Espiritismo - 09/08/2009
Conto espírita: A Luz do entardecer...





Mauro era um sessentão que gostava de dançar boleros no Baile dos Aposentados. Um verdadeiro pé de valsa! Chegava sorrindo e dançava com todas as mulheres. Altas. Baixas. Morenas. Loiras. Cadeirudas. Feias. Jovens. As de meia idade. Elegantes.Simples.Carentes. As que não sabiam dançar, mas que desejavam aprender. As damas de sorriso fácil e requebrado sensual. As mulheres de olhar triste.

O viúvo, um homem misterioso, solitário. Algumas mulheres solitárias do Clube do Aposentados disputavam seu coração. Mauro dançava com todas , mas não era de ninguém. Na lembrança, o casamento feliz que durou trinta e cinco anos. Judite havia partido para o mundo espiritual há cinco anos. A viuvez deixou a marca da solidão, mas também o despertar para novas reflexões. Houve um susto: um enfarto do miocárdio. Não deixou sequelas, mas foi o sinal para maior cuidado com a saúde física e emocional. Mauro largou a vida sedentária e ganhou o mundo do bolero.

Ficou apenas o César, filho único que estava com trinta anos.Ele adorava carros e uma boa vida de conforto e facilidades. César deu trabalho na infância, na adolescência e na vida adulta. Mauro era um pai severo e austero. Passou grande parte da sua vida tentando se aproximar do César, mas não conseguiu.

César quase não ia à escola, mas era phd nas mentiras. Pegava dinheiro da carteira dos pais. A mãe dele chorava escondido.O rapaz começou a andar com más companhias. Vendia pertences dos pais para comprar drogas.

Mauro gostava de frequentar a casa dos amigos e sentia vergonha quando eles contavam os progressos dos filhos. O filho do seu amigo José se formara em Medicina. A filha do casal Andrade era uma advogada bem sucedida. O caçula dos Ferreira fazia mestrado nos Estados Unidos. Quando perguntavam sobre César, Mauro mudava de assunto. Ou então mentia também. Voltava para casa desolado e com o orgulho ferido. Judite, sua esposa, o admoestava com carinho:

- Meu bem, filhos são sementes. Cada uma tem seu jeito de crescer e seu tempo para gerar frutos. César precisa ser amado e compreendido.- ela falava com certa tristeza no olhar.

Mauro retrucava:

-Querida, não ponha pano quente! Nosso filho é um drogado! Não vai ser nada na vida! Ontem, sumiu dinheiro da minha carteira. Que desgosto, meu Deus! -queixou-se desolado.

-Não fale assim! Percebeu como toca bem a guitarra? Gosto de ouvi-lo tocar!- suavizou a esposa com ar maternal. Mauro fez um muxoxo.

- Fiz tudo para que ele estudasse nos Estados Unidos da América e seguisse a advocacia. Ah, eu tinha tantos sonhos em relação ao nosso filho! E o que eu vejo? Ele se tranca no quarto para fumar maconha! É isso que nós recebemos após tantos anos de sacrifício! As noites insones à cabeceira da sua cama velando seu sono entrecortado pela febre da bronquite. E outras noites acompanhando seu choramingo quando caiu e precisou engessar o braço. Não me conformo! Tenho um único filho que me mata de desgosto!- Judite preferia silenciar para não provocar uma discussão.

Mauro e o filho tiveram uma discussão muito feia. Ele se descontrolou e deu uma bofetada no filho. A mãe acompanhou a discussão com o coração angustiado. Temia uma tragédia! Ela sabia que César havia usado drogas naquele dia.

- O senhor me odeia, não é, pai? O senhor me odeia, porque não sou um doutor ou então um próspero advogado.- protestou com os olhos injetados.

 - César, seu pai só quer seu bem, filho! Você está usando drogas! Quer matar sua mãe de desgosto?- ela começou a soluçar. César sorriu com escárnio e olhou para o pai com ar de fúria. Respondeu com mágoa:

 - Eu usando drogas? Não presto mesmo, pai. O senhor queria se orgulhar de mim! Queria que eu fosse advogado, médico e sei lá mais o quê! Mas não é isso que eu quero! Eu quero fazer sucesso com minha banda de rock! O senhor sempre zombou da minha guitarra. Sempre zombou daquilo que eu gosto. Nunca se preocupo comigo de verdade. Seu orgulho, sempre seu orgulho! Eu o odeio!- gritou cheio de revolta.

Mauro abaixou a cabeça e se sentou no sofá. Judite foi buscar um copo com água. Enquanto Mauro bebia a água e tentava se acalmar, César pegou as chaves do carro e saiu rapidamente. Bateu a porta com força. Judite desabafou entre lágrimas:

- Temos de ser fortes, querido! Se ele está mesmo usando drogas precisa mais ainda do nosso amor! Mas nunca o vi sendo amoroso com o César. Está sempre criticando o que ele gosta.Assim ele se afastará cada vez mais!- avisou temerosa.

-Não sei em que eu falhei, Judite! Não sei mais o que fazer! Por que ele não se interna numa clínica?- a voz estava carregada de revolta.

- Meu amor, se não apreciarmos a luz maravilhosa do entardecer, a noite vai cair! Temos de ser gratos por tudo que Deus nos oferece! O que é ruim pode ficar bom! César precisa da sua firmeza, mas também do seu amor. -profetizou Judite com os olhos marejados de lágrimas.

Depois que Mauro ficou viúvo, o relacionamento com o filho piorou bastante. As brigas eram frequentes. César saiu de casa cinco meses depois que a mãe morreu. Foi morar no apartamento de um amigo. Mauro lutou contra o alívio de se livrar de um filho problema e a terrível possibilidade de tê-lo perdido para sempre. Eram emoções contraditórias e fortes. Sabia que amava o filho, mas também nunca o disse! O viúvo não soube mais notícias do filho. César não atendeu mais seus telefonemas e , também, não quis mais recebe-lo.

