Cantinho da Leitura - 24/08/2006
Fábula- O gachorro





Era uma vez um gachorro. Diziam que era filhote da gata com o cachorro. A natureza entrou em pane e fabricou o esquisito gachorro. Ele tinha rabo de gato, mas o focinho de cachorro. Quando estava muito bravo ele latia. Quando estava calmo, miava.

Naquela floresta, todos fugiam do animal. Que bicho era aquele? Vivia escondido e sem amigos. Quando ele se aproximava dos cães, corriam atrás dele. Pensavam que ele era um gato! Quando chegava perto dos felinos, os gatos fugiam.

O gachorro vivia triste com sua sorte. Afinal, nascera assim! Podia miar ou latir, conforme sua vontade, mas não era nem um gato e muito menos um cachorro. Era um gachorro!

Queria apenas viver feliz correndo pela mata! Um dia, lhe apareceu uma fada. Estava preocupada com o destino do gachorro. Perguntou ao infeliz animalzinho:
_ Querido gachorro! O que você quer de mim?

_ Por favor, me transforme num cachorro! Não agüento mais ser excluído, porque sou diferente!

A fada o transformou num formidável vira-latas. O gachorro agora apenas latia. Sua cauda não era mais comprida como o rabo dos gatos. O gachorro, agora um cachorro, foi aceito pelos cães da mata. Alguns dias se passaram. Ele começou a sentir falta do rabo comprido de gato. Queria subir nos muros e ter os olhos brilhantes. Queria voltar a miar!

Orou e pediu a presença da fada da floresta:

_ Querida fada, agora sou um cão bonito, mas não estou contente. Sinto falta dos felinos, desejo subir nos muros e miar também.

A fada tocou o animal com sua varinha mágica e ele se tornou um gato. O gachorro agora era um ágil gato malhado. Gostava de admirar sua linda cauda peluda. Subia em muros e caçava ratos, mas os cães o perseguiam. Podia miar à vontade. Depois de alguns dias, a infelicidade bateu em seu coraçãozinho animal. Desejava latir à vontade e fazer festa quando desse na telha.

E pediu novamente a presença da fadinha. Esta aproximou-se com um sorriso:

_ Está infeliz, belo gato? O que você quer de mim agora? Já lhe transformei num bonito e faceiro cão. Não deu certo. Depois, você se transformou num lindo felino. O que deseja agora?

 _ Estou muito infeliz!- queixou-se com pesar.

_ Quer se tornar outro animal?

_ Não, querida fada. Quero voltar a ser um gachorro, mistura de gato com cachorro. Por favor! Agora, me aceitarei como sou! E serei feliz, custe o que custar!

_ Tem coragem para enfrentar as discriminações na floresta? - perguntou a fada com ternura.

_ Claro! Eu nasci assim...e tenho que me aceitar como sou.
A varinha de condão fez o trabalho. O animal voltou a ser um lindo gachorro: nem cão e muito menos gato. Miava ou latia, conforme sua vontade. Subia nos muros ou simplesmente, corria pelos prados. No entanto, sua sorte não mudou. Os animais domésticos e selvagens não o aceitavam. Vivia escondido nas cavernas para não ser perseguido. No entanto, não queria mais ser outro animal.

Um dia, caminhava pela mata, pensando em seu triste destino. Por que nascera daquela forma? Por que não o aceitavam como ele era? A velha coruja pousada na árvore sentiu sua tristeza e vaticinou:

 _ Sua sorte, gachorro, vai mudar muito. Continue se amando bastante e seja muito corajoso.

O gachorro latiu para ela em sinal de agradecimento.

Naquela mata, morava o seu José, um velho sitiante, que possuía algumas terras. As galinhas andavam sumindo. José prometera acabar com os animais que rondavam suas terras, principalmente os gatos e os cães do mato. Eles sempre se aproximavam famintos e roubavam as galinhas.

Uma noite de lua cheia, saiu o José com sua espingarda. Estava disposto a acabar com os animais. Adentrou a mata e viu um animal correndo. Com sua lanterna, conseguiu ver o animal.

Que é isso?- perguntou a si mesmo. Afinal, que bicho era aquele tão esquisito? Bigodes de gato, focinho de cachorro? Tamanho de cachorro e andar de gato?

O gachorro sentiu a luz da lanterna e os olhos do José em cima dele. Lembrou-se da velha coruja e não se intimidou. Começou a latir muito e seu pêlo eriçou todo. Depois, começou a miar...

José saiu correndo da mata, o coração saindo pela boca. Não! aquilo só podia ser o lobisomen, o "tinhoso" ou o capeta! Supersticioso ao extremo, vendeu as terras e se mudou daquela mata.

Depois do acontecido, a vida do gachorro não foi mais a mesma. A história da valentia do gachorro correu a floresta e todos passaram a admirá-lo. Ninguém fugiu mais dele e o gachorro tornou-se o bicho esquisito mais amado da mata.

Fim


 


Sandra Cecília

 

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