Cantinho da Leitura - 22/12/2006
Conto de Natal: a Gaveta dos Sonhos.





Janaína sonhava acordava quando passava suas tardes no lixão de uma grande capital. No monte de lixo mal cheiroso, seus sonhos dormitavam ao som de música mágica e aromas floridos. Um sorriso maroto no rosto moreno, as pernas finas e ágeis. Olhos muito vivos como os de uma águia . Alcançavam brinquedos quebrados, flores de plástico e pedaços de fruta. Lixão era sinônimo de brincadeira. Toda a família passava a maior parte do tempo por lá juntando papelão e vasilhas de plástico.

Infância machucada de pobreza extrema.Janaína e seu jeito de sonhar diferente. Ela sabia que o Natal estava próximo.

A menina morava num barraco junto com a mãe e mais 3 irmãos. Não sabia quem era seu pai. Sua mãe, uma cearense lutadora, fazia das tripas o coração para levar comida para casa. Janaína gostava da escola, mas nem sempre podia ir.

Acreditava em Papai Noel. Queria um quarto com cama, colchão e uma cômoda para guardar suas roupas. Era uma menina muito vaidosa. Sua mãe reformava as roupas usadas. Janaína se exibia no pequeno espelho pendurado na parede do quarto. Colocava as mãos na cintura e sorria. Sorriso de cinderela. Sorriso aberto ,sem inocência, mas cheio de magia. Suas roupas viviam espalhadas pelo colchão velho onde dormia ou mesmo no chão. Não havia guarda-roupa. Janaína sonhava com uma linda cômoda para guardar suas coisinhas.

Escreveu uma linda carta para Papai Noel pedindo a cômoda. A mãe não compreendia o sonho de Janaína. Por que não pedia uma boneca ou mesmo uma bicicleta? No entanto, de que adiantava pedir se Papai Noel não existia? A mãe sentia na carne o peso da extrema pobreza. Seus olhos pareciam distantes e alcançavam o Ceará, sua terra Natal.

Janaína sonhava com uma linda noite de Natal e com seu presente mágico. Ajudava a mãe na dura tarefa de separar o lixo para reciclagem. O sonho da criança pobre mergulhava no lixão. O lixão era um palco de bonecas sem cabeça, comida mal cheirosa, sofás rasgados e carrinhos sem roda.

No cair da tarde o caminhão vinha e jogava lixo novo. Todos corriam. Janaína caminhava com seus pés pequenos e descalços.

Na véspera do Natal seus olhos infantis brilharam, porque viu algo diferente no lixão. Aproximou-se e quase pisou numa garrafa quebrada. Ficou maravilhada com o que viu misturado com o lixo: uma velha cômoda de madeira escura com quatro gavetas. Janaína deu pulos de alegria e chamou a mãe:

- Mãe, Papai Noel mandou a cômoda! Acho que ele sabia que minha casinha não tem chaminé. Deixou aqui no lixão pra mim.- ela explicou com a respiração acelerada e o coração aos pulos.

- Filha, é uma velha cômoda carunchada, mas pode valer alguma coisa para a reciclagem.- afirmou a mãe.

-Não, mãee! Papai Noel leu minha cartinha! Quero arrumar meu quartinho e guardar minhas coisas nessa cômoda. - ela protestou com os olhos marejados.

-Tá bom, mas quem vai levar essa cômoda para casa?- perguntou a senhora. Enxugou o suor da testa com as costas da mão.

- Põe no seu carrinho de reciclagem, mãe.- o carrinho era feito da carcaça de uma geladeira velha.- Eu ajudo! Mãe, por favor!- ela quase implorou.

Os vizinhos e amigos ajudaram a mãe da Janaína a levar a velha cômoda para o barraco. Zilda, a mãe de Janaína, preparou alguma coisa para comer: algumas frutas, pão e arroz encontrados no lixão. Economizou para comprar um pouco de carne e feijão para a ceia. Estava exausta e com vontade de chorar.

Janaína tomou banho de caneca, colocou seu melhor vestido e arrumou seu quarto, enquanto os irmãos brincavam em outro cômodo. Empilhou todas as roupinhas e brinquedos e, por instantes, ficou olhando a cômoda velha. Agora, tinha quatro gavetas para guardar suas coisas e as dos irmãos. Os ratos não roeriam mais suas roupas.

Zilda ouviu um grito que vinha do quarto: - Mãe, corre aqui, mãeeeeee!- gritava Janaína.

Ela foi para o quarto. Janaína olhava para a cômoda com ar desolado. As quatro gavetas abertas. Enquanto isso, seus trapos repousavam no seu colo à espera de cuidados:

- O que foi, filha? Encontrou algum bicho? - perguntou Zilda assustada.

- Mãe, olhe para a cômoda! As gavetas não tem fundo! - afirmou com os olhos cheios de lágrimas. Ao mesmo tempo, um sorriso apareceu em seu rostinho magro.

Zilda olhou para a velha cômoda carunchada. Aproximou-se e viu as gavetas. Elas pareciam perfeitas. Entravam e saíam , mas não tinham fundo. Nada poderia ser guardado ali. Zilda não sabia o que dizer para a filha:

- Não fique triste, filhinha! Papai Noel estava tão apressado que se esqueceu dos fundos das gavetas! Que cômoda estranha! As gavetas não tem fundos, mas o interior dela é bem forte. Estranho, não? Dos males o menor.- conjecturou.- Vamos levar para a reciclagem. Podem aproveitar a madeira. - decidiu convicta.