O tempo passou e Mauro encontrou na dança a compensação para suas frustrações. A solidão agitava suas noites. A música era um sedativo natural que amortecia suas frustrações.

O Dia dos Pais era uma tortura ! Esperava em vão um cartão, uma carta ou telefonema. Ou mesmo um e-mail. Esperava ser chamado novamente de pai. Estava arrependido dos seus erros. Sabia que um filho difícil tinha que ser amado em dobro. Poderia ter se aproximado mais de César, mas pensou apenas no orgulho.

Como estaria César? Estaria mesmo mergulhado no mundo das drogas? Descobriu que seu filho estava tocando guitarra num barzinho na avenida principal da cidade e fazia parte de uma banda.

Um dia, foi assistir ao show. Sentado a uma mesa de canto, Mauro viu o filho novamente. César estava mais magro e com a barba por fazer. Teve um impulso de se aproximar dele e abraçá-lo. Abrir seu coração de pai.Pedir a ele que voltasse para casa, mas procurou se conter. Queria preservar seu velho coração das emoções fortes e tristes. Lembrou-se da única pelada que os dois jogaram no campo do clube. Agora, sabia apenas que o filho tocava guitarra e dividia um apartamento com alguns amigos. Soube também que César arrumara um emprego. César ficou sabendo que ele foi ao show, mas não se manifestou.

O viúvo decidiu deixar o filho levar sua própria vida. Suas noites agora pertenciam aos boleros, à salsa e ao samba. Costumava se vestir com elegância.Sua roupa era impecável. Sapatos confortáveis. Fazia a barba com esmero. Uma escovada caprichada no blazer de corte elegante. Antes de sair, tinha o hábito de piscar para o porta-retrato onde estava a foto da sua esposa:

- Não fique com ciúmes, Judite! Eu a amarei eternamente, mas você me deixou só!- pegou as chaves do carro e saía do apartamento fechando a porta atrás de si.

Depois da viuvez, Mauro não conheceu mais o amor. Saía com algumas mulheres, mas não conseguia se apaixonar. Não queria mais amar ninguém.

Naquele sábado de lua cheia, uma mulher lhe chamou a atenção no baile. Um olhar melancólico na mesa 6. Seus olhos eram tristes , escuros e amendoados.Ela conversava com duas amigas na mesa. Aparentava no máximo uns trinta anos. O sorriso era quase tímido. Vestia uma saia preta que mostrava pernas bem torneadas. Os sapatos eram escuros. O cabelo castanho caía até os ombros. Brincos dourados brilhavam e enfeitavam suas orelhas pequenas. O nariz se harmonizava com o rosto delicado. Mauro percebeu um certo magnetismo naquele olhar. Seu coração safenado disparou. Ela correspondeu e deu um leve sorriso.

Mauro queria dançar com a moça misteriosa. Ajeitou o cabelo para disfarçar o início da calvície e se aproximou da mesa dela. Convidou-a para dançar a seleção de boleros. Ela ficou em silêncio por alguns instantes. E o viúvo enfrentou os segundos mais longos da sua vida. Esperança, medo e dúvida. Ela aceitou e o casal foi para a pista de dança.

O nome dela era Marisa. Ela não dançava, deslizava. Viúva moça e bonita. O marido morreu de acidente de carro fazia tres anos. Não tiveram filhos. Ela morava com os tios, um casal de idade.Mauro não conseguia tirar os olhos dela.





Salsa. Samba. Bolero. Marisa dançava bolero maravilhosamente. Os dois combinavam no ritmo e a dama se deixava conduzir com charme e beleza. Mauro conduzia a dança com destreza e suavidade.

Voltou para casa nas nuvens. Quando entrou no quarto deu outra piscada para a foto do porta retrato:

"Querida, sinto muito,mas meus dias de solidão vão terminar! Me perdoa, meu bem! Preciso apreciar a luz do entardecer, porque a noite já vai cair. Ah, meu amor, você faz falta!"- e deu uma piscada.

Agora, Marisa era seu par constante. As outras mulheres ficaram enciumadas e se espalhou um comentário no clube: Mauro, o pé de valsa, o viúvo charmoso estava apaixonado!

Mauro precisava expressar seus sentimentos.Fazia um mes que dançava toda semana com Marisa nos bailes do clube. Eram apenas bons amigos, mas ele queria mais! Sentia o perfume dela enquanto dançava de rosto colado. Admirava suas mãos bem feitas e o gingado. Agora, dividiam sempre a mesma mesa.

Depois do bolero , voltaram para a mesa. Um homem passou vendendo rosas vermelhas. Botões lindos e perfumados. Sem espinhos. Pareciam botões dos shows do Roberto Carlos. Marisa ganhou um botão de rosa vermelha. Sorriu com os lábios de batom vermelho. Estava muito sensual naquela noite. Mauro parecia um adolescente! Depois da dança foram tomar uma fresca na sacada. Ela se recostou na mureta enquanto contemplava a lua cheia. Mauro se aproximou e pegou em sua mão. Marisa gostava do jeito conservador daquele homem. No entanto, estava apreensiva. Ele tinha 62 anos e ela 32 anos. Seria que daria certo? Tinha tanto medo de amar novamente!

Mauro olhou fundo nos olhos dela e afirmou:

- Acho que estou me apaixonando por você, Marisa! - Marisa olhou para ele com ar estranho. A cor sumiu do seu rosto. Empalideceu. Ficou em silêncio por alguns instantes.O viúvo acariciou sua mão com delicadeza e perguntou:

- Ficou surpresa, Marisa?-perguntou receoso. Não queria perde-la.

