Entrevistas - 31/01/2010
Entrevista Imaginativa com o Senhor Omulu






Escrever sobre Omulu é uma grande responsabilidade. Há que se desmistificar o medo que as pessoas têm desse Orixá ligado à morte, às doenças e à cura. Meu desejo e intenção era isolar-me, concentrando em algo único e criativo. E, dessa vivência, podemos melhor entender os objetivos desta entidade importante da mitologia umbandista.

De súbido, ocorreu-me um forte arrepio. Em minha visão espiritual vi algo grandioso. A vibração era forte, mas não era ruim. Como se fosse uma grande energia, difícil de se explicar. Ah... agora, um grande momento! Estava preparada para sentir algo muito especial: a presença energética desse orixá. Com muito respeito, pensei: “- Atotô, senhor Omulu!”Era minha saudação para Omulu. A energia de um Orixá é tão forte que se ele aparecer assim de repente, poderá até nos deixar em choque. É preciso estarmos preparados. Esses Senhores da Luz podem baixar sua alta vibração por uma causa nobre. Para o Bem tudo é possível!

Em poucos instantes surgiu diante de mim uma entidade espiritual toda vestida de palha. O rosto oculto por um capuz, feito de palhas da costa. Uma espécie de capuz trançado. Tinha uma saia de palha da costa que ia até os seus pés. Nada havia em seus pés. Em sua mão direita, um cetro feito de nervuras da palha do dendezeiro, enfeitado com búzios e contas.

- Atotô, senhor Omulu! Podemos conversar um pouco? Gostaria que falasse um pouco sobre sua origem e suas lendas mágicas ( nossa conversa foi diferente, uma transmissão de pensamento).

Não ouvi sua voz. A resposta era telepática:

- Você já deve ter lido sobre as lendas que falam da minha origem. Quando nasceu o primeiro orixá gerado na Terra por Nanã e Oxalá, recebi o nome de Obaluaiê. “Obaluaiê quer dizer Dono da Terra”. Cresci distante dos outros orixás e fui criado por minha avó Odudua, sem saber que havia outras entidades da minha espécie. Quando percebi a existência de outros, mudei meu nome para Omuluaiê (Filho da Terra) ou Omulu.

Prosseguindo nesta conexão mental, pensei:

Dizem que Obaluaiê delimita uma fase muito prepotente de outra a de Omulu, mais humilde. No entanto, por que quando se imagina Omulu, há sempre a correspondência com os cemitérios?

Ele me respondeu de modo pausado e tranqüilo:

- Nós tratamos de tarefas ligadas a energias de transformação. Quando a morte vem, há a transmutação de energias. No entanto, não nos compete a tarefa de comandar cemitérios e, muito menos, assombrar as pessoas. Os cemitérios são locais de grande transmutação energética e existem entidades com a responsabilidade de amparar os espíritos desencarnados que ainda continuam nesses lugares. Muitos não tem ainda consciência de que já faleceram. Outros ficam apegados aos seus despojos carnais.

- É verdade que o Senhor é o Orixá das doenças e tem o corpo coberto de feridas? mentalizei.

- Sou o senhor da doença, não no sentido de provocá-la, mas associado com a cura. São muitas as lendas. Sou muito cultuado também na África. E lá, sou conhecido por Xapanã, Kakanjá e Kaviungo”. No ritual angolano, sou rei do Mundo e Filho do Senhor. Segundo a lenda, levei meus guerreiros aos quatro cantos da Terra. As feridas das minhas flechas tornavam as pessoas cegas, surdas ou mancas. Um babalaô ensinou ao povo a forma de acalmar minha fúria. Ensinou a fazer oferenda de pipocas. Gostei das oferendas e mandei construir um palácio passando a viver naquele país, o qual prosperou bastante.

Eu continuei:

- É verdade que durante o dia vem trazendo a cura e à noite, traz a morte, levando as pessoas?

- Você sabe o que é um Orixá? – perguntou.

