Entrevistas - 09/09/2009
Entrevista com Dr.Freud- parte III




Depois de um rápido intervalo onde o Dr. Freud descansou um pouco na varanda da sala retomamos a entrevista. Seu olhar profundo,a inteligencia viva, brilhante me impressionou profundamente. Ele voltou para à sala e se sentou no sofá. Eu me recompus e abri o notebook.Tentei ficar no controle das minhas emoções:

R.M: - Dr. Freud, fale um pouco sobre Charcot. - pedi olhando para ele. O que lamentava profundamente era a impossibilidade de gravar ou filmar a entrevista. Freud foi irredutível !Algo no olhar de Freud era impenetrável. Afinal, tentar analisar Dr. Sigmund Freud era muita pretensão!

- Freud: - Você deve saber como nós nos conhecemos. Está nos livros- afirmou num tom de voz um pouco amargo. Será que ele duvidava de minha formação acadêmica? E do meu verdadeiro interesse pela psicanálise? Ou será que penetrara no meu pensamento? Certamente descobriu minha paixão pela obra de Jung.

"Não! Eu estava começando a delirar."- pensei. Freud prosseguiu:

- O que mais me impressionou enquanto privei com Charcot foram suas investigações acerca da histeria, algumas delas levadas a efeito sob meus próprios olhos. Ele provara, por exemplo, Sandra, a autenticidade das manifestações histéricas e de sua obediência a leis, a ocorrência frequente de histeria em homens, a produção de paralisias e contraturas histéricas por sugestão hipnótica e o fato de que tais produtos artificiais revelavam, até em seus menores detalhes, as mesmas características que os acessos espontâneos , que eram muitas vezes provocados traumaticamente.

R.M: - Histeria em homens? - perguntei com certa ironia. Freud sorriu.,

Freud: - Por que não? Muitas das demonstrações de Charcot começaram por provocar em mim e em outros visitantes um sentimento de assombro e uma inclinação para o ceticismo, que tentávamos justificar recorrendo a uma das teorias do dia. Ele se mostrava sempre amistoso e paciente ao lidar com tais dúvidas, mas era muito resoluto.

R.M: - O que aconteceu depois? - perguntei curiosa erguendo os olhos do computador.

Freud: - Antes de retornar a Viena, passei algumas semanas em Berlim , a fim de adquirir um pouco de conhecimento sobre os distúrbios gerais da infância. No outono de 1886, fixei-me em Viena como médico e casei-me com a moça que ficara à minha espera numa distante cidade há mais de quatro anos. Durante o período de 1886 a 1891, realizei poucos trabalhos científicos e não publiquei quase nada.

Freud casou-se com Martha Bernays em 1886.

R.M: - Quando o senhor se convenceu da autenticidade dos fenomenos da hipnose? - perguntei. Gostava dessa parte da bibliografia de Freud. Será que ele sabia que atualmente, a hipnose está sendo usada também para acesso a vidas passadas?

Freud: - Enquanto ainda estudante, assistira a uma exibição pública apresentada por Hansen , o magnetista, e notara que um dos pacientes com quem se fizeram a experiência se tornara mortalmente pálido no início da rigidez cataléptica, e assim havia permanecido enquanto aquela condição havia durado. Isso me convenceu firmemente da autenticidade dos fenomenos da hipnose.

R.M: - A hipnose era aceita entre os psiquiatras daquela época, Dr. Freud? - indaguei demonstrando interesse.

Freud: - Não. Na opinião dos psiquiatras, o hipnotismo não era somente fraudulento, mas também perigoso, e consideravam os hipnotizadores com desprezo. Refleti sobre o quanto a hipnose ainda era utilizada na psicologia e também em tratamentos para largar o vício de fumar e beber. E também a auto-hipnose muito positiva para relaxar e conduzir ao sono tranquilo.

Freud olhou para mim e sorriu. Sim, era quase certo que ele estava lendo meus pensamentos:

Freud: - Interessante o que você pensou. E já estou ciente do papel que tem a hipnose dentro do contexto atual.- afirmou. Eu fiquei levemente corada e não consegui disfarçar.

R.M: - Nos seus primeiros anos de atividade como médico, qual era seu instrumento de trabalho?

Freud: - Afora os métodos psicoterápicos aleatórios e não sistemáticos, foi a sugestão hipnótica.

R.M: - Quais eram as limitações para um tratamento com sugestão hipnótica?

