Cantinho da Leitura - 07/04/2007
Conto: Os amores de Lisa





Deitada na sua cama de casal, Lisa mirava o teto. Os olhos perdidos no vazio. João, seu namorado,virou-se para o lado e dormiu.

Lisa estava longe. Lembrou-se do ex-marido com mágoa. Três anos haviam se passado, mas era como se fosse hoje:

Desmarcou uma viagem de negócios para ficar com o marido. Queria fazer uma surpresa!

Pensava numa longa noite cheia de paixão. Lençóis macios. Banho de banheira. Sexo quente! Estava romântica e feliz.

Abriu a porta do apartamento e ganhou a sala. Silêncio. Entrou no quarto do casal.

De repente, a surpresa! Seu marido estava com uma mulher na cama, uma de suas melhores amigas! Na sua cama! Foi como se mil espinhos invadissem seu coração!

Cambaleou. Uma dor aguda na bôca do estômago. Só podia ser um pesadelo.

O marido tentou explicar, mas em vão. Cobriu o corpo nu com o lençol de seda. A amiga jogou os cabelos para trás e pulou da cama. Em cinco minutos, vestiu-se e foi embora.

Lisa ficou parada em pé na porta como se tivesse paralisada.

Há quanto tempo estava sendo traída? Por que deu errado? O que tinha feito para merecer tal castigo? Traição era história para romances e novelas. O marido sempre carinhoso e alegre. Traia silenciosamente sem deixar pistas. Ou ela teria ficado boba e lerda? Sua melhor amiga, sua confidente. Teve vontade de voar em cima dela e dar-lhe uma surra, mas não valia a pena.

 Lisa ouviu a história do marido. Estava anestesiada.

Ele afirmou sem encará-la: "Sei que ela é sua amiga, mas aconteceu! Não pude controlar! Eu a amo!"


Lisa aproximou-se e socou seu peito com força chorando:

"- Por que não foi sincero comigo? Você não tem sentimentos! Jogou dez anos de casamento no lixo! "- gritava desconsolada. Queria acabar com ele.



O casamento acabou. A separação foi amigável.

Lisa ficou perto enquanto ele colocava as coisas na mala. Teve vontade de implorar: "Fique! Por favor! Vamos recomeçar!"

Nada fez! Ficou em pé olhando para ele com o ar perdido.

Sem reação.

O marido pegou a sacola e saiu da sua vida sem olhar para trás.




Juntou os cacos que sobraram do seu coração traído e seguiu a vida. A traição calou fundo nos seus trinta e dois anos de vida.

Meses depois, conheceu João no escritório. Ele não conhecera a Lisa dos velhos tempos quando ainda acreditava no amor. João tinha 40 anos, alegre e jovial. O namoro era feito de noites de paixão.

Depois, chegou Mário, um rapaz de 35 anos. Lisa o conheceu na academia. Corpo malhado, sorriso fácil. Adorava dançar e era muito carinhoso.

Comheceu o Mauício numa sala de chat na internet. Ele era um quarentão charmoso, de cabelos grisalhados, maneiras refinadas e voz envolvente. Descobriram que moravam na mesma cidade.

A atração foi imediata.

Lisa ficou com os três. Mentir para os homens tornou-se habitual. Uma espécie de vingança tardia. Pura mágoa reprimida.

Os três amores estavam em sua vida há dois anos. A situação estava incomodando, mas não queria ficar sem eles. Procurava não pensar muito no assunto. Era uma espécie de proteção. Não se sentia promíscua, mas cautelosa e prudente. Seria vingança? Sei lá! Lisa não estava preocupada com isso. Amortecia qualquer sofrimento.

Estava longe do amor verdadeiro. Amara apenas uma vez e fora traída. Agora, estava escolada.

Agora, os seus amores vinham com a mesma conversa:

"- Dois anos se passaram. Por que não posso ter uma cópia da chave do apartamento, Lisa?"- perguntava João.

Lisa desconversava e seu rosto ficava pálido de repente:

"- Não me peça mais isso, por favor! Ainda não estou pronta!"- respondia com firmeza. - Por acaso, você me deu a cópia da chave do seu apartamento?

Meses depois seus amores tiveram a mesma idéia. Pegaram a chave e mandaram tirar cópias. Tinham em mente fazer uma surpresa, mas quem deseja fazer surpresa pode ser surpreendido!

