Cantinho da Leitura - 11/06/2009
Conto: Tarde na praia





Ela ganhou a areia da praia. Saia esvoaçante, quase transparente.O corpo bem torneado na tranquila maturidade dos seus quarenta anos A blusa azul curtinha rente ao corpo. Andava com certa elegância na areia. Demonstrava requinte, mas os olhos baixos focavam a areia úmida. O cabelo era liso e castanho. Desmaiava sobre os ombros. Esvoaçava com o vento. Solto. Leve. Parecia perfumado. Brilhava.

Segurava o chapéu bonito e grande com uma das mãos enquanto a outra a ponta da saia branca. Caminhava balançando os quadris e olhando para o mar. Uma esperança febril marcava seu rosto harmonioso. Olhos castanhos, amendoados. Sobrancelhas protegiam o olhar quase triste.

A tarde morria na praia desenhando o por do sol. Vazia. Misteriosa. Ritmica. As ondas iam e vinham. Prometiam a mudança da maré. Clamavam por Iemanjá. Cheiro de maresia. Os siris começavam a sair das tocas de areia fofa e branca.

A mulher solitária se sentou na areia dura e molhada. As pernas dobradas e juntas. As mãos abraçando as pernas. Ficou ali como se esperasse alguém. Uma espera ansiosa. Febril.

A cabeça baixa. Seu queixo bem feito alcançou um pouco os joelhos que estavam quase à mostra.

O sol expirava. O horizonte rosa choque, quase vermelho poderia inspirar os poetas, os músicos, os repentistas, os fotógrafos. A alma de Vinícius de Moraes. Mas o horizonte vermelho desaparecia aos poucos... Carente de testemunhas sensíveis. Maré tranquila. Gaivotas voavam livres no alto do céu.

Quando ele apareceu ela olhava para o mar. O rapaz caminhava com a prancha na mão na beira da praia. Seus pés em contato com a água faziam um som agradável, quase divertido. Como se o mar fosse somente dele. Como se ele tivesse poder sobre o mar e as ondas.

Os olhos sorriram quando viu a mulher misteriosa de chapéu. Caminhou em direção a ela. Segurava a prancha com uma das mãos. As ondas batiam nas suas pernas.

Moço bonito. Pele bronzeada. Dourada. Olhar de menino no corpo de trinta anos. Os músculos firmes. Ombros largos. Algo em seu rosto expressava preocupação. Havia um vinco marcando a boca rachada pelo sol.

Ela se levantou. Limpou a areia da saia. Os grãos de areia caíram como uma fumacinha branca. Ele se aproximou dela e sorriu sem jeito. Ajeitou o cabelo de parafina, de sol forte. Os dois se aproximaram. Mais e mais. Os olhos dele eram da cor do mar. Verdes. Profundos,penetrantes.

A noite nasceu aos poucos. Eu vi os dois corpos enlaçados num beijo apaixonado. Mas havia uma sombra escura espreitando os dois. Não sabia exatamente o que era. Parecia esperar por alguma coisa além dessa vida. A sombra tinha vida espiritual.

Ele se afastou um pouco e segurou o queixo da jovem senhora com os dedos da mão direita. Sorriu sem jeito. Ela sorriu, mas era um sorriso triste. Melancólico. Disfarçado desespero. Ele olhou para ela e começou a falar. Ela ouvia calada, mas seu rosto adquiriu uma expressão desesperada. O homem meneou a cabeça em atitude negativa. Ela o puxou para si, mas o homem se afastou. Vi o corpo bronzeado do homem desaparecendo aos poucos da praia. Ganhou o calçadão e atravessou a avenida. Olhava para a frente esperando por um futuro diferente da mulher de chapéu. Esperando por uma vida longe dela.

Ela ficou parada na areia. Chorava. Um soluço contido. As lágrimas eram salgadas como a água do mar. Seu cabelo estava quieto. A saia perdeu o movimento. Ar parado. Emoções agitadas envolviam o coração da bela mulher.

A tarde rosa choque morreu. Nasceu a noite escura pintada de estrelas. Silêncio. As estrelas piscavam no céu. Pareciam implorar esperança. Oração. Respeito e gratidão pela vida!

Ela entrou na água. Os olhos choravam. O corpo todo tremia de revolta e dor. Nada mais importava agora. A viuvez do amor não correspondido marcava seu rosto de lágrimas. Promessas não cumpridas. As ondas iam e vinham como seu pranto desesperado de dor. Ela caminhou entre as ondas. Parecia uma deusa. Iemanjá chorava.

Vi a cabeça da mulher na água. A onda veio forte. Uma entrega ao mar sem resistencia. A mulher sumiu entre as ondas.

No mar flutuava o chapéu requintado. Perdido. Desorientado. O chapéu requintado que contava a história de amor de um surfista e uma mulher solitária.

No mistério do mar, uma alma volitou...e procurou febrilmente pelo ser amado.

Eu, testemunha sem corpo.......voltei para meu quarto e quando abri os olhos....apenas vi um chapéu solto no espaço!



Sandra Cecília

 

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