Cantinho da Leitura - 30/01/2007
Conto: O velório do Zé das Couves





As duas velhinhas, Maria e Sebastiana, chegaram no início da tarde, ao Cemitério do Caju Seco em São Paulo.Um vizinho, enviou um telegrama para as únicas parentas comunicando a morte do velho Zé, o irmão mais velho.

Zé Ferreira morreu aos setenta anos de idade de enfarto fulminante. Maria e Sebastiana moravam em Sergipe e não viam o irmão há mais de cinquenta anos. Zé Ferreira saiu de Sergipe aos 20 anos para fazer vida em São Paulo. Algum tempo depois, comprou um sítio. Estabeleceu a vida na roça. Plantou couve, milho e batata. Vivia sozinho e, de vez em quando, escrevia para as duas irmãs.

Cada ala do cemitério destinada aos velórios, tinha o nome do defunto estampado em letras garrafais.

Eram muitos velórios. O cheiro de vela acesa se misturava às flores. Um aroma enjoativo. Carpideiras de véu preto passavam. Velório de pobre. Velório de rico. Na última ala ,estampada em letras garrafais, estava o nome do Zé Ferreira. As duas velhinhas entraram e se aproximaram do caixão. Olharam para o irmão, rezaram e fizeram o sinal da cruz. Comentaram entre si que ele estava diferente. Nada de velas acesas e nem flores dentro do caixão. A fisionomia do Zé estava serena. Parecia dormir.

Maria observou:

 - Irmã, não tem ninguém no velório. Coitado do Zé! Que urna esquisita e feia! Certamente, a mais barata! - queixou-se Maria.

 - É mesmo, Maria! Não colocaram velas e nem flores no caixão. Sei que ele não se casou, mas não tinha nenhum amigo? Coitado do Zé das Couves! Chegamos cedo! São duas da tarde e o enterro será às cinco. O Zé está muito diferente, não? Se ele morreu do coração deveria estar roxo, mas está rosado...Meu irmão era um santo homem!- Sebastiana engoliu o choro. Maria sugeriu:

 - Nosso irmão terá um velório arretado ou eu não me chamo Maria Ferreira! - ameaçou.

- É mesmo, Maria! Tem razão! To aperriada com os maus serviços desse cemitério. Sei que meu irmão passou a vida toda pagando um jazigo decente.- protestou Sebastiana - To danada com o mau serviço dessa funerária da gota!

Entraram no velório da sala contígua. Estava lotado! Era o velório de um grande político da cidade. Respeitado. Venerado. Muita gente curiosa. Gente chorando. Outros contando piadas. Alguns homens encostados num canto tomavam cafezinho. Coroas de flores, velas e flores de todos os matizes. Aroma forte. Sala quente.

Maria e Sebastiana foram espertas. Comentaram que estavam sozinhas no velório do irmão e, que o lugar era muito mais ventilado e vazio. Algumas pessoas comentaram entediadas:

- Aqui está muito quente. Vamos para um velório mais vazio.- sugeriu uma mulher enxugando o suor do rosto.

- Vamos para o outro velório? Descansar um pouco?- sugeriu um homem de terno cinza. A esposa assentiu com a cabeça e deu um longo suspiro. - Eu não conheço o defunto mesmo!- afirmou o esposo.- Quanta gente importante e influente, Olga! Quem sabe não ajeitamos um emprego na prefeitura para nosso filho Marcão?- perguntou o homem.

- Ara, Pedro! E nosso filho Marcão deseja trabalhar?!! Ele quer sombra e água fresca.- replicou a mulher com certa irritação.

- Ora, mulher, porisso mesmo. E você acha que político trabalha?- a mulher sorriu com ironia e deu de ombros.- Ara, detesto velórios! Vamos para outra sala. Quero me refrescar. Há uma sala confortável na entrada. Por que não vamos para lá, Pedro? - perguntou a mulher agastada.

_ Ora, eu quero marcar presença. Conheço o irmão do deputado e ainda vou "caçá-lo" para um dedo de prosa.- murmurou.