- Sim, fiquei. - ela respondeu baixando os olhos. - Mauro, está bom assim!- seu olhar ficou triste.Seu pensamento voou para junto das lembranças do passado.

- Está com receio da nossa diferença de idade? - ele perguntou desconcertado. Eu a quero muito!

- Mauro, vamos voltar para mesa? Por favor, não force as coisas.- ela afirmou contrafeita.

Depois daquela noite , Mauro não a viu mais. Voltava aos bailes com frequência, mas na mesa 6 não viu mais aqueles olhos amendoados. Não sentiu mais aquele perfume penetrante. Sua vida tomou o rumo da dor de cotovelo e ele estava gostando daquele sentimento. Era uma dor sentida, mas pelo menos se sentia vivo! Conseguiu o telefone dela e todos os dias ameaçava ligar, mas não tinha coragem.

Marisa morava com seus tios. Trabalhava com secretária num escritório. Começou a recusar todos os convites das amigas para voltar voltar aos bailes. Joana, sua melhor amiga aconselhou:

 - Você está caída por aquele coroa e não quer dar o braço a torcer! Ah, se fosse comigo! Adoro homens mais velhos! Geralmente, são animados e tem uma conta bancária muito boa. - a moça caiu na risada.

-Depois do meu marido não me apaixonei mais por ninguém!Nunca precisei de homem para me sustentar.-afirmou.- Tenho medo de sofrer! - Marisa se referia a um antigo romance com um moço mais novo.

- Ah, você ainda pensa no Beto? Aquele rapaz bobo cheirando a leite?. - perguntou Joana bem humorada. - Ele saía com todas as garotas do bairro. Vai compará-lo com o viúvo charmoso pé de valsa?

- Não tive nada com o Beto! Eu estava começando a me interessar por ele quando descobri que era mulherengo e mentiroso! Homem é tudo igual!- protestou Marisa.- Só quero dançar! Não quero mais amar ninguém!

- Provou o vinho branco; um rapaz inexperiente e imaturo. Agora,é o momento de provar o vinho tinto!- ela sorriu com malícia.- Homens maduros são muito sensuais!- sugeriu Joana dando uma piscada.

- Ah, é? Fique com ele!- afirmou Marisa. A amiga foi embora. Marisa ficou no quarto se lembrando dos olhos azuis daquele senhor educado. Gostava do jeito que ele dançava. Suas conversas eram inteligentes.

Um dia, o telefone da Marisa tocou. Ela atendeu. Era Mauro:

- Ô minha querida flor de formosura de olhos tristes! Por que não voltou mais ao baile? Senti sua falta. Hoje é uma banda muito boa. Estou ligando para convidá-la para dançar. - Marisa aceitou. E o casal brilhou ao som do bolero.

Naquela noite , Mauro experimentou um pouco de vinho. Só um pouco, porque ele voltava de carro para casa. Precisava de coragem. Queria Marisa nos seus braços. Sentir seu calor, o corpo macio. Depois do baile, arriscou:

- Vamos tomar mais um pouco de vinho em meu apartamento? É apartamento de viúvo solitário, mas é muito arrumado. - Marisa olhou para ele com estranheza. Sentia receio , mas o vinho estava fazendo efeito. Ela aceitou o convite.

Quando Marisa entrou no apartamento do viúvo, sentiu um leve calor em suas faces. A sala era muito bem decorada. O sofá confortável combinava com o tapete branco. Um abajur de madeira clara refinava a mesa do canto. Havia também um aparelho de som e uma tela de LCD. Na parede uma tela a óleo representava o entardecer na serra. Marisa ficou observando a pintura. Mauro perguntou:

- Essa tela a óleo foi pintada por minha esposa, Marisa.- afirmou com certa nostalgia.- Ela sempre dizia que a luz do entardecer é linda, mas vai embora logo, porque a noite chega.

Marisa sorriu e observou:

- Você amou muito sua esposa ainda!-comentou.O homem sorriu e serviu mais vinho para sua convidada. Conversaram mais um pouco. Marisa se soltou mais. Riram muito. Pela primeira vez em muitos anos, os dois estavam felizes. Ele a levou para o quarto e se amaram com paixão. Mauro era delicado e carinhoso.Marisa adormeceu nos braços deles depois do amor.

 Amar Marisa foi uma emoção forte, um fogo intenso. Com aroma amadeirado. Com som de bolero.Foi uma experiência maravilhosa para Marisa. Sentir o corpo de um homem que estava no entardecer da vida. Ou seja sentir o amor experiente de um jovem da terceira idade.Suavidade misturada com algo selvagem.

 A paixão selou o amor dos dois. Agora, estavam sempre juntos.

O amor é o calor do vinho tinto. Sangue fervendo nas veias. Dá sentido à vida.

 A vida de Mauro ficou mais leve e feliz. As noites mais longas. Os lençóis da cama de casal sempre aquecidos pelo corpo da Marisa. O bolero agora tinha um significado especial: Marisa.

 Aos poucos, Marisa começou a deixar marcas em seu apartamento. Uma mulher na casa de um homem só fazia toda a diferença. Camisola sexy em cima da cama. Shampoos e cremes no gabinete do toilette. Flores perfumadas na mesa de jantar. As refeições tinham um gosto especial. A mesa da sala de jantar agora sempre tinha dois pratos. O número dois sempre: dois pratos, duas taças de vinhos, dois travesseiros. Dois corpos que desmaiavam nos lençóis macios depois de uma noite de paixão!

Um dia, Marisa acordou muito pálida. Mauro ficou preocupado. Tinha medo do anjo da morte. Foi ele que levara sua companheira e sua felicidade. Ela ficou dias e dias entristecida e enjoada. Mauro a levou a um médico. O médico de família, doutor Maurício. Diagnóstico: Marisa esperava um bebê. O viúvo apaixonado ficou confuso, desorientado. Marisa não compreendeu sua reação. Mauro queria aproveitar a vida com Marisa. E, agora, um filho! Sua experiência com filho tinha sido desastrada demais. Ele não sabia ser pai.

