Verinha Verdadeira - 11/10/2007
Sua fera interior!





Um dia, cheguei a pensar que estava evoluindo e não fazia mais parte do mundo dos humanos. Eu me peguei tão boazinha e solta no ar como uma pluma. O mundo era cor de rosa. As pessoas tinham um halo especial. Special monde. Tudo certinho dentro do vidrinho.

Cheguei até a dar conselhos para amigas e amigos. Como estivesse perto da sabedoria dos monges tibetanos. Sem meditação cheguei ao completo nirvana. Eu era a rainha da cocada preta! Quer mais?

Nas minhas orações, completa gratidão a Deus, Pai Criador. Estaria perto do paraíso interior da tolerância, do amor magnânimo e da fraternidade universal? Mais um pouco seria canonizada em vida.

Ah, mas a vida deu conta disso. Os anjos ficaram atentos. Os demônios riram solto e me pregaram uma peça. Uma grande trama ou armadilha. Caçoaram de mim , porque viam dentro da minh`alma. E vida se mostrou crua como uma carne de açougue. Exposta. Sem rodeios.

Veio a mais completa decepção! E de quem eu não esperava. Uma frustração doída como se eu tivesse sido atingida por um punhal. E mais algumas contrariedades invadiram meu paraíso de vaidades. Sabe aquelas agulhadas que a vida nos oferece uma após a outra como um turbilhão?

Os astrólogos comentam: "Inferno astral". Os espíritas: "Provação". Os monges tibetanos: "Treino para a evolução." Os evangélicos: "Tentação do demônio!" Os pais de santo: "São os eguns! Faça um ebó!"Os católicos: "Faça uma novena!"

Não quis saber de Deus, porque eu senti raiva. Como pode você amar tanto alguém e ser apunhalada pelas costas? Traição dolorida e malvada. A pessoa que você idolatrou. Colocou num pedestal. Esse foi o meu erro mais grave. Idolatrar. Santificar um mortal como eu. Ele me feriu e me magoou. Ele acordou a fera interior. E ela estava pronta para atacar.

E junto com aqueles sermões religiosos veio o seguinte: "Não sinta raiva! Perdoe!" "Deixe passar!" "Senão você vai ter câncer, úlcera, etc e etc.!" Então, nos ensinaram a pegar o touro interior à unha e prende-lo. Já tentou prender um touro furioso? O que você conseguirá? A força descomunal desse mamífero será elevada às alturas. Quanto maior a repressão, mais força, mais raiva.

Aprendi a dura e real lição da vida: você tem dentro de si uma criatura melindrosa, vaidosa e cheia de raiva. Essa criatura pode ficar agressiva, gritar, berrar, bater e até matar! Sabia? Sai de dentro de você. Ou vai me dizer que é muito bonzinho. Claro que é! Até descobrir que foi contrariado. Humilhado. Passado para trás. Vai oferecer a outra face?

O que nos separa dos animais? Racionalidade. Isso! Mas usamos a racionalidade contra a gente. A gente se sente especial. Não toma conta da fera interior. O que fazer ? Domesticar o bicho? Soltá-lo e deixá-lo fazer besteiras? Matar?

Não! Compreender a força do seu touro interior. Aceitar e compreender todas suas limitações. Seus sentimentos. Os ditos ruins. Os ditos bons. São seus. Fazem parte de você. Eu senti uma raiva descomunal ... Quanto mais eu reprimia a raiva , mas ela vinha com força. Junto com ela os mais horríveis pensamentos. O desejo de vingança. Você já teve ? É uma delícia! Quando você é pisado, humilhado, traído, pensar numa deliciosa vingança é como comer "um prato quentinho." Vingança é um prato frio? Que nada!

Idealizei a mais bela vingança dirigida para a pessoa que mais amei nesse mundo. Arquitetei tudo na minha mente quase diabólica. Senti um gosto de fel. E meu touro interior ficou mais forte.

Descobri meu lado escuro. Sombra. Pecado. E desci ao abismo dos mortais. Pequei. E agora, esperar o castigo divino? O ódio se contorcia dentro de mim. Quanto mais eu pensava , mais sentia ódio. Quanto mais sentia ódio, mais vítima do destino eu me sentia. E o ódio alimenta nossa fera interior.

Não! O que eu queria mesmo era integrar todos os meus sentimentos. No final, o touro enlouquecido começou a me despertar para outra realidade: a raiva, o ódio, dificilmente atingiria o odiado. Quem sofreria o tormento do ódio seria talvez ... eu mesma. E já estava sentindo aos poucos, uma sensação de puro cansaço.

Vingar-me? Como? Pagar na mesma moeda? Ah, mas ele estava distante de mim ... Eu não conseguiria atingi-lo. A traição atroz e a indiferença nos separou.

Eu pensava: "Um dia, ele me pedirá perdão de joelhos! Um dia, ele virá rastejando! Dominado,vencido e na pior!"

Percebi que esse pensamento me fazia mal. Era um prazer estranho, mas necessário. Eu precisava experimentar todo o meu fel.

Aí me despi de toda a santidade. Eu me vi completamente nua com todas as minhas falhas. Ou quase todas. Então, percebi que eu era um ser humano tão ou mais falho quanto meu ofensor. Eu queria ser um anjo e não era.

Abri a cerca e deixei meu touro interior sair.... Mas ele estava dominado. Dócil? Não. Estava controlado. Meu oceano de emoções não precisava de uma tsunami, mas da ação do tempo e da humildade.

Pensei na lei da causa e efeito. Se ele errou, a vida dará conta dele.

Seria esse pensamento ainda um tom mesclado de mágoa? Pode ser.

Seria capaz de perdoar um dia? O que é perdoar? Esquecer, tolerar ou compreender? Analisar sem julgar ou condenar?

Não sei...

Mas a vida cura tudo....tudinho.


Depois de ruminar a situação e chorar todas as lágrimas, abri a janela da vida e me libertei.


Nem anjo. Nem demônio. Eu , apenas eu!



Sandra Cecília

 

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