-Senhor da Luz! - respondi. Lembrei-me da definição de Orixá no livro “Umbanda, o Elo perdido”- Francisco Rivas Neto. “Orixá é um Espírito sumamente poderoso, Senhor dos Elementos de forças e muito distantes dos sentimentos e atitudes humanas.”

- Não trago a Morte, mas a Luz! A Morte não existe!
- Há algum santo que tenha ligação com o Senhor através do Sincretismo religioso?

– Sim. Obaluaiê é associado a São Lázaro e São Roque. São Lázaro é o santo dos médicos. Omulu está associado com Santo Isidoro. São Lázaro é também o protetor dos animais. Os filhos de Obaluaiê podem ter o dom da cura?

O que significa o nome Obaluaiê e Omulu? indaguei.

– Oba - ilu. Aiye; rei, dono, senhor da vida. Omulu- Omo-ilu; rei, dono.

Quais as cores representadas pelo senhor?

- Branco rajado de preto está associado a Obaluaiê. Vermelho rajado de preto associado a Omulu.

- O dia? E os metais?

- Segunda-feira. Metais: platina, aço e bronze.

- Suas ervas.

- Erva de passarinho e canela de velho, entre outras.

Continuo com a forte impressão que o senhor toma conta dos cemitérios. – concluí um pouco receosa.

- Não é bem assim. No Universo, tudo responde às hierarquias. Minha tarefa é associada com a cura das doenças e a transformação de energias que se segue depois da morte. Minha associação com as feridas e a varíola não quer dizer que eu seja uma entidade que leva o Mal e as doenças. Estamos acima do Bem e do Mal. Trabalhamos para Oxalá, que é a Justiça, Misericórdia e o Amor infinito!

- Quais as religiões que estão ligadas ao senhor?

- Umbanda e Candomblé, principalmente.

- Assisti uma série de TV em que o senhor aparece para uma mulher e cura uma criança muito doente. Era uma cena do seriado Tereza Batista Cansada de Guerra que passou na televisão faz muito tempo. Foi uma cena muito bonita que me deixou sensibilizada. Isso pode acontecer? Quem está doente pode lhe pedir a cura?

- Tudo é uma questão da lei do merecimento. A fé verdadeira mobiliza energias de cura e bem estar. No entanto, a doença começa no espírito e é o resultado de nossas mazelas e imperfeições.

- Li uma lenda em que sua mãe o achou muito feio quando nasceu. É verdade que se oculta sob a palha para esconder o rosto cheio de feridas?Qual é o seu símbolo?- eu estava muito nervosa.(Não houve resposta). Após uma pausa ele me disse telepaticamente:

- Meu símbolo é o Xaxará. Está vendo?

Vi que ele segurava uma espécie de cetro na mão.

- Tenho uma espécie de cetro, com sementes dentro. É com o Xaxará que espalho meu axé. É com esse símbolo que tiro a energia negativa das casas das pessoas.

- Algumas pessoas não acreditam em orixás e muito menos nos cultos afro-brasileiros. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

- Cada um tem o direito de acreditar no que lhe aprouver. É o livre arbítrio! No entanto, enquanto houver preconceito entre as pessoas, estaremos muito distantes do objetivo das religiões. O objetivo das religiões é religar as pessoas e não separá-las. Procure estudar mais sobre o assunto. A informação nos livra do véu da ignorância e do preconceito.

- Como é a personalidade de quem é filho de Omulu?Gostaria que o senhor finalizasse com uma mensagem para aquelas pessoas que perderam entes queridos.

- Nesse dia considerado de Dia dos Mortos, fiquem em prece e relembrem dos entes queridos com saudade, mas sem desespero. Uma oração ajuda muito aquele que já partiu. Um dia, reencontraremos aqueles que nos foram caros, porque a Morte é apenas uma passagem!

De repente, senti um forte arrepio e aquele Orixá misterioso desapareceu. Mesmo assim, continuei ouvindo um chocalho ecoando pelo ar.

Respeitosamente, fiz uma reverencia:

- Atotô, Senhor Omulu! Continue ajudando a todos aqueles que precisam da cura da alma e do corpo!

Magnolia Francisca


Sandra Cecília

 

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