Cantinho da Leitura - 30/01/2007
Conto: o Arco-Íris






Tudo pronto! Não podia esperar mais. Eduardo saiu da sua vida. Terminou o romance. Sua vida acabou. Sentia-se morta aos dezessete anos. Sem vida. Sem alma. Sem coração. Quem ouviria suas dúvidas? Seus apelos. Carinhos ao pé do ouvido. Sussurros de amor. Os pais estavam tão preocupados com os negócios. Muito longe do seu coração.

Maria queria morrer. Escolheu a tarde chuvosa e cinza. Caía em gotas lavando a vidraça como lágrimas salgadas. Lágrimas do seu coração partido. Pegou o veneno de rato. Colocou no guaraná. Enquanto isso, qual um zumbi olhou a vidraça. Gotas caíam. Cada uma com seu brilho. Rápidas. Brilhantes. Diamantes. Gotas de amor.

Sem Eduardo queria morrer. Sumir. Desaparecer.
Mas seu anjo da guarda estava a postos. Uma luz branca observava e protegia.O telefone tocou. Maria não atendeu . Olhava para o copo e a vidraça. Lágrimas salgadas escorrendo pelo vidro.

Maria ouviu uma voz suave, quase imperceptível dentro da sua mente:"Espere o Arco-Íris!" Ficou arrepiada. Seria um delírio? Olhou pela vidraça, céu cinza, céu molhado de nuvens carregadas.

Novamente, fez menção de tomar o guaraná envenenado. A voz persistiu: "Espere o Arco-Íris . Ele sempre vem depois da chuva."

Maria olhou para a vidraça. O céu ficou cinza claro e ela aguardou. O copo tremia junto com suas mãos brancas que nem cera. A face pálida como a morte que a sondava. Então, ela viu um lindo e tímido Arco-Íris se formar no céu. Olhou. Observou. Voltou para o copo. A voz continuou: "Espere, espere...Espere até ele desaparecer."

No coração da Maria, talvez ainda houvesse um sopro de vida adolescente. O coração queria vida. Ela aguardou, mas afirmou: "Depois, que ele desaparecer, vou morrer."

O belo festival de cores desapareceu aos poucos, como seu sonho de amor. Maria suspirou. As lágrimas da chuva pararam. Seu celular tocou quando ia tomar o guaraná cheio de veneno.

Ela atendeu, mas seu corpo tremia de medo:

- Maria , sou eu, o Eduardo! Vamos conversar! Estou desesperado! O pai me pegou fumando maconha no quarto. Vou perder a mesada, Maria. E não vou mais ganhar um carro como ele prometeu.- desabafou, com voz súplice.

A jovem agora tremia de raiva. Seu príncipe, o amor impossível, era apenas um jovem confuso e bobo. Sem conteúdo. Príncipes se transformavam em sapos. Mas Eduardo nem sapo era, porque os sapos eram inofensivos.

Respondeu irônica:

- Você rompeu nosso namoro e nem pergunta como estou? O que estou fazendo? Que bom que você me telefonou! Salvou a minha vida! Aliás, eu me salvei! Adeus, filhinho de papai egoísta!- berrou, descontrolada.

Maria acordou de um pesadelo. Que voz boba a do Eduardo! Quase morreu por causa dele. Por que tanto desatino?- pensou desperta. Seu corpo trêmulo tomou atitude. Foi no banheiro e jogou todo o conteúdo do copo envenenado no vaso sanitário. Uma sombra negra afastou-se rapidamente dela.

Quando temos pensamentos ruins sombras escuras se aproximam de nós. Podem ser nossa perdição.

Maria despertou do seu pesadelo de morte. Sua adolescência e a fome de viver voltou à tona. Sorriu.


O céu clareou assim como a mente da Maria.

Precisava de um banho quente. Correu para o banho para lavar a alma.

Quando você estiver no auge do desespero, quando a tormenta estiver maior espere pelo Arco-Íris. Ele é a lição do tempo, da espera e da serenidade que nos aproxima dos anjos bons e nos afasta da impulsividade mórbida e perigosa do desespero.

Conto inspirado pelos mentores espirituais.


Sandra Cecília

 

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