- Eu não estou triste! Nessa linda cômoda , nas gavetas sem fundo só colocarei meus sonhos. Cabem todos os meus sonhos, mamãe!- Janaína começou a chorar muito. São as gavetas dos meus sonhos! É meu presente de Natal!- Zilda achou que a filha estava delirando.A mulher deu um longo suspiro. Uma cômoda velha com as gavetas sem fundo e carunchada. Papai Noel deveria estar mesmo de mau humor ou estressado quando presenteou sua filha.

- Filha, essa cômoda está cheia de carunchos. O quarto é muito pequeno. Ela só vai ocupar espaço e mais nada!- admoestou a mãe. Janaína olhava para a cômoda. Parecia estar num devaneio estranho, bem longe dali. Os olhos cheios d`água. Justificou-se:

- Mãe, posso colher flores e colocar em cima da cômoda e colocar o porta-retrato que o Michel achou no lixão.Mãe, é meu presente de natal! Podemos pedir para seu Zé arrumar madeira e refazer o fundo das gavetas. - Zilda desistiu de convencer a filha a se livrar da velha cômoda.

A ceia foi silenciosa. Zilda agradeceu ao Menino Jesus a saúde de toda a família e pediu forças para mais um ano de lutas.





No dia seguinte, Zilda ouviu alguém batendo à porta. Abriu e viu um casal muito bem vestido. Era uma senhora clara e alta. O homem aparentava quarenta anos. A mulher estava muito perfumada e olhava muito para seu relógio de pulso.

"O que faziam ali?" - pensou Zilda apreensiva.- "Será que o homem era da polícia?" - mas não tinha feito nada de errado.

- Por favor, o nome da senhora é Zilda, não? - perguntou a mulher com certa ansiedade.- Nós fomos até o lixão e o homem do caminhão do lixo indicou sua casa.

- Por que?- perguntou Zilda desconfiada."O que desejava aquela mulher?"- pensou com o coração opresso.

- Fique tranqüila, minha senhora. Estamos em busca de uma cômoda velha. - informou o homem .

- Cômoda velha?!!- gritou Zilda apavorada.

"Só podia coisa de traficante ou mercadoria roubada.Pobre não pode ter nada mesmo, nem uma cômoda com gavetas sem fundo."- pensou a mulher. Janaína ouviu a movimentação na porta e correu para perto da mãe.

- O homem do caminhão disse que a senhora a trouxe para casa.- falou a mulher espichando olhos para dentro do barraco.

- Foi Papai Noel que trouxe para mim!- argumentou Janaína.- Só essa cômoda tem gavetas que acomodam todos os meus sonhos.- o casal olhou para a menina com estranheza.

Eles tiveram permissão de Zilda para entrar no quarto e reecontraram a velha cômoda do avô que havia morrido há uma semana. Houve uma briga de família por causa de testamento e, um parente não favorecido levou a cômoda para o lixão.

Ela não era valiosa, mas haviam escrituras importattes, títulos de propriedade e documentos num fundo falso. Na frente da menina e da Zilda, o homem arrebentou o fundo da cômoda e tirou alguns documentos.

Janaína acompanhava tudo. Parecia um sonho ou seria um pesadelo?

O homem afirmou aliviado:

- Que bom que ela está aqui! Nosso avô morreu há uma semana e antes de falecer, contou sobre esse segredo mantido a sete chaves. Meu irmão ficou com raiva, porque não foi o mais beneficiado no testamento. Meu irmão sempre foi assim: desonesto e mentiroso. Trouxe a cômoda para o lixão para atrapalhar o andamento do inventário. Meu irmão quase acabou com todo patrimônio da família por conta da sua ambição desmedida. - explicou o homem.

O casal levou a velha cômoda das gavetas sem fundo. Janaína ficou com o olhar fixo no seu presente de Papai Noel. Seu olhar ficou marejado de lágrimas mas não chorou. Ela sempre acreditara que Papai Noel era bondoso. Ela sabia que, certamente, ganharia outra cômoda.

Zilda for dormir com os mesmos pensamentos da noite anterior: sem esperança e com o corpo dolorido pelo cansaço.

No entanto, as crianças são a própria esperança. Uma criança jamais pára de sonhar. Janaína dormiu pensando numa linda cômoda com gavetas.

No dia seguinte, a senhora distinta e elegante voltou ao barraco e prometeu ajudar toda a família.

A família da Janaína teve o melhor dia de Natal de toda a sua vida. Graças à velha cômoda de gavetas sem fundo seu futuro totalmente transformado. Os donos da cômoda prometeram ajudar a família da menina.

Em poucos dias a família se mudou para uma casa boa. Janaína não precisou mais voltar ao lixão. O casal reformou toda cômoda e Janaína deu pulos de alegria quando viu o móvel dentro do seu novo quarto.

- Não falei?A cômoda dos meus sonhos voltou pra mim!- deu gritinhos de alegria. Zilda, com a ajuda do casal encontrou um emprego digno.



Zilda agora está com 25 anos. É professora e conta sua história de vida para todos os alunos. Uma história cheia de esperança.

Sua cômoda também está com as gavetas sem fundo? Houve decepção e frustração? Não deixe que seus sonhos morram ou fiquem à deriva. De uma hora para outra, tudo pode mudar para melhor!

Acredite sempre num futuro mais promissor !

Boas festas!




Sandra Cecília

 

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