Cantinho da Leitura - 23/02/2007
Conto: O segredo de cada um





Maria era minha vizinha há mais de quarenta anos. Vizinha de muro. Vizinha solidária que emprestava xícara de açúcar, ovos ou arroz. Assim, era a Maria nos seus 58 anos de vida. Olhos brilhantes. Sensível. Tocava músicas maravilhosas no seu piano afinadíssimo. Vizinha especial. Casada com José, um senhor aposentado de sessenta anos.

Eu, uma professora aposentada de cinqüenta anos, ouvia todos os ruídos daquela casa. E, da minha janela indiscreta, observava os passos daquele casal diferente.

Maria era silenciosa , de voz baixa e terna. Cabelos claros presos num coque jeitoso; vaidade discreta. Perfumada. Não jogava conversa fora. Falar mal dos outros? Não fazia parte da vida dessa senhora. Muito ocupada. Caridosa. Mãos de fada. Ótima cozinheira e bordadeira. Esposa dedicada, mas José era de temperamento irritável.

Eu era muito curiosa com o movimento da vizinhança, mas gostava de Maria. Fazia bolos e a convidava para lanchar em casa. Sua educação refinada era admirável. Só uma vez a vi chorar. Ela desabafou que amava o marido e não compreendia porque ele era tão nervoso.

Mesmo assim, jamais o criticava. Nesse dia, vi nos seus olhos ternos, uma sombra de tristeza. Desabafou com ar preocupado:

- José é muito nervoso. Temo pela sua saúde. Ele tem hipertensão. Eu o amo, mas não o compreendo."- sua voz estava muito triste naquela tarde.

José era rude e autoritário. Um verdadeiro brutamontes.

Pensava eu com certa ironia: "Talvez ele tenha mais saúde do que você, querida amiga."


Minha janela não mentia. Meus olhos curiosos eram minuciosos e detalhistas. A percepção aguda. Não era uma bisbilhotice maldosa, mas talvez, preocupação com Maria. Ficava com receio de que o marido a agredisse.

E, havia outra justificativa para tanta observação da vida alheia: falta de metas, vida solitária e meu próprio comodismo.

Enquanto eu estendia roupas no varal, ouvia estupefacta:

- Maria, você quebrou outro prato? Como você é burra e desajeitada, mulher!- ele gritava.

Sua voz era grave. Dava medo. Não era violento, mas também não era carinhoso. Eu, uma mulher solitária, mas vivida, ficava a cismar com meus botões: o que Maria viu naquele brutamontes? Ela jamais revidava os gritos. Sempre educada e carinhosa. José tinha a crítica afiada na ponta da língua.

Eu ouvia, quando ele se queixava de que o cabelo da Maria estava armado demais, o vestido feio e os brincos muito grandes. Nada estava bom para aquele homem estranho.

José não era rico. Remediado. Carro de segunda mão. Honesto, mas acomodado. Machista. Físico atarracado. Média estatura.

No entanto, Maria não se queixava do marido. Tinha a dignidade das almas boas, mas reservadas. Quando eu comentava sobre o mau humor do seu marido, justificava:

- O José é assim mesmo! Tudo o que faço é por amor! Amo meu marido! Ele sempre foi assim desde o início do casamento. Mas tenho por ele uma grande ternura. Não sei explicar!

Ah ,me dava nos nervos, a passividade da Maria. Ela dizia que era amor. Eu teimava que era subserviência. Ou seria medo? Comodismo? Como julgar uma alma boa como a de Maria? Que casal estranho! O anjo e o monstro. A Bela e a Fera. "O amor tem razões que a própria razão desconhece."

Quando eu estava em casa, ouvia os berros do José:

- Maria, traga meu copo de água!

- Maria, esquenta a comida!

- Maria, arruma a cama!

- Maria, o café está frio!

Às vezes, eu via o casal sair de carro. Colocavam as malas dentro do carro e partiam. Maria voltava toda feliz da vida! No entanto, José era sempre o mesmo: estúpido e rude como um brutamontes.

Bem, eu não conseguia ouvir os ruídos que vinham do quarto. Será que era esse o segredo da felicidade da Maria? Uma vida íntima apimentada? Não sei. Ela era discreta demais. Uma mulher refinada!

Maria sempre a mesma. Toda sorrisos. Bonita. Gentil. Caridosa. Os berros recomeçavam. Maria afirmava resignada:

- José é assim mesmo, mas é um bom homem! Sou muito feliz no casamento!

Será? Não era possível! Talvez eu estivesse espiando a vida deles como se olhasse alguém apenas pelo vão de uma porta. Superficialmente.

Afinal, apesar de ficar sempre na janela espiando , não podia ver tudo! No entanto, era o que bastava para tirar minhas próprias conclusões a respeito daquele casal.

Quais seriam as qualidades dele? O que será que ele possuía de tão especial? Maria com tendencias masoquistas? Não! Seu estilo de vida não combinava com qualquer perturbação mental ou psicológica.

Era alegre, simpática e profundamente preocupada e generosa com o sofrimento alheio. Fazia caridade discretamente. Ela saía durante parte da tarde para um trabalho voluntário junto às creches dos bairros pobres. Só eu sabia, porque eu era uma vizinha bisbilhoteira.

