Relaxamento - 27/03/2011
O perfume mágico


Leia o conto, ouça a música e sonhe!

No trânsito caótico ele procurava harmonia naquela mistura de sons e buzinas. O ar sufocante e o som do carro estavam ruins. Fazia muito calor e o carro não tinha ar condicionado. Os carros pararam em fila. João deu um longo suspiro. Descansou as mãos sobre o volante. Pegou no bolso da camisa um lenço e enxugou o suor do rosto. Consultou o relógio. Viu quando uma moto o ultrapassou pela direita como um foguete tresloucado. João gritou:

- Doido! Ta querendo morrer?- Ficou pensando naquelas discussões de trânsito por motivos bobos, batidas na traseira que terminavam em tragédia.Achou melhor se resignar. A resignação, numa cidade grande como São Paulo, era um ato heróico. Poderia assegurar a própria vida.

De repente, de tanto procurar achou uma estação de rádio. Eram quase 18:20 min.E ele ouviu a Serenata de Schubert. De repente, se sentiu transportado para bem longe dali. O corpo estava dentro do carro e esperava o desenrolar do engarrafamento. Mas sua alma estava bem longe dali.

Abriu o vidro para sentir um pouco de vento ou brisa. O ar estava quente e sufocante,mas a música o tranqüilizou.
Abriu os olhos e viu outra moto passar por ele, mas ela ficou parada. Era uma motocicleta simples. Ele viu a silhueta de uma mulher montada na moto. As calças eram jeans, cabelos longos e castanhos,de capacete vermelho. Parecia não ter mais do que trinta e cinco anos. Havia algo enrolado no seu pescoço. Parecia um echarpe. A mulher estava esperando uma brecha para sair daquele caos e conseguiu. Arriscou-se e ultrapassou o carro do João.

“- Ah, esses motoqueiros se acham eternos! A velocidade causa uma certa embriaguez, uma pulsão pela morte. A velocidade deve embriagar”.-concluiu João enquanto ouvia a música.

A mulher de capacete e echarpe vermelho ultrapassou o carro do João, mas o echarpe voou e se prendeu no espelho retrovisor do carro do João. Ela nem se deu conta disso e seguiu seu caminho.

A princípio João ficou irritado, mas depois achou interessante. O echarpe esvoaçante de uma motoqueira desconhecida esvoaçando ao som de Schubert.Logo depois, o trânsito deslanchou e João achou melhor parar logo no acostamento para desvencilhar seu espelho retrovisor daquele echarpe. Parou o carro. Desceu rapidamente e pegou o echarpe vermelho. Parecia de seda e desenhos de flores grandes e coloridas.

João chegou em casa. O apartamento estava às escuras; a esposa havia saído. Ele tomou uma chuveirada e foi se deitar. O corpo doía muito.Não havia jantar no forno. Aliás, ele mal via a esposa durante a semana. Eles mal conversavam. Arrastavam aquela união por medo do rompimento. Medo do novo. Medo de ter medo. Comodismo.

João foi para o escritório. Ligou o micro e procurou a música de Schubert. Segurou o echarpe entre as mãos e sentiu um perfume delicioso e amadeirado. O aroma parecia refinado, de perfume francês. João sentiu uma excitação deliciosa; um misto de alegria e curiosidade infantil.

Como seria a vida daquela motoqueira? Quem a havia presenteado com aquele perfume francês? O marido? Um jovem namorado? O amante secreto? Enquanto ouvia Schubert, João sentia o perfume invadir sua alma e seu corpo adormecido pela rotina da vida.

Dias depois, a esposa encontrou o echarpe perfumado. Houve uma briga muito feia. A esposa era uma mulher infeliz. Seu corpo já não mais vibrava com o toque do João. Ele era apenas o chinelo velho ou o pijama que se movia na cama enquanto a esposa ouvia seu ronco. Não havia mais espaço pra música, para o sonho, para os encantos da sedução. O quarto do casal parecia um sepulcro vazio e cinzento.

João se mudou para uma quitinete, mas levou o echarpe consigo. O echarpe que provocou sua esposa e atiçou sua imaginação; uma traição que nunca aconteceu. O echarpe, o perfume e Schubert- uma combinação estranha e mágica.

O marido deu de ombros.Não lamentava o final do casamento.Talvez já esperasse por esse desfecho. Queria mudanças. O ranço de um casamento aparentemente estável já não o satisfazia. Quando precisamos de mudanças; nós damos um jeitinho e elas acontecem. E, qualquer coisa, pode ser o começo, o gatilho para a decisão e a mudança.

Um dia, João, parou em frente à perfumaria do shopping. Entrou timidamente. A balconista era jovem e loira e o atendeu com um sorriso de batom vermelho. João falou com voz trêmula enquanto tirava o echarpe do bolso do casaco:

- Dei esse perfume de presente para a...(sua voz tremeu um pouco) para minha esposa. Faz tempo...Faz algum tempo... Ela adora esse aroma, mas esqueci o nome do perfume. – a bela jovem pegou o echarpe e sentiu o perfume. Seus olhos discretamente maquiados sorriram. E ela afirmou:

- Senhor, essa é uma fragrância francesa chamada Angel. O senhor deseja comprar outro frasco? – perguntou gentilmente. João sentiu vontade de rir, mas comprou. E, assim, ele viveu. Impregnava o echarpe da fragrância enquanto ouvia Schubert nos engarrafamentos após o trabalho.Parecia um ritual de felicidade.