Freud: - No começo, haviam dois pontos possíveis de queixa em primeiro lugar, que eu não era capaz de hipnotizar todos os pacientes, e em segundo, fui incapaz de por os pacientes individuais num estado tão profundo de hipnose como teria desejado. Com a idéia de aperfeiçoar minha técnica hipnótica, empreendi uma viagem a Nancy , no verão de 1899, e ali passei várias semanas.

 R.M: - O senhor comentou que entre 1886 e 1891, não publicou quase nada. Por que?

 Freud: - Estava ocupado em estabelecer-me em minha nova profissão e em assegurar minha própria assistencia material , bem como a de uma família que aumentava rapidamente.- explicou com bom humor. Freud teve seis filhos.

 R.M: - Como o senhor utilizava a sugestão hipnótica com os pacientes?- Como eu estudei o assunto durante os tempos de faculdade! E geralmente, dentro de ônibus porque não havia tempo suficiente para estudar em casa. Era esposa, mãe , dona de casa. Não foi fácil terminar a faculdade, mas consegui. Dei uma desligada e, quando voltei a mim, Dr. Freud já estava falando:

 Freud: - Empregava-a para fazer perguntas ao paciente sobre a origem dos seus sintomas, que em seu estado de vigília ele podia descrever só muito imperfeitamente, ou de modo algum.

R.M: - Nessa época, o senhor conheceu Dr. Breuer. Gostaria de falar sobre isso? - indaguei.

Freud: - Naturalmente. Enquanto eu ainda trabalhava no laboratório de Brucke, eu travava conhecimento com Dr. Josef Breuer que era um dos médicos mais respeitados de Viena, que também possuía um passado científico, visto que produzir vários trabalhos de valor permanente sobre a fisiologia da respiração e sobre o órgão de equilíbrio. Era um homem de notável inteligencia e quatorze anos mais velho que eu. Nossas relações se tornaram mais estreitas e ele se tornou meu amigo, ajudando-me em minhas difíceis circunstancias. Adquirimos o hábito de partilhar todos os nossos interesses científicos. Nesta relação, só eu naturalmente tive a ganhar. O desenvolvimento da psicanálise , depois veio a custar-me sua amizade. Não me foi fácil pagar tal preço , mas não pude fugir a isso.- ele abaixou os olhos.

Falar de Breuer parecia penoso. Afinal, fora uma amizade especial, tanto do ponto de vista científico como do afetivo.

R.M: - Gostaria que o senhor explicasse a dinâmica da histeria:

Freud: - Os sintomas dos pacientes histéricos se baseiam em cenas do seu passado que lhe causaram grande impressão mas foram esquecidos (traumas); a terapeutica, nisto apoiada, consistia em fazê-los lembrar e reproduzir essas experiencias no estado de hipnose.Dr. Breuer se encarrega de uma paciente histérica que entrará para os anais da psicanálise com o nome de Ana O. Ao ser provocado o sonambulismo hipnótico como tranquilizante, a paciente começa a narrar, durante a hipnose, uma série de fatos passados, profundamente dolorosos. Estes fatos não faziam parte do conhecimento consciente da paciente. Quando ao despertar, a paciente pode reconstituir esta etapa do seu passado com o auxílio de Breuer, os sintomas histéricos desapareceram. O trabalho de Breuer no tratamento de Ana O. passa a ser o primeiro caso clínico, a ser tratado dentro do modelo que daria origem à psicanálise. O excelente nível intelectual da paciente é também um dado importante que auxilia Breuer a se organizar em seu tratamento. Este método de eliminar os sintomas com a retomada de recordações traumáticas passadas, que se torna conhecido como Método Catártico, é pela primeira vez definido e reconhecido pelo próprio paciente, que o define como " a cura pela fala." Ernest Jones chega a definir Ana O. , por esta observação, como sendo a pessoa que primeiro definiu a técnica analítica.

Eu não ouvia Dr. Freud mas bebia suas palavras. Enquanto me concentrava nas suas respostas o tempo da faculdade voltou à minha mente. Cada dia de aula era uma descoberta! Lembro-me que no tempo de estudante eu adorava usar o termo catarse. Achava "xique no úrtimo!" Fiquei mais reflexiva e vivia me analisando. Estudar Psicologia é um caminho de autoaprimoramento.

As mãos começaram a tremer novamente. Freud estava olhando para mim com simpatia. Pensei: "Será que está lendo meus pensamentos novamente?" Nos tempos de faculdade eu lia Freud, pensava Freud. Tudo era a magia da psicanálise até conhecer Carl Gustav Jung. Depois dessa lembrança senti que meu rosto ficou corado.