Qual seria o ponto fraco da Maria? Quais os defeitos que ela teria para amargar calada tantas críticas do José? Cheguei a pensar muitas coisas. Seria um amante? Um segredo de família? Eu me arrependi dos maus pensamentos. Almas generosas eram raras mas existiam nesse mundo de Deus.

Um dia, ouvi um grito do José. Apavorado. Desesperado.

Naquele momento, percebi que a seu modo , José amou Maria.

Meu coração disparou. Minhas mãos gelaram.

José gritou:

- Maria, Maria, fala comigo! Não me deixe! Preciso de você!

Maria, a doce mulher, a "Amélia de verdade", morrera de enfarto fulminante.

José ficou na Terra para amargar sua provação de homem machista.

Quem esquentaria sua comida? Seu café? Ou mesmo deixaria sua cama tão esticada quanto uma cama de motel? Maria morreu. "Vingança é um prato que se come frio."

- Morrer antes do José foi uma bela armação, amiga Maria.- pensei , quando fui visitar o túmulo da Maria.

José mandou fazer uma bela lápide com letras douradas. Estava escrito: SAUDADES ETERNAS- SEU JOSÉ.

Maria descansava o sono dos mortos. Descanso merecido, não? Se é que tinha pecados, pagara todos na convivência com o marido.

Senti muita falta da minha vizinha especial.

A casa do José silenciou. Nunca mais ouvi os gritos dele. Silêncio na casa. Mas o via chegar e sair. Sério . Sisudo. Magro. Olhos sem brilho.

Sua aparência orgulhosa havia desaparecido como por encanto. Andava cabisbaixo.

Os vizinhos chegaram a comentar com malícia que chegara a minha vez. Sugeriam para que eu consolasse o viúvo José.

Eu?!! Casar-me novamente com um brutamontes como aquele? Nem morta! Maria morrera de puro desgosto!

Depois de um ano de luto, José chegou em casa com uma mulher. Olhei através da janela e vi. Uma jovem bonita. Não aparentava mais de 30 anos. Loira e alta. Olhos esverdeados. Magras. Pernas esguias. Corpo sensual. Elegante. Seu olhar demonstrava orgulho e empáfia. Não tinha o doce olhar da Maria. O olhar das pessoas boas. O olhar dessa jovem era duro e frio.

Fiquei arrepiada! José estaria namorando uma jovem de 30 anos? Por que não?!

Meses depois, os gritos recomeçaram, mas não eram os de José. A voz esganiçada e histérica era da jovem de olhar azul e frio.

Tudo recomeçou, mas de modo diferente. Agora, eu ouvia:

- José, esquenta a comida! To com fome!

- José, quero um copo com água! Estou na sala de tv!

- José, a comida está ruim hoje.

- José , leva o lixo!

- José, arruma a mesa!.

Agora, José falava baixo, quase sussurrava:

- Claro, meu amor! Espera um pouco, meu amor!

Será que Maria estaria vingada? Acho que sim. Ri sozinha!

Quando eu encontrava com José e comentava sobre o temperamento irascível da sua nova esposa, ele dizia:

- Helena? Ela é ótima esposa! Ela é assim mesmo!

- José, não sente falta de Maria? Aquela mulher te amou, José!

José nada falava. Seu olhar ficava perdido.

É, nem sempre o castigo vem a cavalo... Pode vir também através de uma bela e jovem mulher!

Hum, mas pensando com meus botões de mulher solitária e vizinha bisbilhoteira, seria castigo mesmo?!!! Cada um tem o amor que merece, não?

Entender o amor humano é o mesmo que procurar agulha num palheiro. Impossível!

Depois da morte de Maria, aposentei minha janela. Cansei-me das tardes vazias espionando as ruelas cheias de jovens namoradeiras. Não me causava mais prazer espiar, observar e bisbilhotar.

Por que tomei essa decisão? José me entregou uma carta um mes depois da morte de Maria. Ele me contou com ar cabisbaixo: - Achei essa carta nos guardados da Maria. Veja, está lacrada! É para você!

Corri para casa, abri o lacre e li com atenção:

"- Querida amiga, você sempre me ouviu. Temo pelo futuro do José. Tenho maus pressentimentos. Algo me diz que vou partir logo desse mundo. Desde o início , percebi que você o amava. Quantas vezes a observei junto da janela ou no quintal de olhos fixos no meu José! Você observava José lavando a área, resmungando ou tomando meu café quase frio. Caso eu parta mesmo tome conta dele para mim. Ele tem pressão alta! Você faz um bolo maravilhoso...Eu não cozinho muito bem! Fique de olho! Tome conta dele para mim!

Sua sempre amiga Maria"


Meu rosto ruborizou quando acabei de ler o bilhe. Maria vasculhou meu íntimo e descobriu minhas carências. Com sua lente de amor, ela descobriu uma mulher carente, invejosa e solitária. Vazia por dentro. Talvez eu quisesse um homem para mim. Talvez eu tivesse inveja desse amor da Maria. E , com isso, perdia minha vida, observando a vida alheia. Eu vivia a vida dos outros!

Depois, disso, fechei minha janela para a bisbilhotice alheia.

Voltei a viver buscando novos horizontes!



Sandra Cecília

 

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