No entanto, era muito difícil manter 3 amores. Precisava de uma atenção redobrada nos detalhes. Porta retrato com a foto politicamente correta. Mensagem no celular tinha que ser apagada. Lisa gostava desse jogo. Afinal, a mantinha bem protegida do amor verdadeiro. Mas era um buraco sem fundo, uma ilusão.

Gostava dos 3 ao seu modo. Mário era o preferido. Seu bom humor a cativava, mas preferia manter a sete chaves seus sentimentos. Era precavida para não se contaminar com doenças sexualmente transmissíveis. Mesmo assim, sentia uma certa inquietação. Era sua alma agoniada pedindo socorro! Um comportamento que nada tinha a ver com sua essência carinhosa e apaixonada.

Os dias se passaram. Os três amores da Lisa conseguiram as cópias das chaves.

O sábado acordou ensolarado. Lisa faria hora extra no escritório. Avisou os três amores que estaria muito cansada à noite.

João teve uma idéia maravilhosa. Receber Lisa com um spaguetti à bolonhesa e vinho tinto! Certamente ,ela não ficaria com tanta raiva da iniciativa da cópia das chaves. Chegou pontualmente às 18 horas. Foi para à cozinha preparar o jantar. Estava muito apaixonado por Lisa. Pensava no futuro e gostaria de uma relação mais estável e firme.

Maurício chegou às 19 horas com flores do campo. Colocou a chave na fechadura e a porta se abriu. Sorriu vitorioso!Chegando à sala deparou com a mesa posta, velas, dois pratos brancos e talheres. Uma toalha branca cobria a mesa redonda. O abajur de madeira estava aceso . A sala estava acolhedora e aconchegante.

Maurício sorriu e pensou:

"- Lisa já chegou! Que mulher maravilhosa! Preparou um jantarzinho só para nós dois! Por que será que não ligou?"

Ouviu passos na cozinha. Entrou na cozinha pequena e deparou com João. Ele estava colocando molho no macarrão. Os dois entreolharam-se intrigados:

- Quem é você? - perguntou João.- Como entrou?

- Eu pergunto o mesmo. Não sabia que Lisa tinha parentes. - Maurício começou a transpirar.

- Não sou parente da Lisa. Somos namorados.- afirmou João contrafeito enquanto ralava queijo sobre a massa. Suas mãos começaram a tremer, quando viu as flores.

Maurício sentiu o rosto afogueado. A cabeça começou a latejar :

- Não estou entendendo nada! Eu sou o namorado dela!

Os dois se encararam com fúria.

Foram para à sala e Maurício olhou para a mesa com ar indignado:

- O quê? Está querendo brincar comigo?

- Já falei ! Sou namorado da Lisa e cheguei antes para fazer uma surpresa.- João estava muito nervoso.

- Ah, é? Pois é ! Eu também!- afirmou com ironia. Seu rosto queimava.

João deu um sorriso amarelo e concluiu:

- Nossa Lisa está nos traindo ou é um grande mal entendido. Será que não está no apartamento errado? - perguntou João elevando a voz.

O bate boca começou. A idéia da traição ficou muito clara entre os dois. De repente, a porta se abriu e apareceu Mário. Tinha um embrulho bem feito nas mãos.

Perguntou confuso:

- Acho que entrei no apartamento errado, mas a chave entrou.- desculpou-se meio sem jeito enquanto Maurício e João o encaravam com estranheza.

João brincou com sarcasmo:

- Chegou mais um!

- Pelo jeito , nossa Lisa não é o que parece!- concluiu Maurício.

- O que vamos fazer? Um duelo? Ou trielo?- berrou João enfurecido.- Levar chifres da Lisa era o que eu menos esperava durante esses dois anos que estamos juntos.

- Deve ser por esse motivo que ela não dava as cópias das chaves.- afirmou , Mário rindo solto.

João sugeriu:

- O que vamos fazer? Na verdade, tenho vontade de ir embora. Não há nada para explicar, não é?

- Que tal comermos o macarrão que João preparou? - sugeriu Mário com bom humor. Na verdade, sentia-se bobo, um pateta. Riu nervosamente.

- Vamos esperar por ela! Os três aqui! Que tal?- João ainda não se conformava com a realidade.