 - Pensei que você tivesse evitando, querida.- ele afirmou um pouco decepcionado. Marisa olhou para ele com tristeza. Duas lágrimas escaparam dos seus olhos negros.

 - Mauro, pensei que você fosse diferente, mas não é! - ela estava chorando convulsivamente. - Eu não programei.Aconteceu!Você não quer nosso filho!

Estava dividido entre a alegria e a decepção. Pai aos sessenta e dois anos! Não! Tinha sido imprevidente. Marisa arrumou suas coisas e decidiu:

- Vou me embora antes que você me peça para tirar essa criança. Vou criá-la sozinha! - Mauro implorou que ela ficasse. Ficou transtornado!

- Marisa, eu não fui bom pai... Me desculpe...Não vá! Eu lhe darei todo apoio! A dor de dividir você com uma criança me parte o coração! Filhos trazem problemas! - ele foi sincero, mas estava arrasado. Um bebê? Um filho? Não, ele não queria começar tudo novamente.

Marisa o olhou com estranheza. Esperava que ele dissesse algo acalentador. Vibrasse com a emoção que ela estava sentindo. Queria se sentir segura. No entanto, Marisa só viu decepção e medo nos olhos do companheiro.

- Não me procure mais!- ela gritou e saiu batendo a porta.

O pai sessentão mergulhou nas suas emoções contraditórias. Amava Marisa, mas não suportava a idéia de ser pai novamente. Não contava com um bebê com cara de joelho. Imerso em fraldas. As mamadeiras se espalhando pela casa. Um ser pequeno, mas chorão o bastante, para perturbar o sono dos pais. A catapora. Caxumba. As corridas para o pronto-socorro. Era apenas isso que sua mente registrava. O nenê crescido falava papai ,mas depois que ficava adulto seria fonte de desgosto e decepção.

 Mauro ficou deprimido por semanas. Sabia que não estava agindo de acordo com seus príncipios , mas não conseguia reagir. Marisa não atendeu mais seus telefonemas insistentes. Ele não queria o filho. Queria apenas o amor de Marisa. A felicidade a dois apenas. O prazer de estar com ela. O seu gingado. A dança nos bailes. As noites de amor. Sua conversa inteligente. Os olhos amendoados como duas azeitonas.

  Não queria o bebê e a convenceria a fazer o melhor pelos dois. Agora não! Ele não tinha mais idade para ter filhos. Ela entenderia. Com essas reflexões baseadas no seu temor e no egoísmo, Mauro bateu à porta da casa da Marisa. Não havia ninguém.Tocou a campainha da casa vizinha. Uma mulher de idade apareceu no portão. Enxugou as mãos no avental surrado e respondeu às suas dúvidas:

 - Marisa? Bem, ela se mudou.- Mauro sentiu um frio na barriga. As pernas cambalearam.

- Como? Mas a senhora sabe o seu novo endereço? - perguntou aflito. A mulher o fitou penalizada.

- Não sei não, senhor.Os tios de Marisa talvez voltem, mas acho que ela não voltará mais.- afirmou. Mauro estava desolado. A mulher contou que eles eram muito fechados e ela não sabia o novo endereço. Mauro voltou para a solidão do seu aparmento. Voltou para a dor do remorso. Ao mesmo tempo, sentiu alívio. Não queria sentir esse alívio, mas sentia.Ele se misturava com a dor de perder Maria. Sentia-se dividido. Como foi tão imprevidente? A relação ficou estável e ele abandonou os preservativos, mas achou que Marisa estava se cuidando. Não atinou que ela era jovem e ainda muito fértil. Esqueceu-se que as mulheres engravidavam!

Os meses se passaram. Seus amigos do clube o procuraram em seu apartamento. Mauro, o viúvo pé de valsa, não apareceu mais nos bailes. Um grande amigo, Francisco, também aposentado, ficou admirado com a tristeza do amigo. Parecia que ele havia ficado viúvo outra vez, mas Mauro não se abriu. Apenas contou que havia rompido o romance com Marisa.

 - Por que, Mauro?- perguntou curioso. Você deve estar sofrendo muito. Emagreceu e está com olheiras. Sua casa está uma bagunça, amigo! Supere o orgulho e a procure! Agora, se foi traição... parta para outra. Ela é bem mais jovem do que você. Ela o traiu, não? Bem, eu parei de namorar mulher mais jovem. Dor de cabeça! - e deu um tapinha nas costas do amigo. - Volte aos bailes! Todos sentem sua falta! Quer voltar ao centro cirúrgico , amigo? Olha o coração!- Mauro deu um sorriso amarelo.

Aceitou a sugestão dos amigos. Voltou a frequentar os bailes e a dançar, mas seus olhos estavam sempre na mesa 6.Procuravam os olhos escuros da Marisa. Seu perfume. O gingado sensual. A voz doce. Mesmo assim, ele não ia aos bailes com frequência. Os olhos azuis do viúvo agora eram tristes e sem brilho. Voltava para casa tarde da noite. Tomava um calmante e dormia.

