração com o tratamento foram alguns resultados constatados do uso deste recurso para ampliar o conceito clássico de cura. O texto relata os efeitos da atuação dos Doutores, que proporciona às crianças internadas a experiência da alegria pura e simples em meio à tensão do ambiente hospitalar.

Estes efeitos são dissertados por várias pessoas, sob diversos prismas: do médico, dos enfermeiros, dos funcionários do hospital, dos clowns, dos pais e, como não poderia deixar de ser, dos pequenos internos. Contando histórias baseadas no cotidiano hospitalar e na rotina dos artistas, o livro pretende aproximar o leitor do que acontece quando um palhaço transita por um hospital. Por intermédio de hiper-texto, presente na leitura, pode-se percorrer paralelamente o conteúdo do livro, onde são encontradas informações conceituais e resultantes de pesquisas inéditas na área.

- Como surgiu a idéia do Livro "Segundos Socorros para crianças". Qual é o tema deste livro?

Wellington: - Em 2001, lançamos O Livro dos Segundos Socorros, com jogos, dicas e brincadeiras para crianças hospitalizadas. O livro, realizado em parceria com Tylenol®, foi lançado pela Editora Panda e ainda conta com a ilustração do artista plástico Orlando. A primeira edição da publicação saiu com 30 mil exemplares, sendo que 20 mil foram distribuídos gratuitamente por Tylenol® para pediatras de todo o Brasil. Com 44 páginas, o livro possui jogos, brincadeiras e dicas paras as crianças hospitalizadas. A primeira lição que a garotada nos ensina é que não se deve perder aquilo que está bom e saudável em nós: a capacidade de brincar.

- Qual a finalidade do Centro de Estudos Doutores da Alegria? Onde fica a sede deste Centro?

Wellington: - Localizado na própria sede dos DOUTORES DA ALEGRIA, a finalidade do Centro de Estudos Doutores da Alegria é manter um espaço aberto para se discutir as questões que envolvem a ligação científica existente entre a arte e a saúde, um tema sobre o qual tem-se pouco material disponível no país e no mundo.

Através de reuniões, palestras, seminários e workshops, o Centro agrega pessoas interessadas no tema que, graças a estes encontros periódicos, podem trocar idéias e informações. O Centro também disponibiliza um acervo sobre o assunto, como livros, artigos, documentos e teses. Através do site www.doutoresdaalegria.org.br, o usuário pode acessar o conceito e a finalidade do Centro, artigos, relatórios e links especializados sobre o assunto, novidades, eventos e seminários que estejam acontecendo, referências bibliográficas, a pesquisa dos efeitos que o humor exerce sobre a saúde, desenvolvida pela psicóloga Morgana Masetti.

- Como deve ser o perfil de um candidato à equipe dos Doutores da Alegria? Se alguém quiser participar desta equipe, o que ele deve fazer?

Wellington: - Os Doutores da Alegria trabalham com atores profissionais , especializados na arte do palhaço. Para nós, o trabalho é um ofício, uma profissão que exige tempo de estudo e dedicação, além da ação no hospital em si. Por conta dessa exigência de tempo e dedicação integral, trabalhamos com artistas remunerados, não em caráter voluntário. Eles contam com patrocínio de TYLENOL, da TRW e com o apoio institucional da "Lei Federal de Incentivo à Cultura" - Ministério da Cultura. Em Recife, o grupo também conta com o patrocínio do POMMAR/USAID-Partners e com as parcerias do INTERAGE (Grupo Interagências de Mobilização de Recursos) e Oxfam. Para colaborar com a organização, os interessados podem se tornar sócios mantenedores através do telefone (11) 3061-5523

- Falem um pouco sobre os prêmios recebidos pelos Doutores da Alegria e a repercussão deste trabalho no exterior.

Wellington: - Vários prêmios atestam o reconhecimento do trabalho. Em 2003, recebemos o Prêmio Bem Eficiente, legitimador das entidades que realizam trabalho sério no terceiro setor, além de termos sido eleitos por duas vezes como uma das 40 Melhores Práticas Globais, por um júri internacional da Divisão Habitat da ONU (1998 e 2000). Ganhamos, em 2002, o Prêmio Marketing Best Responsabilidade Social com o case "Doutores da Alegria 10 anos - A arte do palhaço gerando transformação social no Brasil". O prêmio foi criado para estimular, reconhecer, premiar e difundir exemplos de organizações que promovem através de suas ações empresariais a responsabilidade social. Em 2001, recebemos a MENÇÃO HONROSA DA CATEGORIA ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAIS do COMITÊ DE JULGAMENTO DO PRÊMIO DIREITOS HUMANOS 2001. Em 1999, recebemos o Prêmio PNBE de Cidadania (Pensamento Nacional das Bases Empresariais), na categoria entidade de destaque do ano de 1999. Entre os critérios adotados para avaliar os candidatos estavam o tempo de existência do programa, o alcance de seus benefícios, a relação custo/benefício, o reconhecimento pela comunidade local/regional/nacional e, principalmente, seu compromisso com os valores éticos. Também conquistamos o PRÊMIO CRIANÇA 97, promovido pela Fundação Abrinq Pelos Direitos da Criança, que tem por objetivo reconhecer publicamente pessoas, instituições ou empresas que tenham se destacado na defesa dos direitos da criança, além de muitas outras premiações.

Relax Mental: - Quero agradecer a Equipe dos Doutores da Alegria pela atenção e carinho dedicados aos pequenos e à Wellington Nogueira a oportunidade da Entrevista em nosso site Relax Mental.




Sandra Cecília

 

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