Uma discussão acalorada começou entre os três. Maurício gritou:

- Lisa mentiu! Não merece nossa consideração! Não vale nada! E ficou toda melindrada quando pedi a cópia das chaves do apto.

Mário defendeu a namorada:

- Alto lá! Não fale assim da minha namorada!- Mário estava querendo briga.

- Ah , defendendo a mulherzinha, não? Mas , por que? Estamos os três que nem bobos aqui.- observou João com raiva.

João e Mário começaram a discutir e partiram para os tapas. Maurício interveio.

João e Maurício encaminharam-se para à porta. João decidiu:

- Tô fora!

Maurício ajuntou:

- Ela me paga!

Mário meneou a cabeça e sentou-se no sofá. Estava desolado.

Os dois saíram. João bateu a porta com força.





Maurício chegou em casa com a cabeça latejando. A esposa dormia a sono solto. Eram quase 23 horas. Passara num bar e tomara algumas cervejas para aliviar o gosto amargo da traição. Quando viu a esposa dormindo observou um detalhe. Ela estava de baby doll vermelho. Nunca a vira com esses trajes sumários. Ela só dormia de camiseta.

Ela acordou com seus passos no quarto:

- Oi, amor, estava lhe esperando! Você demorou tanto! Aonde foi?- murmurou com voz sonolenta.

De repente , sentiu um gosto amargo na boca. Lisa lhe oferecera o remédio que tinha preparado para a esposa: a traição. Maurício jamais contara à Lisa que era um homem casado. Adorava estar com Lisa. Ela sabia fazer amor gostoso vestida com seu baby doll vermelho.

Maurício olhou para a esposa com desagrado e resmungou:

- Por favor, tire esse baby doll vermelho. Está vulgar!

A esposa empalideceu:

- O que ?!!!!!Estou querendo salvar nosso casamento e você me chama de vulgar? Ou você pensa que não tenho percebido as manchas no batom em sua camisa... As reuniões intermináveis......Quem é vulgar aqui, hein? - ela gritou. Correu para o banheiro. Maurício ouviu os soluços da esposa. Estava mais irritado ainda.

Engoliu em seco. Sentou-se na cama e acendeu um cigarro. Baby doll vermelho somente no corpo bem feito da Lisa. Aquela desalmada.!






João foi direto para a cama quando chegou em seu apartamento. Não conseguia acreditar no que aconteceu. Lisa, uma mulher sedutora. Sinceridade e sedução nem sempre andavam juntas.





Mário bebericou vinho até Lisa chegar. Ficou olhando para a macarronada preparada por João. Riu sozinho. Depois, esticou o olhar e mirou as flores do Maurício. Não sabia o que fazer !

Lisa chegou. Cansada. Quando viu Mário sentado no sofá bebendo vinho protestou indignada:

- Como entrou no meu apto?

- Pela porta.- respondeu Mário com ar distante e um sorriso irônico no canto dos lábios.

- Você não tem as chaves do apto.- ela afirmou contrafeita.

- Não tinha. Agora, tenho! E veja o que preparei para nosso jantar!- ele disse enquanto Lisa observava a mesa arrumada. No canto do sofá , estavam as flores do campo. Algo estava muito estranho!

- Você não gosta de cozinhar! Nunca trouxe flores!- afirmou com estranheza.

Mário piscou o olho e disse animado:

- Você nada sabe sobre mim apesar de estarmos juntos há dois anos!- Lisa não desconfiou de nada . E se desconfiou , disfarçou muito bem. Mário não conseguiu sentir raiva dela. Sentia-se meio esquisito. A cabeça latejava. Estava ficando alto.

Lisa tomou um banho relaxante e apareceu na sala de jantar com uma lingerie preta. Os cabelos dourados soltos e escovados. Sentou-se no sofá e viu um embrulho. Perguntou:

- O que é isso?

- Pra você! Abra! Você está linda nessa lingerie! - aproximou-se dela e começou a beijar seu rosto. Estava excitado.

Ela o afastou e abriu o pacote. Era uma blusa maravilhosa! Sorriu satisfeita, mas mesmo assim, não gostou da atitude do Mário. Fazer cópia da chave do apto. Seria perigoso! E os outros namorados? De repente, lembrou-se do João. Ele fazia uma macarronada maravilhosa!