 Depois de alguns meses, teve um sonho estranho. Entrava numa sala grande branca e iluminada. Sentou-se numa confortável poltrona branca. Uma luz azul invadiu a sala. A luz tomou forma humana e Mauro viu Judite. Estava mais e bonita!Como no tempo em que eles se conheceram naquele entardecer de verão. Judite estava linda! Mauro se ajoelhou aos seus pés envergonhado e saudoso:

 - Judite, por que partiu? Por que me deixou? Agora , estou só e me transformei num calhorda, num frouxo. Nosso filho César se afastou de mim, querida. - Judite se aproximou e colocou as mãos sob sua testa. Ele sentiu uma sensação boa de tranquilidade e paz. Ela não falou,mas ele compreendeu todos seus pensamentos:

- Meu amor, a morte não separa aqueles que se amam! Estou bem e feliz! Amarei você eternamente! Com medo do anoitecer, meu bem, você não observou a despedida do sol. Não apreciou a luz do entardecer! Feche os olhos, meu querido! - Mauro fechou os olhos e percebeu que Judite deslizava pela sala branca. Quando ela retornou e se aproximou dele o homem sentiu um agradável aroma de rosas. Judite pediu que ele abrisse os olhos. Mauro abriu os olhos. A senhora tinha nos braços dois bebês. E lhe falou através do pensamento:

- Meu amor, Vera Lúcia e Angelina, os bebês da paz! Você precisa de paz!- Mauro viu dois bebês lindos envoltos em mantas cor de rosa. Depois, sua imagem se desvaneceu completamente e só ficou a luz azul. Mauro murmurou com voz entrecortada:

- Meu amor, não vá embora! Quero ficar com você!

O viúvo acordou banhado em suor. Abriu os olhos e olhou em volta de sua cama vazia. Sentiu o perfume da sua esposa Judite. Relembrou o sonho estranho. A angústia desapareceu e ele voltou a dormir. Acordou mais animado.Mesmo assim, Marisa não saía do seu pensamento. Estava cheio de remorso, mas ao mesmo tempo, a idéia do filho não lhe agradava. Qual seria o significado daquele sonho? Mauro sentiu que aquele sonho tinha um significado especial.

 O dia dos pais estava próximo. E ele sofria muito nesse período. Vivia da esperança de que César lhe procurasse.

Na madrugada do dia dos pais o telefone tocou. Mauro acordou sobressaltado. Não conhecia o número, mas mesmo assim, atendeu. Era uma voz feminina e parecia muito aflita:

 - É da casa do seu Mauro? - a voz perguntou.

Mauro pensou:

Quem poderia ser àquela hora da madrugada? Quatro da manhã?- Os pássaros começavam a cantalorar na sacada do seu quarto, mas ainda estava escuro.

- Sim,sou eu, Mauro.- ele confirmou com voz sonolenta.

- Seu Mauro, aqui é Joana, amiga da Marisa. -Ele sentiu o coração disparar.

- Meu Deus, Joana, tem notícias de Marisa? Onde ela está morando? Por que ela saiu de São Paulo? - ele perguntou. A mão tremia enquanto segurava no telefone. Uma pausa e Joana prosseguiu:

 - Seu Mauro , ela não sabe que eu estou ligando. Marisa voltou para casa há um mes aproximadamente. Estava na casa de parentes no interior de Minas Gerais. Agora, a bolsa rompeu e ela foi internada. Teve uma gestação difícil. A pressão sanguínea estava sempre muito alta. - Mauro sentiu tonturas e um gosto amargo na boca. Agiu como um verdadeiro cafajeste. Marisa precisou do seu apoio , do seu amor e ele não estava por perto.

- Por favor, ela está bem? Meu filho está bem?- Mauro estava desesperado com a possibilidade de perde-la para sempre.

- Seu Mauro, ela estava grávida de 8 meses. Pegue papel e caneta. Vou lhe dar o endereço do hospital. Por favor, procure Marisa. Sei que vocês dois se amam!- Mauro pegou a caneta e anotou tudo num bloco. A cabeça girava. Seu filho iria nascer. Ou seria uma filha? Vestiu-se rapidamente , pegou as chaves do carro e saiu.

 Não sabe como conseguiu dirigir. Amanhecia... O coração parecia saltar do peito. Tantos meses sem ver Marisa e sem ter notícias dela. Deixou o carro no estacionamento do hospital e entrou. Perguntou sobre Marisa para a secretária que estava atrás de um balcão branco. Ela o cumprimentou e consultou o computador. Perguntou:

- O senhor é o pai de Marisa Gomes?- Mauro sentiu o rosto afogueado. Olhou para os lados e suspirou. As mãos suavam. A jovem ficou olhando para ele com ar amistoso. O pai de segunda viagem pensou:

Pai de Marisa? Só essa que me faltava!pensou desconcertado.- A jovem secretária prosseguiu:

- Marisa Gomes está no apartamento 6. Precisou fazer uma cesariana, senhor.

- Como? Ela não está passando bem? Aconteceu alguma coisa com nosso filho?- a jovem sorriu para tranquilizá-lo.

- Fique tranquilo. Ah, então o senhor é o pai!- a secretária afirmou com um olhar quase divertido.- A maternidade fica no primeiro andar.Quando a cirurgia acabar fale com o obstetra Doutor Conrado.- Mauro perguntou aonde ficava o berçário e a secretária explicou. Ele se encaminhou para o hall de espera da ala das gestantes e parturientes. O lugar mais leve do hospital ; destinado à vida e, não à doença e à morte. Ficou quase uma hora esperando sentado no confortável sofá cor de creme. Haviam revistas em cima de uma mesinha de madeira, mas não conseguiu se concentrar na leitura.