R.M:- Desculpe, Dr. Freud, eu me distraí. Estava um pouco nervosa.- desculpei-me um pouco sem jeito. Ele sorriu amistoso. - Aonde estávamos mesmo? - perguntei.

Freud: - No Método Catártico. - respondeu.

R.M: - Quais foram os resultados práticos do processo catártico?- perguntei enquanto tentava me recompor.

Freud: - Foram excelentes. Seus defeitos, que se tornaram evidentes depois, eram os de todas as formas de tratamento hipnótico.

R.M: - Em 1896, o senhor usou pela primeira vez o termo psicanálise para descrever seus métodos. Como foi esta transição da catarse para a psicanálise propriamente dita?

Freud: - O evento que constituiu a abertura desse período foi o afastamento de Breuer de nosso trabalho comum, de modo que tornei único administrador do seu legado. Tinham-se verificado divergencias de opiniões entre nós numa fase bem inicial , mas não havia constituído base pra nosso afastamento. Seu trabalho como clínico e médico de família tomava grande parte do seu tempo e, ele não podia, como eu , devotar todas as suas forças ao trabalho da catarse. Mas o que contribuiu principalmente para sua decisão foi que meu trabalho ulterior conduzia a uma direção com a qual ele achava impossível reconciliar-se.

R.M: - O senhor abandonou a hipnose por completo?- perguntei ansiosa. - E me lembrei de um programa de televisão aonde havia assistido duas mulheres serem curadas de problemas fóbicos através da hipnose de um psiquiatra. Uma delas tinha medo de voar e após a vivência com o psiquiatra( que não foi mostrada no programa) foi até o aeroporto e voou normalmente. A hipnose ainda tinha muita força nos processos de cura ligados a comportamentos fóbicos, vícios e traumas.

Freud: - Minhas expectativas foram correspondidas; livrei-me do hipnotismo. Mas, justamente com a mudança de técnica, o trabalho de catarse assumiu novo aspecto. A hipnose interceptara da visão uma ação recíproca de forças que surjam agora à vista e cuja compreensão proporcionava um fundamento sólido à minha teoria.

A auto-análise de Freud começou em 1897. Em 1900, ele publicou a Interpretação dos Sonhos, considerado por muitos como seu mais importante trabalho, apesar de na época não ter recebido quase nenhuma atenção. Seguiu-se , no ano seguinte, outro livro importante,Psicopatologia da Vida Cotidiana. Gradualmente, formou-se à volta de Freud um círculo de médicos interessados incluindo Alfred Adler, Sander Ferenczi, Carl Jung, Otto Rank. Karl Abraham e Ernest Jones. O grupo fundou uma sociedade . Documentos foram escritos , uma revista foi publicada e o movimento psicanalítico começou a expandir-se.

Em 1910, Freud foi convidado para ir à América pronunciar conferencias na Universidade de Clark. Seus trabalhos estavam sendo traduzidos para o ingles. As pessoas foram se interessando pelas teorias do Dr. Sigmund Freud.
Tentou controlar o movimento psicanalítico, expulsando os membros que discordavam de suas opiniões e exigindo um grau incomum de lealdade à sua própria posição. Jung, Adler e Rank , entre outros, abandonaram o grupo após repetidas divergencias com Freud a respeito de problemas teóricos. Mais tarde, cada um criou sua própria escola de pensamento.

Freud escreveu extensivamente. Suas obras completas compõe-se de 24 volumes e incluem ensaios relativos aos aspectos delicados da prática clínica, uma série de conferencias que delineiam toda a teoria e monografias especializadas sobre questões religiosas e culturais.

Pensando em toda a trajetória de vida do Dr. Freud perguntei:


R.M: - Teve uma época em que seu trabalho de modo geral estava mais acessível. Foi uma fase de bastante popularidade. Foi uma fase boa?- perguntei.

Freud: - As críticas aumentaram, mas foi um período produtivo. - respondeu com firmeza.- Quando subi ao estrado em Worcest para pronunciar minhas "Cinco lições da Psicanálise(1910), isto pareceu a concretização de um incrível devaneio.- a psicanálise não era mais um produto do delírio,tornara-se uma parte valiosa da realidade.- seus olhos adquiriram um brilho diferente.