O casal jantou em silêncio. Havia algo estranho no ar. Lisa limpou o canto da boca com o guardanapo e observou:

- Você está muito estranho! Faz as cópias da chave do apto sem minha aprovação. Vem aqui , traz flores do campo, presente e ainda prepara o jantar? - ela disse desconfiada.

Mário baixou os olhos e tomou mais vinho.

O celular do Mário tocou. Mário olhou de relance. Sabia quem estava ligando. Lisa ficou olhando para ele. Quem seria aquela hora da madrugada? Lisa olhou para o celular com ar desconfiado e perguntou:

- É bom você atender! Pode ser urgente!

- Quero você!- ele sussurrou beijando seu pescoço.- o celular não parava de tocar.

Lisa afastou-se dele. Ordenou:

- Atenda o celular!

Mário atendeu:

- Alô!

Uma voz feminina sussurrou:

- Mário, você não apareceu. Eu falei para você que o Martins viajaria hoje. O campo está livre.

Mário deu um suspiro e tentou ser o mais natural possível:

- Amanhã a gente conversa!

A voz do outro lado perguntou desconfiada:

- Onde você está?

- Amanhã a gente conversa.- respondeu Mário e desligou o celular.

Lisa fechou a cara. Mário estava saindo com alguma sirigaita. Mentira e traição andam juntas. Depois, lembrou-se dos outros dois namorados. Estava sendo a rainha da traição. De repente, isso a incomodou.

Mário recompôs-se e afirmou com tom grave na voz:

- Lisa, sente-se perto de mim.

- Você bebeu muito vinho enquanto me esperava. É melhor ir embora. To cansada e com sono.

- Lisa, preciso conversar com você.- ele disse com ar grave.

- Quem ligou para você agora? Por que mentiu?- ela estava quase gritando.

Mário levantou-se. Ajeitou a camisa e colocou a taça de vinho em cima da mesa. Continuou:

- Lisa , tenho um caso há 4 anos.

- O que?- perguntou Lisa.

- Ela é casada. Eu gosto muito dela, mas não se decide.

- Foi essa mulher que ligou para você agora?- Lisa estava bufando de raiva.

- Foi! Eu jamais menti sobre meus sentimentos em relação a você, Lisa. Estava tentando me desvencilhar desse caso antigo. Ela é casada! Eu estou dividido e atrai uma mulher dividida também.- concluiu.

- Ora, bolas! Que desculpa esfarrapada!- protestou Lisa.
Mário esperava que Lisa se abrisse também, mas ela nada falou. Lisa começou a chorar copiosamente:

- Você nunca soube que peguei meu marido na cama com outra. Sabia? Foi terrível!- o namorado sentou-se novamente e a abraçou com carinho. Lisa soluçava. Pela primeira vez, tinha a verdadeira Lisa nos braços.

- Pensei que fosse morrer! Eu achava que tudo estava bem entre nós , mas não estava. Fui pega de surpresa. Ele me traiu com a minha melhor amiga.

Mário pensou com tristeza:

"- E, porque foi traída, também traiu. Não se entrega nos relacionamentos."

Ele estava muito confuso com todos aqueles acontecimentos. Estava começando a gostar de Lisa, mas ela não se abriu. Achou melhor ir embora para casa. A falta de sinceridade grassava naquele relacionamento.

- Lisa, não fique assim!- acariciou de leve seu rosto delicado.- Por que nunca se abriu comigo?- perguntou carinhosamente.

Ela gritou:

- Porque todos vocês são iguais! Também estava me traindo!

-Ah,sei!- ele afirmou.

Mário olhou para ela com ar pesaroso e desabafou:

- Não fui eu quem preparou o macarrão. E, também, não fui eu que trouxe as flores. Tenha um ótimo fim de noite!

Lisa empalideceu. Mário lhe devolveu as chaves do apto e saiu. Deixou atrás de si o aroma do seu perfume favorito: Carpie Diem.


Lisa sentou-se no sofá e olhou em volta: macarrão, mesa posta, vinho.

Depois, em cima do móvel de mogno ,viu dois molhos de chave. Compreendeu tudo. Sua cabeça começou a latejar. Seu mundo falso desmoronou de repente. Achava-se segura. Com esse comportamento volúvel achava que estava protegida do amor.Uma vingança enrustida. O coração começou a sangrar. Seus três homens. Mal os conhecia. Não se entregou a nenhum deles. Estava sozinha com toda sua dor e agonia. Vergonha.