Um casal de idosos chegou e se sentou no sofá. Pareciam aflitos. Logo depois, uma moça também chegou e se sentou ao lado deles. Ela lançou um olhar para o viúvo. Era uma mulher alta, madura, de cabelos escuros e olhos esverdeados. Mauro se lembrou de ter visto aquele rosto algumas vezes no baile dos aposentados na mesa de Marisa. Esforçou-se para lembrar. Era a amiga da Marisa, aquela que a acompanhava sempre nos bailes. Joana murmurou qualquer coisa para a senhora idosa:

- Dona Arlete, fique calma! Tudo ficará bem! tranquilizou Joana- a mulher sorriu enquanto torcia um lenço nervosamente entre as mãos. O esposo de Arlete comentou:

- Ela é tudo que temos, Joana. É como se fosse nossa filha! Depois que sua mãe morreu nós nos responsabilizamos por ela. Marisa já sofreu tanto na vida! Não conheceu o pai, perdeu o marido e, agora, o namorado a abandonou quando soube que estava grávida. - Mauro sentiu o sangue ferver nas veias. Joana olhou para ele disfarçadamente.

Uma hora depois, um médico e uma enfermeira saíram da ala do centro cirúrgico e foram até o hall de espera. O médico era um homem alto e de ar simpático. Olhou para os lados e perguntou ao casal:

- São parentes da Marisa? - o casal de velhos se levantou e se aproximou do médico. Joana também. Mauro continuou sentado. O coração parecia saltar da boca.

- Marisa passa bem!A menina é prematura, mas está bem. Ficará na incubadora por algumas horas. Parabéns!

- Doutor, então é mesmo uma menina? Minha netinha Vera Lúcia está bem? - perguntou o senhor de cabeça grisalha.Ele se sentia pai de Marisa.

Mauro sentiu uma onda de alegria lhe invadir o coração. Era pai de uma menina chamada Vera Lúcia. Nesse instante, se lembrou do sonho com a esposa Judite e os dois bebês. Procurou não transparecer qualquer reação.O cirurgião informou:

- Marisa está na sala de recuperação, mas logo vai para o apartamento. A alta vai depender do estado de saúde do bebê. Creio que em alguns dias, a nenê poderá sair do hospital.O viúvo ficou sentado sem qualquer reação. Sentia um misto de vergonha e alegria!

Os tios da Marisa se abraçaram e foram para o apartamento esperar pela sobrinha. Mauro os viu entrando no amplo corredor que dava acesso aos apartamentos. Continuou sentado no sofá sem saber o que fazer. Joana se aproximou dele e o cumprimentou com um sorriso:

- Que bom que o senhor veio! Parabéns, papai!- ela o cumprimentou efusivamente.

- Marisa deve ter ódio de mim, Joana! Fui um covarde! Agora, sou pai! Não pensei que fosse sentir essa emoção novamente. Por que eu fugi?- ele estava emocionado. Joana segurou nas mãos dele e o confortou. - Quero ver minha filhinha!- ele pediu com voz entrecortada pela emoção.

- Vá até o berçário, papai.- Joana sugeriu antes de ir para o apartamento da amiga. - Vou conversar com Marisa. Ela o ama muito, Mauro! O que importa é que está aqui!

Mauro foi para o berçário. Suas pernas tremiam quando ele viu os bebês através do vidro. Embrulhinhos vivos de rostinho vermelho dormitavam nos bercinhos. Ele se aproximou do vidro e ficou procurando a incubadora. Um rapaz também estava espiando através do vidro. Tinha o ar apalermado dos pais de primeira viagem. Seus olhos brilharam quando a enfermeira mostrou sua filhinha. Ele falou animado:

- Angelina, coisinha rica do papai! Você é linda! Vou trabalhar muito para lhe dar tudo de bom! Sabia que se parece muito comigo? Ah, se sua avó estivesse entre nós!- Mauro reconheceu aquele jeito de falar. Aproximou-se mais para ver o rosto do rapaz. Ele estava de calça jeans e camisa clara. Entretido com um bebê de cabelinho farto e bem escuro.

Mauro procurava sua filhinha entre as incubadoras que ficavam no fundo do berçário mas quando ouviu o nome Angelina se lembrou do sonho com a esposa. Ele que não acreditava na vida pós morte e nem nos sinais da vida estava perplexo!

Compreendeu tudo! Olhou para o rosto do rapaz que admirava a filhinha no berçário! Era César, seu filho. Estava mais sério e compenetrado. O cabelo tinha um corte mais alinhado. Era mesmo seu filho! Mauro foi surpreendido pela enfermeira que abriu a porta do berçário e o chamou:

- Sua filha é aquele bebê que está na segunda incubadora , a do fundo. - Mauro ficou emocionado. Será que Marisa já sabia que ele tinha vindo? Meneou a cabeça reprovando o próprio raciocínio.

César desviou os olhos do bercinho da sua filha e encarou aquele senhor de rosto grudado no vidro. Como se parecia com seu pai! Os dois se entreolharam. Mauro murmurou:

- César, meu filho!- o rapaz ficou em silêncio. Mauro olhou através do vidro e viu sua filhinha Vera Lúcia na incubadora. Era miúda, mas o rostinho cheio e rosado. Tinha os olhos amendoados de Marisa. Apaixonou-se pela nenê! Estava caído de amores pela filhinha e cheio de remorso. Enquanto isso, César o fitava com ar estranho. Ele o fitou com estranheza. Uma sombra passou pelo seu olhar:

- O que está fazendo aqui, pai? - César parecia confuso, quase desorientado. Fazia dois anos que os dois não se falavam. Mauro olhou para ele e sorriu:

- O mesmo que você, filho. Minha filhinha Vera Lúcia nasceu!- César coçou a cabeça e refletiu por alguns instantes. De repente, desatou a rir descontroladamente. Era um riso nervoso, emocionado:

- Véio, você é pai novamente? Mas como?! Não acredito!- César meneou a cabeça com ar surpreso. Mauro ficou sem jeito e estendeu a mão para ele:

- Feliz Dia dos Pais,meu filho!- César ficou olhando aquela mão branca e comprida que ele tão bem conhecia. As emoções desencontradas: no berçário, sua filhinha Angelina e, na sua frente, o velho pai. Sisudo. Bravo. Incompreensivo. Às vezes, irredutível, mas ainda era seu pai. E, com o passar dos anos, percebeu que Mauro tinha razão em muitas coisas. Agora, ele também era pai da Angelina. César também estendeu a mão para ele. Depois, o abraçou com força num misto de emoção e felicidade:

- Pai,senti sua falta! Olhe para sua netinha! Não é linda?- perguntou cheio de orgulho.- Eu me casei com a morena mais linda da cidade!Cometi muitos erros, sofri muito, mas me livrei do vício das drogas.-seus olhos brilharam. Mauro sorriu tristemente. Apesar da felicidade do momento tinha que encarar a realidade. Estava separado da mulher que ele amava. Não acompanhou sua gravidez, seus momentos de dúvida. Foi covarde e, no final, o medo tomou lugar da alegria.