Os últimos anos de Freud foram difíceis. De 1923 em diante, ele estava mal de saúde, sofrendo de câncer de boca e mandíbula. Tinha dores contínuas e sofreu trinta e tres operações para deter a doença que se expandia. Seu último livro foi: Esboço da Psicanálise.

O advento do nazismo e as crescentes perseguições aos judeus atingiram Freud. Freud se muda para Londres e no dia 24 de setembro de 1939 vem a falecer. Seu corpo foi incinerado no crematório de Golders Green. Trabalhava a esse tempo, em colaboração com sua filha Anna, na redação de uma obra dedicada à análise da personalidade de Hitler.

Senti que a entrevista estava acabando mas havia tanto a perguntar. Freud não aparentava cansaço, mas algo me dizia que estava na hora de encerrar aquela conversa histórica. Arrisquei mais uma pergunta:


R.M: - Dr. Freud, queria lhe agradecer pela oportunidade dessa entrevista. Sempre o admirei!A Psicanálise foi uma das minhas primeiras opções de linha de atuação na época da formatura. Lembro-me que, no final do curso, era necessário que o estudante optasse por uma linha. Eu fiquei entre Psicanálise e Existencialismo. Eu queria atuar nos dois durante o período de estágio e supervisão, mas não foi possível. Fiquei com o existencialismo.- eu estava tropeçando nas palavras como se quisesse me desculpar com Dr.Freud minhas dúvidas do tempo acadêmico.- Depois de formada atuei na Gestalt e gostava demais da Psicologia Comportamental e Cognitiva. Fiquei apaixonada pela interpretação dos sonhos de Jung!- nesse momento me arrependi do que falei mas já era tarde.

Freud apenas sorria me ouvindo com atenção e respeito. Não havia em seu olhar qualquer expressão de crítica ou enfado.

Freud: - Fique à vontade, Sandra! É através dos caminhos da dúvida que experenciamos todas as realidades. Experimentando, testando, perseverando. Pensei que fosse perguntar sobre minha longa doença. Não queria recordar esse período , mas foi de grande valia agora para mim.- ele afirmou com ar distante. - São lições que precisava aprender. - Eu sorri para ele.

R.M: - Essa entrevista foi muito importante para mim, Dr. Freud!

Meu primeiro contato com Freud foi no ano de 1990 quando elaborei o estudo sobre Freud a pedido da professora de Psicanálise.

R.M: - A Psicanálise foi um grande marco nos meus estudos! O senhor se considera um cientista?- arrisquei. Ele olhou para mim com ar sério e grave. Fez uma pequena pausa e respondeu:

Freud: - Só sei que abri o caminho para muitos conhecimentos, Sandra. - ficou pensativo, quase triste. - Por um processo de desenvolvimento contra o qual teria sido inútil lutar, o próprio termo psicanálise tornou-se ambíguo. Embora fosse originalmente o nome de um método, digo método terapeuta específico, agora também se tornou ciencia- a ciencia dos processos mentais inconscientes.

R.M: - Se pudesse recomeçar seguiria o mesmo caminho? - perguntei.

Freud: - Claro que sim, mas continuaria repensando , analisando todas as idéias.( Freud sempre revisava e repensava suas idéias anteriores)

R.M: - Qual a mensagem que o senhor deixa para os internautas de Relax Mental, principalmente aqueles que desejam seguir o caminho da Psicologia,o conhecimento da mente humana?- olhei para ele com profunda admiração.

Freud: - Estudar, estudar e estudar. Sonhar, sonhar e sonhar! A mente humana é um fascínio que deve ser compreendido, estudado , não sem antes um profundo respeito por tudo que pode parecer diferente ou estranho. Estar à frente do seu tempo sem desprezar a ciencia pode ser o caminho.

Freud consultou seu relógio de bolso, sorriu para mim e se aproximou. Eu me despedi dele com um aperto de mão. Seu aperto de mão era cordial e sincero. Senti a energia daquela alma, mas só consegui extrair dela o que ela permitiu! Caminhou até à porta e a fechou atrás de si.

Relax Mental é assim! Sem fronteiras de tempo, espaço ou religião, mas com uma base firme e concreta no contexto atual da vida!

O início do contato com Freud foi no dia 18 de setembro de 1990- dois anos antes da minha formatura. Minha professora de Psicanálise considerou o trabalho muito criativo. Animada ela falou para a classe toda:

"Nossa! Ela entrevistou o homem!"

Coincidencia ou não essa data tem quatro números noves! Um dos noves surgiu da soma 1+8= 9.






 



Sandra Cecília

 

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