Tomou o resto da garrafa de vinho e foi para cama.

Adormeceu chorando.

Tentou falar com Maurício e João. Precisava saber o que tinha acontecido. Como Mário havia descoberto sua traição? Ligou para o trabalho do Maurício, mas não conseguiu falar com ele. Conseguiu o telefone da casa dele. Ligou. Uma voz feminina atendeu:

- Casa dos Fonseca.

- Por favor, o Maurício está?- perguntou com voz sumida.

- Não.- a voz respondeu com firmeza. Aqui é a esposa dele. Com quem estou falando?

Lisa desligou o telefone. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Orgulho ferido. A verdade doía. Maurício era casado e ela nunca desconfiou.

Dias depois, ligou várias vezes para o celular do João. O carinhoso João. Será que ele a traía também? Uma voz feminina atendeu:

- Alô!

- Quero falar com o João!- pediu.

- Desculpe, aqui é a mãe dele. João foi buscar o André na escola.

- O que?- Lisa tornou a perguntar.

- João foi buscar o filho na escola. - respondeu a voz amável. Ele deixou o celular comigo. Quer deixar recado?

Lisa estava quase chorando. Perguntou:

- E a esposa dele?

A mulher respondeu:

- Esposa? Meu filho não tem mais esposa. Ela morreu de acidente há 5 anos. Por favor, com quem estou falando? - perguntou a senhora.

Lisa desligou. João era viúvo e tinha um filho. Sempre descontou nos homens , a traição do ex-marido. No final, sentiu apenas um gosto amargo na bôca. Tinha razão! Todos os tres haviam mentido.

Viveu uma grande farsa!

Deu um longo suspiro e discou para outro número:

- Andréia,aqui é Lisa! Marque uma consulta com o Túlio, por favor. Eu interrompi a psicoterapia. Quero voltar!

A secretária respondeu amavelmente:

- Dr. Túlio está em férias, Lisa. Só no mes que vem!- avisou solícita.

De repente, lembrou-se da cena , da fatídica cena: a sua melhor amiga na cama do seu marido.

Foi para o quarto. Vestiu uma camisola e pensou:

- O meu terapeuta está de férias! Que saco! Bem, amanhã, é outro dia!

A sensação de angústia continuava forte. Virou para o lado e tentou dormir.

No dia seguinte, acordou com o toque do celular. Atendeu! Era uma voz familiar! Seu ex-marido. Sentiu um aperto no peito.

- Lisa, como você está?- ele perguntou desconcertado.

Ela não sentiu raiva, mas um amortecimento nas pernas.

- Tudo bem! E você? - respondeu em tom evasivo. Tinha ensaiado esse momento com todas as letras, ofensas, mas...

- Eu estou voltando para São Paulo amanhã.- avisou em tom esperançoso.

- E a Vania? - perguntou. Se fosse em outros tempos estaria muito contente com a possibilidade do safado ter sido abandonado. Mas agora....Isso não importava mais!

Silêncio. Só ouviu a respiração dele. Segundos depois, ele respondeu:

- Vania foi embora para a França. Terminamos tudo.- ele respondeu e sua voz ficou mais baixa. - Gostaria de conversar com você. - sugeriu temeroso.

Lisa não sentiu nenhuma emoção. Apenas um vazio. Nem raiva. Nem ódio. Nada.

Lembrou-se dos três namorados. Da traição. E sua cabeça começou a rodar.

- Eu ligo.- ela afirmou. Ando muito ocupada no escritório.

O ex-marido entendeu a mensagem. Despediu-se com voz cordial:

- Obrigada por ter atendido meu telefonema. Eu espero ...que tenha me perdoado... Sempre lhe amei, Lisa! - sua voz estava triste, quase terna.

Lisa sentiu vontade de rir. Era como se tivesse pedido uma pizza e ela tivesse vindo uma semana depois. Fria. Dura como pedra.

Precisava se livrar daquele karma, daquele fantasma. Dos fantasmas dos seus sentimentos descontrolados. Da pena de si mesma.

- Já lhe odiei muito... já lhe amei muito...Bem, agora , está perdoado. Adeus, Jaime!- e desligou o telefone.


Agora, estava livre!




Sandra Cecília

 

Copyright © 2003-2009 Relax Mental
Sandra Cecília / Renato Augusto - Relax Mental - desde 13 de junho de 2003