- E você, pai? Casou de novo? Sabe, a Bianca engravidou. Não foi uma gravidez programada, mas na hora que ela me contou me deu um frio na barriga! Falei pra ela que estava pronto para encarar esse desafio de ser pai!- desabafou emocionado. Mauro abaixou os olhos. Estava com muita vergonha do filho. Ele que se achava tão bom e responsável havia falhado gravemente.

- Filho, é uma história muito longa,mas hei de lhe contar um dia.- explicou . Mauro não teve coragem de ver Marisa. Foi para o apartamento onde estava a nora Bianca. Era uma moça simpática e muito bonita. Sua neta nascera de parto normal.

Depois de uma semana, Mauro ficou sabendo que Marisa tinha tido alta e sua filhinha também. Criou coragem e foi até à casa dos tios dela. O casal o recebeu com certa frieza. Marisa estava sentada na poltrona da sala amamentando sua filhinha. Certamente, Joana já havia contado que ele estivera no hospital. A moça olhou para ele com ar triste enquanto acariciava os cabelinhos finos da sua filhinha:

- O que você quer, Mauro? O que veio fazer aqui? - ela perguntou magoada. Estava saudosa, o coração disparou mas a mágoa falou mais alto.Lembrou-se do longo período de gravidez em que passou se sentindo solitária e abandonada.

- Eu a procurei , Marisa.- ele desabafou enquanto olhava para sua filhinha. A voz estava embargada.- Por que foi embora e me deixou? - perguntou desolado.

- Certamente, me procurou para me convencer a tirar Vera Lúcia.- Marisa ficou aflita esperando por sua resposta negativa. Mauro abaixou a cabeça envergonhado.Mas você custearia todas as despesas do aborto.- ela prosseguiu. E, assim, ficaríamos livres para viver nossa vida de bailes, festas e paixão.- os olhos da moça ficaram marejados de lágrimas. Viu como a minha filha é linda?- Mauro ficou quieto por uns instantes. O remorso o corroía por dentro:

- Perdoe-me , Marisa. Sei que fui covarde, mas quero lhe recompensar por tudo o que a fiz passar. Fiquei encantado com Vera Lúcia!- lançou um olhar para a nenê que sugava o seio farto da mãe.- Você não me compreendeu! Naquele momento a idéia de ser pai me apavorava! Você sabia tudo que eu passei com meu filho César,mas o destino me felicitou com uma surpresa naquela maternidade. César também estava no hospital. Eu não sabia que ele também seria pai! Sou avô de uma linda menina! Ela não prestou atenção. Marisa ofereceu o outro seio para o bebê enquanto Mauro não parava de admirar aquela cena. Depois da amamentação pediu para segurá-la no colo. Marisa aquiesceu. Depois, a levou para o quarto do nenê. Mauro a acompanhou. Era um quarto lindo todo rosa.

- Poderá visitar sua filha quando quiser. Por um instante , Mauro percebeu no olhar do seu grande amor um relance breve de amor e perdão. Mas passou. Seu olhar ficou duro e frio.

- Quero recomeçar a vida com você. Eu te amo! Case-se comigo, Marisa! Vamos criar Vera Lúcia!- seus olhos brilhavam de paixão. - Lembra-se da tela a óleo do entardecer na serra? Não vamos perder esse momento mágico! Eu não tenho muito tempo, Marisa.- afirmou categórico.Marisa sentiu um arrepio a lhe percorrer a espinha. Como se fosse um presságio.

- Mauro,infelizmente,já anoiteceu para nós!- afirmou com ar triste e magoado. Agora é muito tarde para nós dois! O que nós vivemos foi uma tarde alaranjada e maravilhosa que nunca mais aparecerá na serra. - ela afirmou com amargura e lágrimas brotaram dos seus olhos.

Mauro se resignou. Registrou a filhinha e lhe deu toda assistencia. Ele a visitava toda semana, mas acalentava a esperança de reconquistar seu amor. No entanto, Marisa nunca estava em casa quando ele aparecia para visitar a filhinha. Pegava o bebê no colo, conversava com ela enquanto a nenê o mirava com os olhinhos vivos e curiosos. Ela sorria e o pai de segunda viagem se desmanchava. Bobo. Coruja.

César, seu filho, foi sua alegria nesse momento difícil. Passava tardes inteiras na casa do filho. Ria das travessuras da sua neta Angelina que já estava com um ano. César estava mudado. Ainda gostava muito de tocar guitarra, mas agora tinha um emprego fixo. A vida de Mauro era a filhinha, a neta e seu filho César. Marisa não demonstrou interesse em conhecer sua netinha. Seu filho César tinha curiosidade em conhecer a irmãzinha. Ele tranquilizava o pai:

- Tenha paciência com Marisa, pai! As mulheres são assim mesmo! Não se martirize mais!- Através do sofrimento, Mauro começou a conhecer o verdadeiro caráter do filho. César havia amadurecido e era um homem feliz e realizado.