Em poucos minutos, o velório do Zé das Couves estava repleto de gente desconhecida. Homens bem vestidos. Mulheres de chapéu. Moças perfumadas. Senhores interesseiros. Até carpideiras vestidas de negro.
Todos passavam de um ala para a outra.

Uma intrigante fofoca começou a se alastrar no velório do político. Alguns assessores do deputado falecido comentaram que o Zé das Couves tinha sido auxiliado pelo deputado falecido. Falaram que o deputado ajudara o velho homem a comprar as terras.

Colocaram flores no caixão velho do Zé. Um homem, vestido de preto, ensaiou um discurso:

 - Zé, um brasileiro esforçado, um querido nosso se foi...Nosso querido deputado ajudou o Zé Ferreira. Agora, jazem as duas urnas praticamente juntas. E, por que? O deputado era pessoa honrada, simples e humilde. Um grande homem!- sua voz se elevou seguida dos aplausos das pessoas presentes.- Graças ao deputado falecido, o Zé teve uma vida digna! - o homem de preto olhou para os lados para se certificar do efeito das suas palavras. Precisava chamar a atenção de todos, porque pensava em seguir a carreira política. Todos bateram palmas.

Maria e Sebastiana entreolharam-se:

- Eita, Sebastiana! Então, foi esse deputado rico , do velório ao lado que ajudou nosso irmão Zé? Eu nunca soube disso! - comentou Maria com ar desconfiado.

- Esse povo é tão doido que só a gota serena! - afirmou Sebastiana com voz baixa. O que importa mesmo é que nosso irmão está sendo velado como um verdadeiro rei! Pena que o caixão seja tão simples.

Uma carpideira de chapéu preto rendado e luvas pretas ensaiou um pranto emocionado:

- Zé, por que me deixou?!!!- todos olharam para ela e choraram também.

Entrou um rapaz de terno bege e ensaiou outro discurso:

- Pretendo me candidatar em breve à prefeitura de São Paulo e ajudar muitos e muitos Josés como esse brasileiro lutador. - todos aplaudiram entusiasmados. Duas moças cochicharam: - Viu que moço bonito? Está flertando comigo, sabia? E será um político de renome! A outra moça censurou agastada: - Seu tio deputado morreu e você pensando em flertar?!!

A mocinha retrucou com ar despreocupado: - Foi meu tio que morreu! Eu to muito viva! E também meu tio era chato e pão duro. Oras! - cochichou.

 Sebastiana e Maria estavam envaidecidas. Zé merecia todas as homenagens. O calor aumentava dentro da sala. Uma mosca ligeira pousou no nariz do defunto. As duas irmãs espantaram. Maria olhou para Sebastiana e murmurou:

- Bastiana, parece que o Zé ta respirando!- fixou os olhos no defunto. Sebastiana fez o mesmo. De repente, um mau cheiro se espalhou pelo ar. As duas se entreolharam intrigadas.

A carpideira afastou-se rapidamente e murmurou: - Esse defunto soltou um pum! Vou cobrar mais caro!

Um homem alto e de bigode se aproximou do caixão. Era outro discurso acalorado. De repente, uma voz rouca e sonolenta saiu de dentro do caixão. O defunto mexeu-se dentro da urna:

 - Que saco ! Será que nem, na minha folga, posso dormir um pouco nesse cemitério ?!!!!- o defunto sentou-se no caixão. Todos começaram a gritar apavorados. Escafederam-se . Sumiram. Alvoroço. Pânico! Gritaram:

 - O defunto está vivo! O defunto está vivo!- gritaram apavoradas. Maria e Sebastiana fizeram o sinal da cruz e saíram correndo. Brancas que nem cera!

 O funcionário do cemitério levantou-se do caixão, sacudiu as flores da calça jeans e resmungou:

 - Ainda bem que estou perto de me aposentar. Outra soneca dessas nesse caixão velho... eu perco o emprego. Ih, tá na hora do defunto Zé das Couves chegar. Vou arrumar a sala para o velório.








Sandra Cecília

 

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