E ,assim ,ele descobriu na imaginação o poder de sonhar e ser feliz. A mulher desconhecida, agora, morava em seus sonhos. João refletiu sobre sua vida, a rotina, o engarrafamento. Agora, o engarrafamento era esperado com um sabor de curiosidade excitante. Um belo insight o acordou do pesadelo da rotina.

No engarrafamento,sua criatividade ficava em alta. Quem sabe a motoqueira misteriosa apareceria? Agora, ele andava sempre com o echarpe dentro do carro. Um perfumado souvenir. Um sinal para aproveitar mais a vida e deixar de lado o estress.

Sua vida pouco mudou. Ainda havia engarrafameto, estress e buzinhas estridentes enquanto se encaminhava para o trabalho de manhã. Não havia mais uma esposa e nem um café da manhã rotineiro. A vida era agora uma caixa de surpresas e, de repente, ele se sentia vivo!

Um dia, um telefonema o surpreendeu:

"- João, Leandro nosso amigo pianista, vai fazer um recital. Vai tocar Schubert. Que tal fazer companhia ao seu amigo divorciado?"- convidou o amigo.- João ouviu o convite durante o engarrafamento através do celular. O echarpe agora morava no seu carro e sinalizava sempre: curiosidade, perfume e vida nova.

João aceitou o convite. Fazia muito tempo que não saía para um recital de piano. O máximo que fazia era tomar chopp num barzinho. E, enquanto tomava o líquido mágico pensava na vida.

Agora, estava ao sabor da vida! Era mais excitante e promissora! Sua mente trabalhava a seu favor. Ao mesmo tempo, nada havia acontecido que prometesse felicidade ou momentos diferentes! Mas o echarpe perfumado parecia um sinal para apreciar mais a vida e viver de modo mais assertivo. Apesar do fim do seu casamento, João se sentia muito bem.

Aceitou o convite. No dia marcado, parou o carro no estacionamento do teatro. Enquanto caminhava pensativo e quase feliz uma mulher passou por ele. Ele reconheceu os cabelos longos e castanhos. E o perfume era Angel. Seria a misteriosa motoqueira do echarpe perfumado?

Estava acompanhada por uma amiga. João sentiu uma grande emoção de reconhecimento e dúvida. Tudo ao mesmo tempo. Seria sua musa?

Enquanto isso ,Maria Luíza, a motoqueira misteriosa, caminhava com a amiga. Falava sem parar. A amiga comentou:

- Leandro merece. Ele é um grande pianista!- e assim você vai esquecer esse echarpe que perdeu naquele engarrafamento.

- Foi um presente especial , Ana.- se queixou Maria Luíza enquanto se lembrava do amante. Mário, seu grande amor, a presenteara com o echarpe. E junto veio um frasco da fragancia Angel. - Ana, não sei quando terei dinheiro para comprar outro perfume francês.- Ana deu de ombros e sorriu:

- A vida é cheia de surpresas e seu amante casado sumiu... Os perfumes acabam, mas a vida continua.-sinalizou a amiga.

Maria Luiza suspirou e caminhou para o teatro. Enquanto isso, João a seguia discretamente. O echarpe com aroma do perfume Angel estava no carro. De repente, João sentiu alguns pingos. Uma chuva ameaçava cair. A bela motoqueira ameaçou correr com receio de que a chuva repentina ameaçasse a chapinha e o cabelo liso e brilhante. João se adiantou. Aproximou-se e abriu o guarda-chuva. Era sua mania de homem previdente.Andava sempre com um guarda-chuva a tiracolo.

Maria Luiza e Ana se surpreenderam com a atitude daquele homem estranho, mas aceitaram a providencial cobertura. João arriscou bem-humorado:

- Meu nome é João e também vou assistir o recital do meu amigo Leandro. Ele vai tocar a Serenata de Schubert, minha música especial.- seus olhos brilharam. Maria Luiza olhou para ele e seus olhos sorriram. João sentiu a proximidade dela e o aroma amadeirado de Angel. O mistério seria desvendado? Os tres entraram juntos no teatro. João se sentou ao lado de Maria Luiza. Ele sentiu novamente o perfume misterioso. De repente, Maria Luiza disse com ar assustado:

- Nossa, será que tranquei o cadeado da moto?Ana respondeu com um sorriso ironico:

João olhou para ela e sorriu. A noite prometia sim. Lembrou-se do echarpe florido e imaginou um futuro colorido com engarrafamentos sim, mas com tema musical de Schubert. E a magia da nova etapa da sua vida estava apenas começando.




Preste atenção aos sinais que a vida lhe dá. Aproveite as oportunidades. Tenha a coragem de mudar no que for preciso! As mudanças podem causar dor, mas serão , no futuro sempre benéficas para sua vida- um amigo espiritual.

Vídeo de Schubert - Serenade
Canal de bechtloffjulio


Sandra Cecília

 

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