Um dia, sua nora Bianca comentou:

- César me contou que o senhor adorava dançar!- Mauro sorriu timidamente. Lembrou-se da mesa 6, dos olhos amendoados de Marisa, o seu gingado, o ritmo do bolero. Seu olhar ficou distante e triste. - Por que não volta a dançar, seu Mauro? - sugeriu Bianca preocupada com o abatimento do sogro. - Pare de se torturar, seu Mauro! O senhor é uma pessoa maravilhosa! Se a Marisa não reconhece isso e não o perdoou fazer o quê! Todos nós erramos! Mas a vida segue trazendo novas oportunidades de acerto!-Bianca tentou consolar o seu sogro. Aprendera a amá-lo e respeitá-lo.

Mauro sorriu com tristeza. Nada tinha mais sentido. Só valia a pena o remorso, mas essa culpa o atormentava a cada dia. Depois da conversa com sua nora, Mauro se cansou de tanta tristeza. Precisava viver! Se Marisa não o perdoava o problema era dela agora. Toda semana visitava Vera Lúcia que o chamava de papá. Precisava pensar em si mesmo um pouco. Resgatar o encanto da vida! Pensar que outro entardecer maravilhoso viria! E que a luz de cada entardecer era sempre linda!

Era noite de lua cheia! Mauro caprichou no blazer e nos sapatos de couro macio. Penteou a cabeleleira grisalha, e deu uma piscada para a foto da Judite no porta-retrato:

- É, Judite, preciso dançar um pouco, mas continuo lhe amando muito! Angelina e Vera Lúcia são dois presentes divinos. Ah, Judite, como foi bom resgatar o afeto do nosso filho!Querida, se eu acreditasse na vida eterna...deixa para lá seus olhos ficaram marejados.

Saiu rapidamente e ganhou a rua. Sentiu o perfume de dama da noite no ar.


Quando entrou no clube seu coração pulou alegremente no peito. Tocava bolero. O salão estava cheio. Procurou a mesa onde estavam seus amigos e eles o cumprimentaram efusivamente. Mauro se sentiu renovado. Tomou um pouco de vinho para esquentar o sangue e começou a dançar. No entanto, seu olhar procurou a mesa 6.Saudade dos tempos felizes com Marisa. Depois de meia hora, voltou para a mesa. Proseou animadamente com seus amigos. Só falava na filhinha. Seu amigo José, um setentão animado, perguntou:

- Como é ser pai aos sessenta e tres anos?

- Maravilhoso!- respondeu, mas seus olhos ficaram tristes. Queria conviver diariamente com Vera Lúcia, acompanhar seus progressos e até trocar suas fraldas. Mas a vida tinha lhe negado essa alegria.Marisa estava irredutível!

Mauro voltou a dançar, mas na última dança um mal estar repentino o acometeu. De repente, sentiu como se um punhal lhe atravessasse o coração. A vista ficou escura e ele cambaleou. Os amigos o socorreram e a ambulância o levou ao hospital, mas não conseguiram mais ressuscitar seu coração. Ele parou de bater ao som do bolero!

César visitava sempre o túmulo dos seus pais. Uma tarde, foi com a esposa levar flores para a mãe. Quando se aproximou da ala onde estava o túmulo do pai avistou alguém chorando muito ao lado do túmulo. Viu um rosto feminino. César se aproximou educadamente e perguntou:

- Conhecia meus pais?

A moça olhou para César com ar surpreso. Seus olhos estavam vermelhos e inchados de tanto chorar:

- Eu amei seu pai. Sou mãe da Vera Lúcia, sua irmãzinha. - César não a conhecia ainda. Agora , ela deveria estar com tres anos. Angelina e Vera Lúcia tinham a mesma idade. Mauro olhou para aquela mulher de olhos amendoados, a grande paixão do seu pai.

- Eu amei muito seu pai, César!- desabafou emocionada. Fui orgulhosa, e ,agora me arrependo! Mas a vida é assim... Agora, é tarde! Ainda o amo muito! Ele sempre falava muito de você. Quero que vá à minha casa com sua esposa conhecer sua irmãzinha. Desculpe... Eu sei que já devia ter tomado essa iniciativa, mas...- César a olhou com ar compreensivo.Bianca ajeitou as flores no vaso e abraçou Marisa.

- Nós iremos sim, Marisa. - falou Bianca.

Os tres se afastaram do túmulo enquanto a tarde caía mostrando tons rosa e laranja. A noite estava próxima...

Dois seres espirituais ouviam com atenção a conversa de César com Marisa. Eram Judite e Mauro, agora unidos em outra dimensão espiritual.Mauro fitou Marisa com muito carinho e saudade. Não conseguia compreender muitas coisas ainda. O afeto que sentia por Marisa era diferente do amor que sempre sentiu por Judite. Estava feliz, mas ainda sentia remorso pelo seu comportamento covarde. Sabia que Marisa encontraria um bom homem e essa pessoa seria muito importante na vida da sua filhinha. Mas ainda lamentava o passado.Judite percebeu sua tristeza e tocou de leve em seu ombro:

- Mauro, não se preocupe com Marisa. Ela ficará bem e já lhe perdoou! Tudo ficará bem! A tarde está linda! Vai anoitecer, mas, amanhã, teremos o sol de volta!- ela afirmou com um sorriso esperançoso.

- Reconquistar o afeto do nosso César foi um presente divino, querida - comentou Mauro. - Judite querida, você nunca teve ciúmes de Marisa? E se eu tivesse me casado com ela, querida? - perguntou curioso.

- Querido, nosso amor é eterno! Vamos partir? - ela convidou animadamente. Mauro sorriu e as duas almas volitaram em busca da felicidade!

Angelina e Vera Lúcia, os bebês da paz, tinham ainda um lindo destino para cumprir!

FIM



Sandra Cecília

 

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